Resumo
- Acusações de antissemitismo criam clima de medo em espaços de debate sobre GazaNum momento em que o número de vítimas civis em Gaza continua a escalar, e o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) reconhece como “plausíveis” as alegações de genocídio feitas contra Israel, universidades em vários países têm sido palco de uma nova batalha.
- O que está em causa, sublinha Grilo, é a liberdade de cátedra e a integridade do debate académico.
- entre o exílio forçado e o silêncio estratégicoEm França, a suspensão do historiador Thomas Wieder, após um artigo onde equiparava práticas militares a possíveis crimes de guerra, gerou indignção.
Acusações de antissemitismo criam clima de medo em espaços de debate sobre Gaza
Num momento em que o número de vítimas civis em Gaza continua a escalar, e o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) reconhece como “plausíveis” as alegações de genocídio feitas contra Israel, universidades em vários países têm sido palco de uma nova batalha: a do direito à crítica. Professores, estudantes e investigadores enfrentam pressões crescentes, investigações internas e até ameaças de despedimento por se manifestarem contra as operações militares israelitas ou por demonstrarem solidariedade para com os civis palestinianos. Estará a liberdade académica a sucumbir sob o peso de acusações infundadas de antissemitismo?
A questão é mais do que retórica. É urgente.
A confusão deliberada: entre crítica política e ódio religioso
Num relatório recente, citado por juristas e organizações de direitos humanos, é feita uma distinção clara entre quatro conceitos frequentemente confundidos no debate mediático: apoio humanitário, oposição ao genocídio, apologia do terrorismo e antissemitismo. A fusão intencional destes termos tem tido efeitos diretos sobre a liberdade de expressão, em particular no seio das academias, onde a crítica deveria ser não só tolerada, mas incentivada.
“Estamos perante um novo efeito de arrefecimento”, afirma Joana B., professora universitária em Londres, sob anonimato. “Desde que assinei uma carta aberta em defesa dos direitos humanos em Gaza, fui alvo de duas investigações internas. Nenhuma por incitamento, apenas por ‘danos reputacionais’ à instituição”.
Casos semelhantes repetem-se em universidades norte-americanas, francesas, alemãs e até em Portugal. Muitos alunos relatam terem sido desincentivados a organizar eventos ou debates que envolvam a questão palestiniana. Outros perderam bolsas ou viram as suas associações dissolvidas.
O paradoxo da censura: quando o antissemitismo é manipulado
O documento base do presente artigo insiste na necessidade de distinguir crítica legítima do discurso de ódio. “A crítica às políticas do Estado de Israel, incluindo as que estão sob escrutínio do TIJ, não constitui, por si, antissemitismo”, afirma-se no relatório. Aliás, confundir esses domínios descredibiliza a luta real contra o antissemitismo e protege práticas potencialmente ilegais.
Esta manipulação semântica não é nova, mas ganha nova força no contexto do conflito em Gaza. “É como se tudo o que não seja apoio incondicional a Israel fosse, automaticamente, antijudaico”, explica António Grilo, jurista em direito internacional e especialista em liberdade académica. “Isso é falso e juridicamente perigoso”.
O que está em causa, sublinha Grilo, é a liberdade de cátedra e a integridade do debate académico. “Se um professor não pode discutir publicamente se há ou não indícios de genocídio — algo que o próprio TIJ admite como plausível — então o que resta da função crítica da universidade?”
Casos concretos: entre o exílio forçado e o silêncio estratégico
Em França, a suspensão do historiador Thomas Wieder, após um artigo onde equiparava práticas militares a possíveis crimes de guerra, gerou indignção. Em Berlim, uma professora de ciência política foi exonerada após partilhar nas redes sociais uma análise jurídica da Convenção de Genebra.
Em Portugal, ainda que com menor visibilidade, há sinais preocupantes. Segundo a Associação Académica pela Justiça Global (AAJG), dois eventos organizados por núcleos estudantis foram cancelados pelas direções de faculdade. Num dos casos, a presença de um jurista da ONU terá sido considerada “provocadora”.
“Este tipo de autocensura institucional é perigoso. A universidade deve ser um espaço de confrontação de ideias, não de silenciamento administrativo”, diz Beatriz Mendes, porta-voz da AAJG. “Quando os estudantes aprendem desde cedo que certas opiniões, mesmo fundamentadas, são punidas, o que se está a ensinar não é cidadania, mas medo.”
Uma linha vermelha: o direito à crítica e a luta contra o preconceito
Importa lembrar que existem definições distintas de antissemitismo. A mais citada pelas instituições europeias — a da IHRA (International Holocaust Remembrance Alliance) — tem sido criticada por juristas por permitir interpretações ambíguas. Em contraste, a JDA (Jerusalem Declaration on Antisemitism) insiste que “não é antissemitismo criticar Israel da mesma forma e nos mesmos termos que se criticaria qualquer outro Estado”.
Para alguns setores, como os representados por movimentos como o Jewish Voice for Peace ou o IfNotNow, é precisamente esta distinção que permite combater o antissemitismo com seriedade, sem abrir portas à censura política. “A luta contra o antissemitismo é descredibilizada quando se transforma numa arma para calar vozes dissidentes”, afirmou Rebecca Solnit, escritora e ativista judaica, num artigo recente no The Guardian.
O alerta é claro: combater o antissemitismo exige coragem, mas também discernimento. E esse discernimento exige liberdade para pensar e questionar.
O que está em jogo: democracia, verdade e justiça
A universidade é um dos últimos bastiões da reflexão crítica. Quando se criminaliza a crítica a um Estado — qualquer que ele seja — está-se a abrir caminho para um modelo onde a obediência política substitui o debate informado. Num mundo onde as fake news e a propaganda ganham terreno, silenciar especialistas é o oposto do que deveria ser feito.
É possível defender os direitos do povo judeu e, simultaneamente, exigir responsabilidades ao governo israelita. É possível condenar o terrorismo do Hamas e, ao mesmo tempo, denunciar massacres contra civis palestinianos. O que não é possível — sem trair os princípios democráticos — é censurar o pensamento livre.
E se a universidade não serve para isso… para que serve afinal?