Resumo
- Mas a guerra de 1948 e a Nakba marcaram o início de um processo de despovoamento sistemático.
- A “Lei da Presença dos Ausentes” de 1950 permitiu ao novo Estado confiscar propriedades de qualquer palestiniano que tivesse deixado a sua casa, mesmo que estivesse a poucos quilómetros de distância.
- Desde 2002, o Muro de Separacão isolou os subúrbios de Jerusalém Oriental, como Abu Dis e Beit Hanina, separando famílias e cortando o acesso à saúde e à educação.
Jerusalém: A Cidade Despovoada que se Tornou Ícone
Jerusalém é o epicentro simbólico da Palestina. Antes de 1948, a cidade era predominantemente árabe, com comunidades muçulmanas e cristãs a viver lado a lado com minorias judaicas. Mas a guerra de 1948 e a Nakba marcaram o início de um processo de despovoamento sistemático: bairros inteiros em Jerusalém Ocidental, como Qatamon, Talbiya, Baka e Lifta, foram esvaziados à força, e as suas casas entregues a recém‑chegados judaicos. Milhares de residentes palestinianos abandonaram a cidade em poucos dias, empurrados pelo medo e pela violência.
A “Lei da Presença dos Ausentes” de 1950 permitiu ao novo Estado confiscar propriedades de qualquer palestiniano que tivesse deixado a sua casa, mesmo que estivesse a poucos quilómetros de distância. Em nome da lei, mais de 30 bairros árabes foram destruídos ou hebraizados. Os nomes das ruas foram alterados, mesquitas e igrejas transformadas em sinagogas ou armazéns, cemiterios deslocados. A vila de Lifta, por exemplo, permanece em ruínas como testemunha muda da expulsão.
Com a Guerra de 1967, Israel ocupou Jerusalém Oriental e, em 1980, anexou-a unilateralmente. Seguiu-se a segunda fase da Nakba na cidade: a população palestiniana passou a viver com estatuto de “residente permanente” e não de cidadão. Esta residência pode ser revogada se o titular deixar a cidade por alguns anos. Ao mesmo tempo, colonatos judaicos foram construídos em torno e no interior dos bairros palestinianos, enquanto licenças de construção eram sistematicamente negadas aos palestinianos.
Desde 2002, o Muro de Separacão isolou os subúrbios de Jerusalém Oriental, como Abu Dis e Beit Hanina, separando famílias e cortando o acesso à saúde e à educação. Checkpoints, policiamento intensivo e demolição de casas condicionam a vida quotidiana. Segundo a ONG B’Tselem, o objectivo político é garantir uma maioria judaica na cidade.
Apesar do cerco, Jerusalém permanece no imaginário palestiniano. Poetas, músicos e artistas da diáspora recuperam a cidade em canções e poemas. Para os refugiados nos campos do Líbano ou da Jordânia, a capital continua presente nas chaves das casas que os seus avós guardam. A sua memória resiste ao apagamento.
Jerusalém foi despovoada de palestinianos, mas não de memória. A história da cidade, marcada por expulsões e ocupação, é um lembrete de que não se pode construir um futuro justo sobre ruínas não reconhecidas.
Antes de 1948, Jerusalém era uma cidade de maioria árabe, com comunidades cristãs, muçulmanas e judaicas a partilhar ruas e bairros. A guerra que levou à criação do Estado de Israel mudou essa geografia para sempre. Os bairros palestinianos de Jerusalém Ocidental — Qatamon, Talbiya, Baka, Lifta — foram cercados e atacados pelas milícias sionistas. Mais de 30 mil residentes foram expulsos e as suas casas confiscadas, segundo dados do Comitê Internacional da Cruz Vermelha.
As moradias deixadas para trás foram rapidamente ocupadas por imigrantes judeus e sobreviventes do Holocausto. Ao abrigo da “Lei de Presença de Ausentes” (1950), o Estado declarou as propriedades palestinianas “abandonadas” e transferiu-as para instituições judaicas. Os nomes das ruas foram hebraizados, as mesquitas transformadas em sinagogas ou armazéns, os cemitérios ignorados. Vilas como Lifta, nas portas da cidade, permanecem hoje em ruínas — um monumento involuntário à limpeza demográfica.
A segunda fase da Nakba em Jerusalém iniciou-se em 1967, quando Israel ocupou a parte oriental da cidade. A anexação unilateral foi declarada ilegal pela ONU, mas, na prática, significou a extensão das demolições, colonatos e expulsões. A partir da década de 1970, Israel implementou uma política de manter uma “maioria judaica” em Jerusalém: limitou licenças de construção para palestinianos, revogou estatutos de residência e expropriou terras para projectos coloniais como Gilo, Pisgat Ze’ev e Har Homa.
Com o Muro de Separação, desde 2002, bairros inteiros foram isolados. Comunidades como Shuafat, Abu Dis e Beit Hanina ficaram fisicamente separadas do centro da cidade. Os palestinianos residentes possuem apenas estatuto de “residente permanente”; se viverem mais de sete anos fora dos limites municipais, perdem o direito a regressar. É uma forma de expulsão lenta e silenciosa.
Apesar do cerco, Jerusalém continua a ser o coração simbólico da Palestina. A Esplanada das Mesquitas e a Igreja do Santo Sepulcro permanecem centros de resistência espiritual e cultural. Poetas e músicos evocam a cidade como saudade e promessa. Para muitos refugiados, Jerusalém é um lugar onde nunca viveram, mas que vive dentro deles.
A história de Jerusalém não é apenas a de uma cidade capturada: é a de uma comunidade despovoada, de uma identidade reconfigurada e de uma luta que persiste. Reconhecer essa realidade é essencial para qualquer solução justa no futuro.