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Resumo

  • Mas por que razão tantos portugueses, confrontados com a censura, a repressão e os abusos da PIDE, escolheram o fingimento.
  • O trauma do medo — e a vergonha da passividade — criaram tabus intergeracionais.
  • Com o crescimento de discursos revisionistas, negacionistas e apologistas de Salazar, compreender o fingimento torna-se imperativo.

“Não se falava disso.” Esta frase, repetida à exaustão por quem viveu sob o Estado Novo, não é apenas uma constatação — é um código. Durante quase meio século de ditadura, o silêncio tornou-se uma forma de defesa e, em muitos casos, de sobrevivência. Mas por que razão tantos portugueses, confrontados com a censura, a repressão e os abusos da PIDE, escolheram o fingimento? Que dinâmicas sociais, culturais e psicológicas sustentaram esse manto de normalidade aparente?

A resposta não é simples — nem confortável. Envolve medo, claro, mas também conformismo, conveniência, ignorância induzida e, nalguns casos, cumplicidade. O fingimento coletivo foi parte integrante da engrenagem autoritária.

O medo como linguagem nacional

O medo não precisava de uniformes nem de celas. Circulava de boca em boca, de geração em geração. Uma piada mal contada, um livro fora do lugar, um nome maldito podiam ser suficientes para uma visita noturna da PIDE. O medo aprendia-se cedo. “A minha mãe dizia: ‘Não fales dessas coisas na escola’. Eu nem sabia o que eram ‘essas coisas’”, recorda António G., que tinha dez anos quando viu o pai ser levado, em 1971, por participar num plenário sindical ilegal.

O receio de represálias instalava-se como segunda natureza. Muitos não fingiam por indiferença, mas porque sabiam — ou intuíram — o custo de falar.

Cultura de obediência e desinformação

O Estado Novo cultivou uma pedagogia da submissão. A escola ensinava amor à pátria, devoção à autoridade e repulsa pela “desordem”. Os manuais escolares descreviam Salazar como pai da Nação e omitiram, durante décadas, o conceito de ditadura. A imprensa, domesticada pela censura, fabricava uma realidade higienizada. As notícias sobre a guerra colonial, a pobreza ou os presos políticos eram inexistentes ou deturpadas.

Em muitas zonas rurais e cidades do interior, essa construção oficial era a única narrativa acessível. “Não sabíamos de nada. Era como se o país fosse um convento em paz”, admite Maria C., hoje com 91 anos, que viveu toda a vida em Ferreira do Zêzere. A televisão chegou tardiamente, e os jornais clandestinos circulavam com grande dificuldade fora dos meios urbanos organizados.

Conformismo, sobrevivência, oportunismo

Nem todos calaram por medo. Para muitos, a adaptação foi uma forma de garantir trabalho, tranquilidade, ascensão social. O silêncio tornou-se moeda de troca. Evitar conversas, distanciar-se de vizinhos “problemáticos”, fingir que não se sabia — tudo isso podia significar segurança.

Havia também quem se aproveitasse do regime: donos de fábricas que beneficiavam da repressão laboral, funcionários públicos que prosperavam na hierarquia salazarista, delatores ocasionais a troco de favores. “Não nos enganemos: houve medo, mas também houve quem preferisse fechar os olhos para não estragar o seu lugar”, resume o sociólogo Luís Matos.

O silêncio como herança

O mais trágico é que, mesmo depois do 25 de Abril, o silêncio perdurou. Muitos dos que fingiram que nada acontecia recusaram, durante anos, discutir a ditadura em casa. O trauma do medo — e a vergonha da passividade — criaram tabus intergeracionais. “O meu avô viveu toda a vida a dizer que ‘não se metia em política’. Mas hoje sei que isso significava não querer ver o que se passava mesmo à frente dos olhos”, diz Inês F., neta de um ferroviário perseguido pela PIDE.

As democracias constroem-se também sobre a capacidade de encarar o passado. Reconhecer que grande parte do país se calou — e porquê — não serve para julgar retroativamente, mas para compreender como se alimentam os autoritarismos: não só pela violência, mas pela normalização do medo, pela aceitação do intolerável e pela indiferença quotidiana.

Hoje, fingir já não chega

Com o crescimento de discursos revisionistas, negacionistas e apologistas de Salazar, compreender o fingimento torna-se imperativo. Não para repetir o erro, mas para o evitar. Porque, como dizia o antifascista italiano Primo Levi, “aconteceu, e portanto pode voltar a acontecer”. O primeiro passo é deixar de fingir que não sabemos.


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