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Resumo

  • De Nova Deli a Detroit, de Budapeste a Lisboa, o voto está a ser manipulado em escala industrial, através de redes sociais, mensagens privadas e plataformas de vídeo.
  • Na Índia, durante as eleições legislativas de 2019, circularam vídeos falsos com discursos manipulados do líder da oposição, disseminados por WhatsApp a milhões de utilizadores.
  • Segundo a ONG Election Integrity Watch, pelo menos 18 campanhas eleitorais europeias entre 2017 e 2023 foram alvo de intervenções organizadas de desinformação, com perfis falsos, anúncios pagos e utilização de IA generativa.

Do WhatsApp ao YouTube, a desinformação eleitoral influencia milhões e vira resultados. Como é que se manipula um povo — e quem se aproveita disso?

“Votei num candidato que prometia baixar os impostos dos mais pobres. Depois soube que ele nunca disse isso — era montagem. Estava num grupo de família. Confiei.”

Este testemunho, recolhido no Brasil após as eleições presidenciais de 2022, resume uma tendência preocupante: a mentira deixou de ser apenas ruído eleitoral. Tornou-se estratégia deliberada, com resultados concretos nas urnas.

De Nova Deli a Detroit, de Budapeste a Lisboa, o voto está a ser manipulado em escala industrial, através de redes sociais, mensagens privadas e plataformas de vídeo. E a democracia — baseada no acesso livre e informado à verdade — começa a ceder terreno.

A desinformação que decide

Estudos internacionais apontam para um padrão: onde há eleições polarizadas, há explosão de fake news. Em 2020, nos EUA, mais de 40% dos eleitores foram expostos a pelo menos uma notícia falsa sobre os candidatos presidenciais nas duas semanas anteriores ao voto. Muitas delas fabricadas para parecer jornalismo real.

Na Índia, durante as eleições legislativas de 2019, circularam vídeos falsos com discursos manipulados do líder da oposição, disseminados por WhatsApp a milhões de utilizadores. Segundo a BBC, grande parte do conteúdo foi impulsionado por redes coordenadas com financiamento oculto.

Em Espanha, um vídeo manipulado do primeiro-ministro Pedro Sánchez, editado para parecer que elogiava Franco, correu o TikTok poucos dias antes das legislativas de 2023. Foi visto por 1,2 milhões de pessoas. O desmentido? Alcançou apenas 12 mil.

O caso português: silencioso, mas real

Portugal ainda não enfrentou campanhas tão massivas, mas o terreno está fértil. Nas eleições autárquicas de 2021, circularam nas redes vídeos e imagens falsificadas envolvendo candidatos locais, especialmente nos distritos de Braga e Setúbal. A CNE registou mais de 40 queixas formais relacionadas com conteúdos falsos online — o triplo face a 2017.

Em 2024, a circulação de mensagens com desinformação sobre o voto antecipado entre emigrantes gerou confusão e receio. A Comissão Nacional de Eleições lançou alertas públicos, mas admite que a capacidade de resposta é “limitada face à velocidade da mentira”.

“Estamos a assistir ao início da desinformação político-eleitoral em Portugal. Não com bots russos, mas com tios e colegas a partilhar sem verificar”, alerta Joana Neves, investigadora do Instituto para a Democracia Digital.

Quem está por trás?

A origem é difusa. Parte do conteúdo é gerado espontaneamente — por desconfiança, ideologia ou simples ignorância. Mas há redes profissionais a operar.

Segundo a ONG Election Integrity Watch, pelo menos 18 campanhas eleitorais europeias entre 2017 e 2023 foram alvo de intervenções organizadas de desinformação, com perfis falsos, anúncios pagos e utilização de IA generativa.

O objectivo? Criar desconfiança sistémica, fragmentar o debate, desmobilizar certos grupos e mobilizar outros com base em medos fabricados.

“Não se trata apenas de eleger alguém — trata-se de minar a confiança no processo democrático”, afirma Stefan Jankovic, perito do Observatório Europeu da Desinformação.

E os eleitores?

O efeito da desinformação não é só cognitivo. É emocional. Cria medo, raiva, ressentimento. Manipula sentimentos antes de ideias.

No Brasil, em 2018, uma avalanche de mensagens no WhatsApp afirmava que as urnas electrónicas estavam viciadas. Milhões passaram a acreditar. Em 2022, voltou a repetir-se — desta vez com vídeos falsos, notícias fabricadas e contas automatizadas. Resultado: mais de 30% dos eleitores disseram desconfiar do sistema eleitoral.

Em Portugal, ainda há confiança institucional, mas o terreno já apresenta sinais de erosão. Uma sondagem de 2023 indicava que 41% dos inquiridos acreditavam que “alguns meios de comunicação ocultam informação importante nas campanhas eleitorais”.

Como blindar o voto?

A resposta exige vários níveis:

  • Educação para a literacia mediática e digital, já no ensino básico.
  • Regulação das plataformas, com obrigação de transparência nos anúncios políticos e penalização por omissão na moderação de conteúdos falsos.
  • Verificação eleitoral em tempo real, com mecanismos acessíveis ao cidadão comum.
  • Colaboração entre partidos, media e sociedade civil, com pactos de integridade informativa.

A Comissão Europeia avança com novas regras, mas os especialistas alertam: as eleições de 2026 poderão ser o primeiro grande teste à integridade informativa do continente.

Votar com base na verdade — ainda é possível?

Se a democracia depende de escolhas informadas, mas a informação está distorcida, que legitimidade tem o voto?

A pergunta é mais do que filosófica. É urgente.

“Não basta aceitar o voto como expressão da vontade popular. É preciso garantir que essa vontade não foi fabricada por uma mentira”, conclui o constitucionalista Rui Barata. “Sem verdade, o sufrágio transforma-se em fraude emocional.”


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