Resumo
- Um trabalho sobre as legislativas italianas de 2018 concluiu que a exposição a notícias falsas favoreceu os partidos populistas, independentemente do apoio prévio, mas também que a desinformação não explica sozinha o crescimento do populismo – é um fator entre outros, não a causa única.
- Na esfera experimental, um trabalho publicado em 2021 mostra que basta menos de cinco minutos de exposição a notícias falsas para alterar comportamentos, ainda que em tarefas simples de laboratório – não em boletins de voto.
- O autor conclui que a desinformação “pode modificar de forma encapotada o comportamento” e que os mecanismos de proteção atuais não chegam.
A campanha presidencial entra nos últimos dias com um número em cima da mesa: 7,7 milhões de visualizações de conteúdos desinformativos em quatro semanas, em eleições com 5 a 6 milhões de votantes efetivos. A investigação do LabCom-UBI e do ODEPOL mostra a escala do fenómeno; falta responder à pergunta que realmente interessa ao eleitor indeciso: esta desinformação pode mesmo mudar votos?
A resposta curta é desconfortável, mas honesta: sim, pode – mas não da forma simples que às vezes imaginamos. Não há uma “fake news” que, sozinha, vire um país ao contrário. Há, isso sim, um somatório de pequenos desvios, hesitações e desistências que, em eleições renhidas, chegam para trocar o vencedor.
O que a ciência já sabe: efeito real, mas limitado
Nos últimos anos, vários estudos tentaram medir, com dados reais, se a exposição a fake news altera o comportamento eleitoral. Um trabalho sobre as legislativas italianas de 2018 concluiu que a exposição a notícias falsas favoreceu os partidos populistas, independentemente do apoio prévio, mas também que a desinformação não explica sozinha o crescimento do populismo – é um fator entre outros, não a causa única. (ScienceDirect)
Outras investigações, sobretudo nos EUA, chegam a uma espécie de meio-termo: quem vê desinformação tende a acreditar mais em declarações falsas, mas a mudança direta de voto é, em média, pequena. Um estudo de referência sobre a eleição americana de 2016 fala em efeitos “limitados para lá do aumento de crenças erradas”, embora detecte impacto em segmentos específicos. (Cambridge University Press & Assessment)
Na esfera experimental, um trabalho publicado em 2021 mostra que basta menos de cinco minutos de exposição a notícias falsas para alterar comportamentos, ainda que em tarefas simples de laboratório – não em boletins de voto. O autor conclui que a desinformação “pode modificar de forma encapotada o comportamento” e que os mecanismos de proteção atuais não chegam. (ScienceDirect)
Traduzindo tudo isto para linguagem de urna: a desinformação raramente transforma um eleitor convicto em militante do lado oposto, mas pode empurrar indecisos, reforçar simpatias vagas por candidatos anti-sistema, ou, simplesmente, aumentar o cinismo ao ponto de alguém ficar em casa no dia da votação.
Pequenas mudanças, grandes estragos em eleições renhidas
Imagine uma noite de domingo num supermercado de Setúbal. Um homem de 40 e poucos anos, que se descreve como “farto de todos”, espera na fila com o telemóvel na mão. Vê um vídeo viral que “prova” que o SNS prioriza imigrantes. Não verifica, não compara com dados oficiais, não lê o desmentido no dia seguinte. Sai de lá com uma impressão: “se calhar este tipo que fala mais bruto tem razão”.
Será que esse vídeo decide, sozinho, o seu voto? Provavelmente não. Mas pode inclinar levemente a balança num eleitor que já estava desconfiado. Em eleições decididas por um ou dois pontos percentuais, uma sucessão de micro-impactos assim chega para trocar quem entra em Belém.
É aqui que a investigação internacional insiste: efeitos médios pequenos podem ter consequências grandes em eleições equilibradas. Um estudo recente sobre fact-checking em campanhas eleitorais mostra que corrigir desinformação reduz a crença em falsidades, mas mexe pouco nas simpatias por candidatos conhecidos – já nos políticos menos familiares, as correções podem até baixar claramente a intenção de voto. (Ecker Memory & Cognition Lab)
E em Portugal em 2026: desinformação pode mudar votos aqui?
Voltamos aos nossos dados. O estudo do LabCom/ODEPOL identifica 14 casos principais de desinformação, quase todos ligados à candidatura de André Ventura, que juntos somam os tais 7,7 milhões de visualizações, 324 mil reações e mais de 50 mil comentários.
O relatório não diz quantos votos isto altera – seria intelectualmente desonesto fingir que sabemos. O que afirma é outra coisa:
- a desinformação satura o espaço público digital em vésperas de voto;
- concentra-se num ator central, com estratégia profissionalizada;
- e erode a “realidade partilhada”, ao atacar sobretudo media e instituições.
Ou seja: mesmo que não consigamos medir em quantos milhares de votos se traduz, já percebemos o cenário de fundo. Em vez de discutir programas, o país perde tempo a discutir se um vídeo de Milão mostra uma missa atacada ou apenas uma passagem de ano caótica; em vez de debater modelos de SNS, gasta energia a desmontar mitos sobre “turismo de saúde” inventado.
Num bar em Viana do Castelo, um homem indeciso explica assim: “Eu já nem sei em quem acreditar, por isso voto em quem parece contra isto tudo.” Não é a confirmação de um estudo científico, mas é um retrato cru do que os investigadores chamam “efeito ambiente”: a mentira constante não precisa de convencer, basta criar nojo geral da política.
“Mas se eu estiver atento, a desinformação ainda me apanha?”
Provavelmente esta é a tua dúvida: se eu leio notícias, vejo debates, desinformação pode mudar o meu voto à mesma?
Aqui convém fazer duas concessões:
- A boa notícia
A esmagadora maioria dos estudos mostra que fact-checking e jornalismo explicativo funcionam, pelo menos em parte. Correções bem feitas reduzem crenças falsas em vários países e contextos, mesmo quando o impacto na intenção de voto é discreto. (pnas.org) - A má notícia
A investigação portuguesa sobre estas presidenciais conclui que as respostas – fact-checks, comunicados, campanhas oficiais – operam numa escala de velocidade muito inferior à da desinformação viral. Quando o desmentido chega, o vídeo já passou, o tema já mudou, a mentira já deixou rasto.
Portanto, se estiveres atento, reduces muito o risco de te deixares enganar. Mas não estás imune ao ambiente: um feed permanentemente contaminado por indignações fabricadas pode empurrar-te para a abstenção, para o voto “de raiva” ou para o cinismo absoluto – tudo isso também conta como efeito político da desinformação.
O que fazer, sendo indeciso, a quatro dias do voto?
Três ideias simples, sem moralismos:
- Escolhe pelo menos duas fontes que não se suportam entre si – por exemplo, um jornal mais à esquerda e outro mais ao centro-direita. Se os factos básicos coincidem, é sinal de chão firme.
- Desconfia de conteúdos que te tratam como génio incompreendido – “só tu vês a verdade, o resto são carneiros” é sempre a frase preferida de quem quer manipular.
- Pergunta sempre “quem ganha com isto?” antes de partilhar um vídeo ou uma frase explosiva. Nem é preciso grande teoria; basta um segundo de pausa.
No fim, a pergunta continua a ecoar: desinformação pode mudar votos? Sim, pode – pouco a pouco, pessoa a pessoa, scroll a scroll.
E é precisamente por isso que, nestas presidenciais, o gesto mais radical pode ser tão simples como votar com a cabeça fria depois de confirmar o básico. A mentira não precisa de te virar de 180 graus; basta-lhe empurrar-te uns milímetros – porque, em democracia, às vezes são esses milímetros que decidem tudo.