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Resumo

  • Segundo dados da UNICEF, mais de 1,1 milhões de crianças em Gaza — cerca de metade da população — foram diretamente expostas à violência extrema, à perda de familiares e à destruição das suas casas, escolas e hospitais.
  • Organizações como a OMS e o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados defendem que a saúde mental deve ser tratada como necessidade primária, a par da alimentação, abrigo e cuidados médicos.
  • De acordo com um relatório conjunto da OMS e do Banco Mundial, menos de 1,5% da ajuda humanitária para Gaza em 2024 foi destinada à saúde mental e apoio psicossocial.

A Faixa de Gaza não é apenas palco de destruição física. Para além dos escombros e das mortes visíveis, existe uma ferida silenciosa, profunda e crescente: o colapso da saúde mental de uma população traumatizada até ao limite.

Crianças que acordam a gritar, mães que já não choram, homens que não conseguem dormir há semanas. Gaza está a viver uma catástrofe psicológica sem precedentes — e sem profissionais suficientes para enfrentá-la.

Um povo em estado de trauma permanente

Segundo dados da UNICEF, mais de 1,1 milhões de crianças em Gaza — cerca de metade da população — foram diretamente expostas à violência extrema, à perda de familiares e à destruição das suas casas, escolas e hospitais.

Estudos conduzidos por Médicos Sem Fronteiras (MSF) e pela Organização Mundial de Saúde (OMS) revelam que quase 80% das crianças mostram sintomas de stress pós-traumático grave: enurese noturna, mutismo seletivo, agressividade, desorientação e alucinações.

E não são apenas as crianças. Psicólogos locais relatam um aumento de casos de depressão aguda, dissociação, surtos psicóticos e tentativas de suicídio entre adultos — sobretudo mulheres viúvas, homens feridos e jovens sem perspetivas.

“O sofrimento aqui é contínuo, é acumulado, é crónico. Não há tempo para processar nada, porque o próximo bombardeamento está sempre à porta,” explica a psicóloga palestiniana Samah Jaber.

Faltam psicólogos. Faltam medicamentos. Falta tudo.

Antes da guerra, Gaza contava com cerca de 65 psicólogos para mais de dois milhões de habitantes. Hoje, muitos fugiram, foram mortos ou estão eles próprios em colapso emocional. Os hospitais psiquiátricos foram destruídos ou estão sem condições.

Não há medicação psicotrópica suficiente, as consultas duram minutos, e o apoio contínuo é praticamente impossível. Centros de saúde que antes acolhiam sessões de terapia de grupo foram transformados em abrigos para deslocados internos.

Em março de 2025, a organização Mental Health Palestine alertava: “Estamos perante uma geração de crianças que crescem num ambiente onde a guerra é a única linguagem emocional conhecida.”

Terapia sob bombardeio: um esforço quase impossível

Mesmo em tempos de paz relativa, tratar trauma em Gaza era um desafio. Mas desde a intensificação da ofensiva israelita, o que resta são tentativas desesperadas de criar espaços de escuta no meio da destruição.

ONGs como Nafs for Empowerment e GCMHP continuam a operar, muitas vezes em tendas, escolas improvisadas ou através de linhas telefónicas clandestinas. Mas as condições são brutais.

“As crianças desenham cadáveres e drones. As mães não querem falar. Os homens sentem vergonha de chorar. E nós, terapeutas, somos também sobreviventes,” resume um técnico da Médicos do Mundo em Rafah.

A saúde mental como prioridade humanitária

Organizações como a OMS e o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados defendem que a saúde mental deve ser tratada como necessidade primária, a par da alimentação, abrigo e cuidados médicos. Mas os fundos para este setor continuam ínfimos.

De acordo com um relatório conjunto da OMS e do Banco Mundial, menos de 1,5% da ajuda humanitária para Gaza em 2024 foi destinada à saúde mental e apoio psicossocial.

E sem investimento nessa frente, alertam os especialistas, o ciclo de trauma e violência não só se perpetua — intensifica-se.

Gaza precisa de reconstrução. Mas antes disso, precisa de respirar.

As imagens de ruínas físicas são devastadoras. Mas os escombros mentais são mais difíceis de ver — e de reparar. Sem cuidados de saúde mental em larga escala, Gaza corre o risco de gerar uma geração inteira profundamente marcada por medo, desespero e luto não processado.

Reconstruir Gaza não será possível sem restaurar também a confiança, a estabilidade emocional e a capacidade de sonhar. Porque nenhuma parede segura uma alma em colapso.

E, por agora, o luto em Gaza não tem intervalo. Nem terapia que chegue.

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