LexisNexis e CLEAR: os dados privados que alimentam o ICE - Sociedade Civil
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Resumo

  • O dossiê aponta um contrato na ordem dos 22,1 milhões de dólares, com acesso a uma base descrita como gigantesca (de moradas históricas a contas de utilidades e contactos), além de dados de “jail booking” em escala nacional.
  • A Thomson Reuters entra através do CLEAR, descrito no dossiê como motor de agregação de dados financeiros e de utilidades, com capacidade de localizar pessoas por assinaturas domésticas e cruzamentos de identidade.
  • A EFF, em janeiro de 2026, descreveu esta vaga de compras como uma “shopping spree” de vigilância e apontou contratos e ferramentas novas no arsenal do ICE.

O ICE não vive só de bases públicas e cooperação policial. Alimenta-se, cada vez mais, de um mercado paralelo onde utilidades, registos de prisões, moradas, matrículas e sinais de telemóvel circulam como produto. O dossiê mapeia esta teia com nomes e valores: LexisNexis (Accurint + Appriss), Thomson Reuters (CLEAR), Penlink (Webloc/Tangles), CTD via Venntel e Cellebrite para extração forense.

Há um detalhe que incomoda por ser simples: quando uma lei “santuário” trava a colaboração local, a compra de dados substitui a porta institucional. Não há audiência, não há contraditório, não há juiz a perguntar “porquê este alvo?”. E o resultado não fica teórico: vira campainha tocada às seis da manhã.

Um “Estado de dados” com contratos e logótipos

O caso mais citado é a LexisNexis Risk Solutions. O dossiê aponta um contrato na ordem dos 22,1 milhões de dólares, com acesso a uma base descrita como gigantesca (de moradas históricas a contas de utilidades e contactos), além de dados de “jail booking” em escala nacional. Esse valor surge também em fontes públicas e em cartas de organizações de privacidade que pediram ao DHS que não renovasse o acordo. (EPIC) E existe rasto em registos federais de despesa: o USAspending lista um contrato do DHS com a LexisNexis, associado a serviços ligados a este ecossistema. (usaspending.gov)

A lógica é direta: o Estado compra a velocidade e a escala que um cidadão comum nunca alcança. Numa ação judicial e em documentação citada por organizações civis, aparece um número que dá vertigem: mais de 2.800 cadeias/prisões como origem de alertas de entradas e saídas, oferecidos em pacote. (Government Information Watch)

Micro-história, pequena e realista: em Lisboa, na Rua do Ouro, um turista pede direções e olha o telemóvel como bússola. Ninguém ali imagina que, do outro lado do Atlântico, o mesmo tipo de rasto — morada, consumo, localização inferida — sustenta operações de imigração com aparência “limpa”, porque vem com fatura. Daquele conforto, sobra um engano: a ideia de que “privado” significa “inofensivo”.

CLEAR, ALPR e a rotina transformada em mapa

A Thomson Reuters entra através do CLEAR, descrito no dossiê como motor de agregação de dados financeiros e de utilidades, com capacidade de localizar pessoas por assinaturas domésticas e cruzamentos de identidade. O retrato que emerge coincide com o que relatórios académicos e jornalismo investigativo vêm sublinhando há anos: a deportação “data-driven” nasce menos de um ficheiro único e mais de mosaicos de fontes privadas. (American Civil Liberties Union)

O dossiê liga ainda este universo à vigilância de estrada: **ALPR (leitores automáticosntegrações com fornecedores de tecnologia que mapeiam hábitos de condução. Nas últimas semanas, reportagens detalharam o uso crescente de leitores de matrículas e bases de localização para seguir suspeitos — e, nalguns casos, observadores e protestos. (The Washington Post)

Poderiam argumentar que isto reduz crime e acelera capturas “legítimas”. Concessão honesta: certas investigações ganham eficácia com dados. O problema surge quando o controlo democrático não acompanha a eficácia.

Penlink, CTD e o bairro inteiro na mira

A pedossiê chama-se geofencing: delimitar uma área e recolher todos os dispositivos presentes, um método associado a ferramentas como Webloc/Tangles (Penlink). A própria despesa federal deixa pegadas: o USAspending lista um contrato do DHS com a Penlink (PIID 70CMSD25P00000138), em 2025. (usaspending.gov)

E o debate técnico já não engana ninguém: AdID sem nome não é anonimato. Um telefone “dorme” num sítio e “acorda” noutro; o padrão reidentifica. A EFF, em janeiro de 2026, descreveu esta vaga de compras como uma “shopping spree” de vigilância e apontou contratos e ferramentas novas no arsenal do ICE. (Electronic Frontier Foundation)

Frase de impacto: **quando o mercado vende intimidade, o Estado compra alcae e o bolso digital aberto a ferros

No fim do pipeline, entra o telemóvel apreendido. O dossiê aponta um contrato de 11 milhões de dólares para tecnologia Cellebrite, associada a extração forense e desbloqueio de dispositivos. Fontes públicas recentes reforçam a existência de contratos multimilionários e a relevância desta ferramenta na estratégia de imigração e investigação(Forbes)

O que falta, aqui, não é retórica. Faltam respostas verificáveis: logs de pesquisa, critérios de alvo, regras de retenção e auditorias independentes. Sem isso, a promessa de “uso responsável” vira etiqueta.

Daquelas bases de dados, fica um aviso: o Estado já não precisa de bater à porta. Compra a chave.

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