Resumo
- O uso instrumental do antissemitismo para proteger Israel da crítica política está a minar a credibilidade do termo e a fragilizar a luta contra o verdadeiro ódio aos judeus.
- É essa inquietação que atravessa o relatório Crítica a Israel e a Acusação de Antissemitismo, um documento que sistematiza as principais definições do termo, denuncia os seus usos abusivos e propõe uma distinção clara entre crítica legítima e discurso de ódio.
- A Declaração de Jerusalém sobre Antissemitismo (JDA), assinada por centenas de académicos, afirma claramente que “a crítica a Israel, por mais severa que seja, não é em si mesma antissemita” e insiste na importância do contexto e da intenção.
O uso instrumental do antissemitismo para proteger Israel da crítica política está a minar a credibilidade do termo e a fragilizar a luta contra o verdadeiro ódio aos judeus. O que está em causa é mais do que semântica: é o futuro do discurso democrático.
É essa inquietação que atravessa o relatório Crítica a Israel e a Acusação de Antissemitismo, um documento que sistematiza as principais definições do termo, denuncia os seus usos abusivos e propõe uma distinção clara entre crítica legítima e discurso de ódio. No centro do debate, estão três instrumentos‑‑‑chave: a controversa definição da IHRA (International Holocaust Remembrance Alliance), a alternativa da Declaração de Jerusalém sobre Antissemitismo (JDA) e o Documento Nexus, todos não vinculativos, mas amplamente utilizados como referência política e institucional.
A definição da IHRA: entre a intenção e o abuso
Adoptada em 2016, a definição de trabalho da IHRA descreve o antissemitismo como “uma certa percepção dos judeus, que pode ser expressa como ódio aos judeus”. O problema surge nos 11 exemplos associados, dos quais sete dizem respeito directamente a Israel. Entre eles, estão formulações como “negar ao povo judeu o direito à autodeterminação” ou “comparar a política israelita com a dos nazis”. Críticos da definição alertam que estes exemplos são vagos e abertos a interpretações abusivas. Como aponta o relatório, “a estrutura da definição da IHRA facilita a equiparação da crítica a Israel com o antissemitismo”. A consequência mais grave é o efeito inibidor: conferências canceladas, livros recusados, jornalistas processados.
A banalização do antissemitismo
Este uso político da acusação tem um preço alto: a banalização do termo. Quando tudo é antissemitismo, nada o é verdadeiramente. A confusão deliberada entre crítica a políticas de Estado e ódio racial serve interesses estratégicos — mas enfraquece o combate real contra o preconceito, o negacionismo e as agressões contra judeus.
As alternativas: JDA e Nexus
Face às controvérsias da IHRA, surgiram propostas alternativas, mais rigorosas e mais sensíveis à liberdade de expressão. A Declaração de Jerusalém sobre Antissemitismo (JDA), assinada por centenas de académicos, afirma claramente que “a crítica a Israel, por mais severa que seja, não é em si mesma antissemita” e insiste na importância do contexto e da intenção. O Documento Nexus, elaborado por uma task force nos EUA, sublinha que “oposição às políticas de Israel, à sua ideologia fundacional ou a acções do Estado não deve, por si só, ser considerada antissemita”, a menos que se baseie em estereótipos ou demonização.
A Europa dividida
Este debate gera divisões profundas no espaço europeu. Países como Alemanha e França adoptaram a definição da IHRA e aplicam‑na de forma restritiva, com consequências legais. Em Berlim, por exemplo, a filósofa Judith Butler foi impedida de discursar por ser crítica do sionismo. Já a Noruega, a Suécia ou a Irlanda mantêm distância crítica da IHRA e acolhem debates pluralistas sobre o conflito israelo‑palestiniano. Em Portugal, o tema tem sido menos discutido, mas há pressão para a adopção da IHRA por instituições académicas e governamentais.
A quem interessa o silêncio?
A pergunta é incontornável: a quem serve este apagamento das vozes críticas? Certamente não aos judeus progressistas, muitos dos quais são alvo de perseguição por se oporem ao sionismo. Tampouco serve às vítimas reais do antissemitismo, cuja dor é instrumentalizada. Serve à lógica de excepção que permite a Israel actuar impunemente em territórios ocupados. Criticar não é odiar. Confundir tudo isso — ou fingir que não existe — é um acto político, com consequências graves para o debate democrático.