Resumo
- Significa trabalhar com o corpo a tremer e a mente em ruínas.
- Em Março de 2024, a jornalista Leen Qassem transmitiu ao vivo o resgate de feridos num bombardeamento — só para descobrir, minutos depois, que uma das vítimas era o seu marido.
- Organizações como a RSF e a Federação Internacional de Jornalistas têm feito apelos por apoio psicológico urgente para os profissionais palestinianos.
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Quando se trabalha em Gaza, ser jornalista é também ser sobrevivente. Mas sobreviver, neste contexto, não significa apenas escapar a bombardeamentos. Significa continuar a reportar depois de perder amigos, colegas, familiares — enquanto a câmara ainda grava. Significa trabalhar com o corpo a tremer e a mente em ruínas. Esta reportagem escuta as vozes dos que ficaram: os repórteres que ainda documentam uma guerra que os escolheu como alvo.
O luto que não para
Desde Outubro de 2023, mais de 100 jornalistas palestinianos foram mortos. Em muitas redações locais, já não há uma equipa — há um sobrevivente.
Ahmed al-Qudra, de 31 anos, repórter freelancer em Deir al-Balah, viu a sua redação ser atingida por um míssil. Dos sete colegas, cinco morreram. “Eu não tenho tempo para chorar. Tenho que mostrar ao mundo o que fizeram. Mas cada dia é um funeral adiado”, diz, com voz trémula.
O trauma não é episódico. É acumulado. Não há tempo de recuperação, nem acompanhamento psicológico. “Enterramos colegas ao fim da manhã e filmamos ataques ao fim da tarde”, conta Nour Salem, jornalista da rádio local Sawt Al-Watan.
Sintomas de uma profissão em colapso emocional
De acordo com um inquérito conduzido pela ONG Journalists for Humanity junto de 48 repórteres em Gaza, entre Dezembro de 2023 e Maio de 2024:
87% relataram episódios de insónia severa.
73% apresentaram sinais consistentes com stress pós-traumático.
62% continuavam a trabalhar sem qualquer apoio psicológico.
📍 “Estão em estado de sobrevivência pura. É quase desumano continuar a reportar nestas condições”, afirma a psicóloga clínica Samah Zaqout, especialista em trauma de guerra.
A culpa de estar vivo
Vários jornalistas relataram sentir culpa intensa por terem sobrevivido aos colegas. Alguns evitam visitar famílias de repórteres mortos por se sentirem responsáveis — especialmente se partilhavam alojamento ou coberturas em dupla.
“Sobrevivi por acaso. Estava atrasado. E ele morreu no meu lugar. Como é que se volta a pegar numa câmara depois disso?”, questiona um repórter que pediu anonimato.
Este fenómeno — conhecido como “culpa do sobrevivente” — é típico de zonas de conflito, mas em Gaza é agravado pelo facto de os jornalistas serem deliberadamente visados.
A fronteira entre a notícia e a vida
O jornalista em Gaza não tem distância. Está dentro da história, com a sua família na mira dos ataques. Em muitos casos, os próprios filhos dos jornalistas foram mortos nos mesmos ataques que os pais cobriam.
Em Dezembro de 2023, o repórter Ali Mussa filmou o colapso de um edifício. Soube depois que a irmã e dois sobrinhos estavam entre os mortos.
Em Março de 2024, a jornalista Leen Qassem transmitiu ao vivo o resgate de feridos num bombardeamento — só para descobrir, minutos depois, que uma das vítimas era o seu marido.
“Não existe objectividade onde há sangue da nossa família. Mas há verdade. E a nossa obrigação é dizê-la”, disse Leen à rádio DW.
A normalização da morte
O pior, admitem muitos, é a banalização da tragédia. Já não há tempo para processar. “Hoje chorei dois minutos. Ontem não chorei nada. Estou a aprender a desligar.” A frase é de Rami, 26 anos, que filma diariamente para uma agência europeia que prefere não ser identificada.
Este desligar emocional é uma forma de sobrevivência psíquica — mas, a longo prazo, pode levar a colapsos mentais graves, depressões severas e perdas cognitivas.
Quem cuida dos que nos mostram a guerra?
Organizações como a RSF e a Federação Internacional de Jornalistas têm feito apelos por apoio psicológico urgente para os profissionais palestinianos. Mas as condições logísticas e o cerco a Gaza tornam esse apoio quase impossível.
Em alguns casos, psicólogos da diáspora tentam fazer sessões por telefone ou mensagem. Mas a ligação falha. A rede cai. O som do drone sobrevoa a chamada. E o trauma instala-se, sem remédio.
E no dia seguinte?
O que será dos jornalistas que sobreviverem? Como reconstruir uma profissão onde já não há redações, onde os equipamentos estão destruídos, e onde cada memória é uma ferida?
“Se a guerra acabar amanhã, nós não voltamos ao normal. Porque nunca mais vamos confiar no silêncio”, diz Ahmed, o mesmo repórter que sobreviveu à redação destruída.
A esperança entre os escombros
Apesar de tudo, há quem continue a formar novos jornalistas. Pequenos grupos de media alternativo oferecem workshops improvisados, ensinam técnicas de sobrevivência, constroem bancos de dados de imagens, e criam arquivos digitais para proteger a memória coletiva.
Porque em Gaza, ser jornalista é também ser historiador, arquivista, testemunha e guardião.
📍 Reportagem baseada em entrevistas com 14 jornalistas palestinianos, dados de organizações de saúde mental, ONGs de defesa do jornalismo e testemunhos de campo recolhidos entre Fevereiro e Julho de 2024. Alguns nomes foram alterados ou omitidos para garantir a segurança dos entrevistados.