Resumo
- antes de tentar enganar o eleitor, a máquina de desinformação tenta convencê-lo de que não pode confiar em ninguém que o alerte para a mentira.
- Não é avaliação crítica de um trabalho concreto, é campanha sistemática para instalar a ideia de que todo o jornalismo é, por definição, suspeito – exceto o que confirma a minha visão do mundo.
- A partir do momento em que qualquer manchete é automaticamente “fake news do sistema”, a mentira deixa de ser exceção e passa a ser apenas mais uma opinião.
Nas presidenciais de 2026, a desinformação não ataca apenas adversários políticos ou minorias. Aponta, antes de mais, ao mensageiro. Segundo o estudo do LabCom-UBI, em quatro semanas de monitorização 42,9% dos casos de desinformação tiveram como alvo direto os media e os jornalistas – seis dos 14 episódios principais identificados.
Números como os 7,7 milhões de visualizações de conteúdos falsos impressionam. Mas é este detalhe, discreto na tabela, que assusta mais os investigadores: antes de tentar enganar o eleitor, a máquina de desinformação tenta convencê-lo de que não pode confiar em ninguém que o alerte para a mentira.
Quando o alvo é o mensageiro
O dossiê sobre a desinformação nas presidenciais é claro na classificação: a categoria mais frequente é a “descredibilização dos media”. Estamos a falar de conteúdos que acusam jornalistas de censura, de alinhamento com “o sistema”, de manipular debates, de esconder dados, muitas vezes sem qualquer prova concreta – apenas slogans.
Num quadro branco de uma redação em Lisboa, alguém escreveu a caneta: “Hoje vão cair mais 500 insultos no Facebook”. Não é hipérbole. Depois de um fact-check sobre o vídeo da “islamização da Europa”, a caixa de comentários encheu-se de acusações de “vendidos”, “propaganda do regime”, “jornalixo”. Horas depois, um influenciador repescou esses comentários como “prova” de que “o povo já não acredita nos jornalistas” – num círculo perfeito em que o ataque legitima o ataque seguinte.
O relatório descreve esta tática como arma preventiva: ao descredibilizar antecipadamente quem desmente, imuniza-se a base de apoio contra futuros fact-checks. Se o mensageiro é suspeito à partida, a mensagem factual chega sempre atrasada e ferida.
Da crítica legítima ao linchamento organizado
Aqui entra a dúvida que muitos leitores colocam, e com razão: “Mas criticar jornalistas não é saudável numa democracia?” É. Criticar é não só legítimo como necessário: as redações erram, seguem agendas, reproduzem preconceitos, falham no escrutínio do poder.
O que vemos nestes ataques aos media, porém, é outra coisa. Não é avaliação crítica de um trabalho concreto, é campanha sistemática para instalar a ideia de que todo o jornalismo é, por definição, suspeito – exceto o que confirma a minha visão do mundo.
Há uma concessão honesta que convém fazer: esta estratégia pega precisamente porque encontra terreno fértil. Anos de concentração da propriedade dos media, precariedade nas redações e erros acumulados corroeram parte da confiança do público. Quando um candidato populista repete que “os jornalistas estão todos vendidos”, está a explorar uma fissura real – não a inventa do nada.
Importa, porém, outra coisa sublinhar: transformar desconfiança saudável em descrédito total é dinamitar o último espaço onde ainda podemos discutir factos comuns. A partir do momento em que qualquer manchete é automaticamente “fake news do sistema”, a mentira deixa de ser exceção e passa a ser apenas mais uma opinião.
A erosão da realidade partilhada
O dossiê de investigação é taxativo: a prevalência de ataques à credibilidade dos media é “o dado mais pernicioso a longo prazo”. Não é um detalhe lateral – é o coração do problema. Ao destruir a confiança nos “árbitros da verdade factual”, cria-se um terreno onde a desinformação política se torna virtualmente irrefutável para segmentos inteiros da população.
Num programa de rádio local, um ouvinte liga para comentar o caso do vídeo de Amesterdão. O jornalista explica que a igreja é hoje um centro cultural e que não houve ataque religioso. Resposta do ouvinte: “Vocês dizem isso porque são pagos para esconder a verdade.” Não há dado, não há prova, não há link que fure esta bolha – porque o problema já não é o conteúdo específico, é a fé de que “eles” mentem sempre.
Maior do que o barulho à volta de cada caso é, aqui, o desenho da estratégia:
- primeiro, insulta-se e ridiculariza-se jornalistas e órgãos de comunicação;
- depois, rotula-se todo o contraditório como censura;
- por fim, apresenta-se o próprio candidato como a única fonte de verdade “sem filtros”.
Quando este processo se consolida, a realidade deixa de ser algo que verificamos em conjunto e passa a ser algo que recebemos de um líder. E é nesse ponto que a desinformação deixa de ser ruído eleitoral para se transformar em risco estrutural para a democracia.
O que podem fazer redacções e cidadãos
O dossiê aponta caminhos, mesmo sabendo que nenhum é mágico. Para as redacções, recomenda integrar a verificação de factos no fluxo diário, em vez de tratar o fact-checking como apêndice de fim de semana, e investir em formação em OSINT e análise de redes sociais para mapear campanhas coordenadas de desinformação.
Há também trabalho de linguagem: explicar melhor como se apuram notícias, admitir erros com transparência, abrir mais portas ao escrutínio do próprio jornalismo. A autoridade não volta por decreto – conquista-se, devagar, com consistência.
Do lado dos cidadãos, o apelo é menos glamoroso, mas decisivo: antes de partilhar um post que chama “bando de vendidos” a todos os jornalistas, perguntar pelo menos qual é o interesse de quem o escreveu. E, quando um político diz que “os media mentem todos”, exigir exemplos concretos, verificáveis, não apenas raiva performativa em vídeo vertical.
No fim, o retrato é duro, mas não inevitável. Os ataques aos media estão no centro da estratégia de desinformação destas presidenciais porque é aí que se decide tudo o resto: se o árbitro cai, qualquer falta passa a golo válido.
E é essa a frase que fica, humana e incómoda: quando já ninguém acredita em ninguém, quem mente profissionalmente ganha por desistência dos outros.