A conta impossível: o salário já não chega para uma casa - Sociedade Civil
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Resumo

  • Quando a taxa de esforço passa a medir a totalidade do rendimento, deixou de ser uma medida de prudência.
  • O rendimento mediano das famílias subiu cerca de 34% em termos nominais entre o início de 2019 e o terceiro trimestre de 2025.
  • É a do filho que volta para o quarto de adolescente aos 32 anos, depois de a renda do T1 onde vivia ter sido atualizada para um valor que o ordenado não cobre.

Os rendimentos das famílias portuguesas subiram em seis anos. Mesmo assim, a casa ficou mais longe. A explicação está na velocidade — e percebê-la é o primeiro passo para não se sentir culpado pela conta que não fecha.

Comprar a casa mediana em Lisboa exige hoje, em vários cenários de cálculo, mais do que um salário mediano inteiro para pagar a prestação. O número é absurdo à primeira leitura. À segunda, explica uma geração.

O que é a taxa de esforço

A taxa de esforço é a fatia do rendimento que se gasta com a casa. Calcula-se dividindo os encargos mensais com a habitação pelo rendimento mensal líquido. A regra prudente diz que não deve passar de 35% a 40%. Acima disso, qualquer imprevisto — um carro avariado, um mês de doença — empurra a família para o vermelho.

Quando a taxa de esforço passa a medir a totalidade do rendimento, deixou de ser uma medida de prudência. Passou a ser uma medida de impossibilidade.

Os salários subiram. E não chegou.

Aqui está a parte contraintuitiva. Não é verdade que os salários portugueses tenham ficado completamente parados. O rendimento mediano das famílias subiu cerca de 34% em termos nominais entre o início de 2019 e o terceiro trimestre de 2025.

O problema é a corrida desigual. Enquanto o salário andava, a casa corria a outra velocidade. A acessibilidade à habitação deteriorou-se apesar desse aumento de rendimento, porque os preços e as rendas subiram muito mais depressa. O resultado mede-se em famílias excluídas: em 2019, cerca de 70% dos agregados conseguiam aceder à casa mediana dentro de uma taxa de esforço de 40%; em 2023, eram menos de 37%.

Em seis anos, perdeu-se quase metade da classe que conseguia comprar casa sem se afundar. Não porque essa classe tenha empobrecido — ganha mais do que ganhava. Porque a casa se afastou mais depressa do que ela se aproximou.

Arrendar também deixou de salvar

A reação natural de quem não pode comprar é arrendar. Essa porta também se estreitou. O peso da renda no rendimento mediano aumentou de forma acentuada desde 2019. Em várias cidades, arrendar deixou de ser a etapa intermédia antes da compra e passou a ser outro bloqueio.

Há uma micro-história nestes números que raramente entra nas estatísticas. É a do filho que volta para o quarto de adolescente aos 32 anos, depois de a renda do T1 onde vivia ter sido atualizada para um valor que o ordenado não cobre. A casa dos pais deixou de ser etapa. Passou a ser destino.

O que isto não é

Não é uma questão de gestão doméstica. Não há orçamento familiar, por mais apertado, que transforme uma taxa de esforço impossível num número pagável. Quem sente que falhou por não conseguir comprar casa está a olhar para o problema errado: a conta não fecha porque foi desenhada por um mercado que corre mais depressa do que os salários, não porque alguém somou mal.

A queda das taxas Euribor e alguns apoios à compra podem aliviar prestações no curto prazo. Mas aliviar um número impossível é apenas deixar de piorar. Não é resolver.

Fontes

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