Resumo
- A justificação de Washington – um misto de “autodefesa” e “operação policial” – soa mais a expediente jurídico do que a argumento sério.
- O que existe é um Governo hostil, autoritário, acusado de narcotráfico – tudo grave, mas nada que autorize uma potência a aterrar fuzileiros navais em Caracas e a instalar uma administração tutelar sobre um Estado soberano.
- Quando o mesmo Presidente que fala em “libertar o povo venezuelano” promete que o petróleo financiará a reconstrução sob liderança americana, a fronteira entre justiça e saque evapora-se.
Quando comandos norte-americanos capturam Nicolás Maduro em Caracas e, poucas horas depois, Donald Trump anuncia que os Estados Unidos vão “gerir” a Venezuela e o seu petróleo, não estamos perante uma nota de rodapé da história. Estamos a assistir, em direto, à normalização de um velho vício imperial com linguagem de século XXI.(TIME)
Dias depois, o Conselho de Segurança da ONU reúne de emergência, enquanto o secretário-geral fala em “precedente perigoso” e vários países denunciam a violação da Carta das Nações Unidas. A justificação de Washington – um misto de “autodefesa” e “operação policial” – soa mais a expediente jurídico do que a argumento sério.(Reuters)
Imperialismo EUA e petróleo Venezuela: tudo menos disfarçado
Trump não esconde a prioridade: empresas norte-americanas vão reconstruir e controlar a infraestrutura petrolífera venezuelana, modernizar refinarias como El Palito e aumentar a produção para vender “grandes quantidades” ao mercado internacional. “Estamos no negócio do petróleo”, disse. A franqueza é útil: corta a propaganda e deixa à vista o espólio.(TIME)
Durante anos, os EUA estrangularam a economia do país com sanções dirigidas ao sector energético, congelamento de ativos da PDVSA e perseguição a navios petroleiros. O objetivo declarado era mudar o regime; o não declarado, mas óbvio, era reconfigurar quem manda sobre as maiores reservas provadas de petróleo do mundo.(Wikipedia)
Agora, depois da operação militar, a mensagem é brutal na simplicidade: caem mísseis, cai um presidente, sobem ações de refinarias norte-americanas e caem as perspetivas dos concorrentes chineses que há anos investiam no crude pesado do Orinoco. Imperialismo 2.0 é isto: não precisa de colónias formais, basta o controlo da torneira energética.(Reuters)
Do direito internacional ao espólio energético
Washington invoca o artigo 51.º da Carta da ONU, o da legítima defesa. Especialistas em direito internacional lembram o óbvio: a Venezuela não atacou os EUA; o que existe é um Governo hostil, autoritário, acusado de narcotráfico – tudo grave, mas nada que autorize uma potência a aterrar fuzileiros navais em Caracas e a instalar uma administração tutelar sobre um Estado soberano.(timesofisrael.com)
A operação é apresentada como “aplicação da justiça” contra um “narco-terrorista”. Em teoria, seria uma ação de polícia internacional; na prática, é mudança de regime com gestão direta do território e dos recursos naturais. Quando o mesmo Presidente que fala em “libertar o povo venezuelano” promete que o petróleo financiará a reconstrução sob liderança americana, a fronteira entre justiça e saque evapora-se.(TIME)
Os manuais clássicos de escrita jornalística insistem em frases curtas, voz ativa, factos verificados – e o tema que temos pela frente exige precisamente isso.
E o povo venezuelano no meio disto?
Imagine-se uma enfermeira de Maracaibo, salário corroído pela hiperinflação, a ver na televisão o helicóptero norte-americano a levantar voo com Maduro algemado. Por um instante, talvez sinta alívio: o regime que a condenou à fila do pão parece ter terminado. No minuto seguinte, escuta Trump dizer que os EUA vão “gerir” o país e que as suas empresas vão tomar conta do petróleo. E a pergunta muda: de quem passamos a ser reféns?
Quando um povo vê o futuro vendido ao barril, o que está em causa já não é só geopolítica: é dignidade. Os venezuelanos não votaram nem em Maduro nem em Trump para governador colonial. Uma transição democrática legítima não nasce de uma ocupação militar seguida de contrato-programa com multinacionais energéticas; nasce de eleições livres, observadas e reconhecidas, sem pistolas apontadas a Miraflores nem a Washington.
“Mas Maduro é ditador”: a objeção necessária
Há uma objeção que aparece logo, e com razão: Maduro é um autocrata, responsável por repressão, presos políticos, corrupção e pela destruição de uma economia rica. Muitos venezuelanos podem ver a queda do regime como libertação. Ignorar isto seria desonesto.
Mas é precisamente aqui que o imperialismo 2.0 se torna mais perigoso. Porque instrumentaliza o sofrimento real de um povo para legitimar a apropriação de recursos. Hoje é um ditador latino-americano; amanhã pode ser qualquer Governo que atrapalhe interesses estratégicos de Washington – ou de outra potência. A mensagem enviada ao mundo é simples e inquietante: se tiver petróleo e um líder indesejado, prepare-se.(Encyclopedia Britannica)
Convém lembrar que Rússia e China também não são inocentes neste tabuleiro; investiram na Venezuela para garantir acesso privilegiado ao crude e apoio político nas instituições internacionais. Mas o facto de existirem outros imperialismos não absolve este. Relativizar tudo é a forma mais rápida de normalizar o saque.
Se isto não é espólio, o que é?
Pode alguém argumentar que, no fim, se o nível de vida melhorar e as prateleiras dos supermercados voltarem a encher-se, pouco importará a bandeira que paira sobre os poços de petróleo. Discordo. Porque o preço de aceitar que uma potência declara “vamos gerir este país e o seu petróleo até acharmos conveniente” é abrir um buraco no já frágil edifício da ordem internacional.(The Peninsula Newspaper)
Da democracia, pouco; do petróleo, tudo. Entre a retórica da libertação e a prática da pilhagem vai uma distância menor do que gostaríamos de admitir. Se isto não é roubo de petróleo à escala imperial, então o que é?