Resumo
- Segundo ele, o incentivo financeiro e o algoritmo de promoção de assinantes criaram um ecossistema onde a controvérsia e o sensacionalismo valem mais do que a precisão.
- Um exemplo analisado pela ProPublica mostra como um vídeo de um desfile militar de 2020 no Irão foi republicado durante os bombardeamentos de 2023 em Gaza, com a legenda “Tropas iranianas a caminho de Israel”.
- A ausência de moderação proativa e a priorização de conteúdos de contas pagantes criam, segundo analistas, um ambiente onde a verdade se torna apenas mais uma opinião entre muitas — com consequências reais para a compreensão pública e para a diplomacia.
Em apenas três meses, publicações enganosas sobre o conflito Israel-Palestina, muitas delas originadas em contas verificadas no X (antigo Twitter), atingiram cerca de 500 milhões de visualizações. O número, apurado por organizações de verificação de factos, expõe a dimensão de uma engrenagem de desinformação que prospera na plataforma desde a sua aquisição por Elon Musk.
A investigação revela que o sistema de fact-checking comunitário — conhecido como Community Notes — falhou em corrigir ou contextualizar cerca de 80% dessas publicações, mesmo quando já havia provas públicas da falsidade das afirmações.
A nova lógica do selo azul
Desde que Musk reformulou o modelo de verificação, qualquer utilizador pode obter o selo azul mediante pagamento mensal. A mudança, vendida como democratização, abriu espaço para que contas com histórico de desinformação passassem a ter maior alcance e credibilidade aparente.
“O que antes era um sinal de autenticidade, hoje serve de escudo para conteúdos falsos”, resume Craig Silverman, repórter especializado em desinformação digital. Segundo ele, o incentivo financeiro e o algoritmo de promoção de assinantes criaram um ecossistema onde a controvérsia e o sensacionalismo valem mais do que a precisão.
Desinformação como negócio
A lógica é simples: quanto mais interações, maior o alcance — e, para contas monetizadas, mais rendimento. Publicações com imagens fora de contexto, vídeos de outros conflitos ou afirmações infundadas tendem a gerar reações intensas, impulsionando o engajamento.
Um exemplo analisado pela ProPublica mostra como um vídeo de um desfile militar de 2020 no Irão foi republicado durante os bombardeamentos de 2023 em Gaza, com a legenda “Tropas iranianas a caminho de Israel”. O post alcançou milhões antes de ser desmentido, mas o autor já tinha recolhido ganhos e seguidores.
Fact-checking insuficiente
O sistema Community Notes foi apresentado como solução descentralizada para corrigir informação falsa, mas, no caso do conflito, mostrou-se lento e ineficaz. Em média, levou mais de 24 horas para que uma nota fosse adicionada, tempo suficiente para que o conteúdo atingisse pico de visualizações.
Para Claire Wardle, do Tow Center for Digital Journalism, “num cenário de guerra, a velocidade da correção é tão importante quanto a precisão. Aqui, a plataforma falhou em ambas.”
O impacto fora do ecrã
Especialistas em segurança digital alertam que a desinformação não fica confinada ao espaço virtual. Narrativas falsas têm alimentado hostilidade contra comunidades diaspóricas, influenciado debates parlamentares e moldado perceções internacionais do conflito.
A ausência de moderação proativa e a priorização de conteúdos de contas pagantes criam, segundo analistas, um ambiente onde a verdade se torna apenas mais uma opinião entre muitas — com consequências reais para a compreensão pública e para a diplomacia.
Com o X transformado num campo de batalha informacional altamente lucrativo para quem manipula dados, a questão que se impõe é clara: será possível conciliar liberdade de expressão com integridade informativa, ou a própria arquitetura da plataforma tornou isso inviável?