Marcelo Caetano: o último chefe do regime que caiu no Carmo - Sociedade Civil
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Resumo

  • Mas, quando chegou o 25 de Abril de 1974, era ele quem estava no Quartel do Carmo, cercado pela coluna de Salgueiro Maia, a negociar a rendição de uma ditadura que já não conseguia reformar-se nem vencer a guerra.
  • A queda no Carmo foi o fim de Marcelo Caetano e, sobretudo, o fim da ilusão de que a ditadura podia transformar-se sem deixar de ser ditadura.
  • Caetano não rompeu com a guerra, não desmantelou a repressão e não abriu o sistema a eleições livres.

Marcelo Caetano foi o último chefe do Governo do Estado Novo. Sucedeu a António de Oliveira Salazar em 1968, prometeu uma abertura limitada e ficou associado à chamada “primavera marcelista”. Mas, quando chegou o 25 de Abril de 1974, era ele quem estava no Quartel do Carmo, cercado pela coluna de Salgueiro Maia, a negociar a rendição de uma ditadura que já não conseguia reformar-se nem vencer a guerra.
A sua figura continua a exigir leitura cuidadosa. Marcelo Caetano não foi Salazar, mas também não rompeu com o salazarismo. Ensaiou mudanças de estilo, permitiu alguns sinais de descompressão política e falou uma linguagem mais moderna. No essencial, manteve a censura, a polícia política, o partido único e a Guerra Colonial.
A queda no Carmo foi o fim de Marcelo Caetano e, sobretudo, o fim da ilusão de que a ditadura podia transformar-se sem deixar de ser ditadura.
O herdeiro de Salazar
Marcelo Caetano era jurista, professor universitário e uma das figuras mais importantes do regime muito antes de chegar ao poder. Tinha prestígio intelectual, experiência governativa e ligação ao aparelho do Estado Novo. Quando Salazar ficou incapacitado em 1968, Caetano foi escolhido para lhe suceder como Presidente do Conselho.
A expectativa de mudança foi real. Parte da sociedade portuguesa, incluindo sectores moderados e alguma oposição, esperou que Caetano abrisse o regime. O país estava cansado de imobilismo, censura e guerra. A nova liderança parecia menos fechada, menos ruralista, mais capaz de adaptar o Estado Novo ao mundo contemporâneo.
Mas herdar uma ditadura é diferente de reformá-la. Caetano dependia de equilíbrios internos, dos sectores mais conservadores, das Forças Armadas, da polícia política e da obsessão imperial. O reformador ficou preso à máquina que dizia querer aliviar.
A “primavera marcelista”
Nos primeiros anos, houve sinais de abertura. Alguns exilados puderam regressar. A oposição teve margens ligeiramente maiores. A Assembleia Nacional acolheu uma chamada “ala liberal”. A linguagem oficial tornou-se menos rígida. A PIDE passou a chamar-se DGS. A censura foi rebaptizada como Exame Prévio.
Mas a mudança foi mais cosmética do que estrutural.
A polícia política continuou a existir. A censura continuou a cortar. As eleições continuaram sem verdadeira liberdade. Os partidos de oposição não foram legalizados. A Guerra Colonial continuou a consumir vidas e recursos. A “primavera” não chegou a transformar o regime; apenas lhe mudou a temperatura durante algum tempo.
Poderiam argumentar que Marcelo Caetano queria ir mais longe, mas não conseguiu. Talvez. Governar é também escolher os riscos que se aceita correr. Caetano não rompeu com a guerra, não desmantelou a repressão e não abriu o sistema a eleições livres. A sua intenção reformista, se existiu em termos mais profundos, ficou subordinada à sobrevivência do regime.
A guerra que bloqueou tudo
A Guerra Colonial foi o grande bloqueio do marcelismo. Desde 1961, Portugal combatia em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique. Quando Caetano chegou ao poder, o conflito já tinha sete anos. Quando caiu, tinha treze.
O regime continuava a defender a ideia de uma nação “pluricontinental”, recusando a independência dos territórios africanos. Mas a realidade militar e internacional era cada vez mais desfavorável. A ONU pressionava. Os movimentos de libertação resistiam. As Forças Armadas desgastavam-se. Jovens portugueses morriam, ficavam feridos ou fugiam à incorporação.
Marcelo Caetano percebeu o problema, mas não encontrou — ou não aceitou — a solução política necessária. Sem resolver a guerra, não podia salvar o regime. E sem democratizar o regime, não podia resolver a guerra.
Foi esse nó que o MFA cortou.
O país que Marcelo não conseguiu abrir
Portugal no início dos anos 70 estava longe da propaganda oficial. O analfabetismo ainda era elevado. Muitas casas não tinham água canalizada, banho ou saneamento. A emigração continuava a levar centenas de milhares de portugueses para França, Alemanha, Luxemburgo ou Suíça. A juventude universitária contestava. Os trabalhadores faziam greves apesar da repressão. A Igreja progressista já não era unanimemente dócil. Os militares perdiam paciência.
A televisão mostrava um país moderno em pequenas doses. A censura escondia o resto.
Caetano tentou gerir esta contradição com prudência e controlo. Mas as ditaduras raramente sobrevivem quando prometem mudança sem permitir liberdade. Criam expectativas nos moderados e medo nos duros. Desiludem uns e irritam outros.
O Carmo: o fim encenado
Na manhã de 25 de Abril de 1974, com tropas do MFA em Lisboa, Marcelo Caetano refugiou-se no Quartel do Carmo, sede da GNR. O edifício foi cercado pela coluna de Salgueiro Maia. A multidão juntou-se no largo.
Caetano recusou entregar o poder a um capitão. Exigiu a presença de um general para que a autoridade não “caísse na rua”. António de Spínola foi chamado e recebeu a rendição.
Este detalhe é revelador. Mesmo no fim, Caetano pensava em hierarquia, forma, continuidade do Estado. Mas o que estava em causa já não era uma transição controlada dentro do regime. Era a derrota do regime.
Ao sair na chaimite “Bula”, Marcelo Caetano deixou o poder sob o olhar da população. A ditadura, que durante décadas desconfiara da rua, caiu diante dela.
O exílio no Brasil
Depois da revolução, Marcelo Caetano partiu para o exílio no Brasil, tal como o Presidente Américo Tomás. Viveu no Rio de Janeiro, onde leccionou Direito, e morreu em 1980.
No exílio, escreveu sobre o regime, a sua queda e a sua visão dos acontecimentos. Como muitos dirigentes depostos, tentou justificar opções e enquadrar responsabilidades. A sua memória nunca deixou de ser disputada: para alguns, foi um reformista bloqueado; para outros, o último administrador de uma ditadura repressiva e colonial.
As duas leituras não têm o mesmo peso factual. Marcelo Caetano pode ter sido mais aberto do que Salazar em estilo e diagnóstico, mas governou mantendo os pilares autoritários do Estado Novo. A responsabilidade política é inseparável do cargo que exerceu.
Marcelo Caetano foi alternativa ou continuidade?
A resposta mais rigorosa é: foi tentativa limitada de adaptação dentro da continuidade. Não quis, não pôde ou não soube fazer a ruptura que a História exigia. Mudou nomes, discursos e algumas margens. Não mudou a natureza do poder.
A censura continuou. A polícia política continuou. A guerra continuou. A oposição continuou sem liberdade plena. Os portugueses continuaram sem escolher democraticamente o Governo.
Por isso, quando o 25 de Abril chegou, não derrubou apenas um homem. Derrubou a falência de uma reforma impossível.
Porque Marcelo Caetano ainda importa
Marcelo Caetano importa porque ajuda a compreender uma lição política actual: regimes autoritários podem tentar sobreviver com reformas de superfície. Podem trocar linguagem, suavizar símbolos, permitir pequenas aberturas e vender modernização sem liberdade. Mas, se mantêm censura, repressão, guerra e ausência de eleições livres, continuam a ser ditaduras.
O marcelismo mostra também que adiar decisões difíceis pode tornar o desfecho mais brusco. Se Portugal tivesse reconhecido mais cedo o direito à autodeterminação, se tivesse aberto o sistema político, se tivesse desmontado a polícia política e permitido eleições livres, talvez a transição tivesse sido diferente. Não foi.
No Largo do Carmo, Marcelo Caetano caiu porque a ditadura já não tinha futuro. O último chefe do regime saiu numa chaimite. O país saiu para a rua.
26 e 27
Pensei durante dois segundos

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