Resumo
- A analista de assuntos internacionais tem sido apontada por críticos e analistas como a principal voz mediática do alinhamento com a diplomacia israelita em Portugal — e as suas intervenções nos media nacionais, sobretudo na CNN Portugal, têm sido interpretadas por muitos como um exercício constante de parcialidade e propaganda, disfarçado de opinião especializada.
- Gouveia tem feito do espaço de comentário um palanque para uma defesa contínua da actuação de Israel no conflito israelo-palestiniano, ao mesmo tempo que desvaloriza ou relativiza o sofrimento civil palestiniano — postura que levanta sérias questões deontológicas sobre o papel da opinião nos media.
- A declaração mais polémica de Ferro Gouveia surgiu em Junho de 2024, quando, alinhando-se com declarações do embaixador de Israel, afirmou que “não há fome em Gaza” — contrariando os relatórios do Programa Alimentar Mundial e da Organização Mundial de Saúde, que alertam para níveis catastróficos de subnutrição infantil e colapso total da segurança alimentar na Faixa.
Lisboa, 2 de Agosto de 2025 — Figura habitual no comentário político televisivo, Helena Ferro Gouveia está no centro de uma crescente controvérsia pública. A analista de assuntos internacionais tem sido apontada por críticos e analistas como a principal voz mediática do alinhamento com a diplomacia israelita em Portugal — e as suas intervenções nos media nacionais, sobretudo na CNN Portugal, têm sido interpretadas por muitos como um exercício constante de parcialidade e propaganda, disfarçado de opinião especializada.
A intensidade da crítica à sua figura não resulta apenas das ideias que professa, mas do padrão com que as sustenta. Gouveia tem feito do espaço de comentário um palanque para uma defesa contínua da actuação de Israel no conflito israelo-palestiniano, ao mesmo tempo que desvaloriza ou relativiza o sofrimento civil palestiniano — postura que levanta sérias questões deontológicas sobre o papel da opinião nos media.
Uma voz, uma agenda?
Entre as principais críticas apontadas à comentadora estão a falta de isenção, a confiabilidade selectiva nas fontes e o que vários observadores consideram um duplo critério na análise de conflitos armados. Os exemplos são numerosos.
Durante a invasão da Ucrânia pela Rússia, Helena Ferro Gouveia foi uma das primeiras a classificar os ataques como crimes de guerra, salientando o impacto da agressão russa sobre civis. Porém, quando confrontada com a ofensiva israelita em Gaza, que segundo as Nações Unidas provocou mais de 43 mil mortes civis, a comentadora adoptou um tom justificador: “É natural que haja vítimas civis nas guerras”, afirmou, contrastando as acções de Israel com o que considera ser “a irresponsabilidade do Hamas” e a “instrumentalização da população palestiniana”.
Este duplo critério está longe de ser consensual. “É impossível aceitar que se chore pelas vítimas em Bucha e se relativize as crianças soterradas em Rafah”, escreveu um colunista do Página Um numa análise crítica intitulada Comentar os comentadores.
“Não há fome em Gaza”? Declarações que acendem alarmes
A declaração mais polémica de Ferro Gouveia surgiu em Junho de 2024, quando, alinhando-se com declarações do embaixador de Israel, afirmou que “não há fome em Gaza” — contrariando os relatórios do Programa Alimentar Mundial e da Organização Mundial de Saúde, que alertam para níveis catastróficos de subnutrição infantil e colapso total da segurança alimentar na Faixa.
A frase, proferida num programa de comentário televisivo, gerou reacções imediatas: “Negar a fome em Gaza é tão perigoso quanto negar o bombardeamento de hospitais. É desinformação com consequências reais”, escreveu o jornalista Ricardo Cabral Fernandes, apontando o impacto social da legitimação da violência quando é apresentada por figuras com capital mediático.
Críticos apontam ainda que, ao comentar o ataque ao hospital Al-Ahli, Gouveia confiou unicamente na versão israelita dos factos, desconsiderando relatos de organizações humanitárias presentes no terreno e tratando informações contraditórias como “propaganda anti-Israel”.
Reacção: entre o orgulho e a vitimização
Face às críticas, Helena Ferro Gouveia tem reagido com altivez e uma estratégia comunicacional assente na vitimização selectiva. Em diversas publicações nas redes sociais, a comentadora lamenta o “cancelamento” de que diz ser alvo, sobretudo por sectores da esquerda e movimentos pró-Palestina. “Perdi amizades. Perdi projectos. Mas não perco convicções”, escreveu no LinkedIn.
Gouveia apresenta-se como alguém com “conhecimento do terreno”, fruto de experiências anteriores em Israel e nos Territórios Palestinianos, e como defensora histórica do povo judeu. Essa dimensão de coerência biográfica é apontada como elemento legitimador das suas posições. Mas os seus críticos contra-argumentam que a empatia por um lado não pode justificar a desumanização sistemática do outro.
A questão da responsabilidade mediática
O caso Gouveia reabre o debate sobre os limites da opinião em espaço televisivo. Quando um canal de informação dá palco regular a uma figura que ecoa, sem contraditório, a narrativa oficial de um governo estrangeiro em guerra, estará a cumprir a sua função informativa?
Para o investigador de ética e comunicação Manuel Pinto, “a opinião é livre, mas os critérios editoriais devem ser exigentes. O pluralismo não é dar voz a tudo, mas garantir equilíbrio, diversidade e responsabilidade”. Uma opinião partilhada por vários académicos da FCSH e do ISCSP, que alertam para os riscos de colonização simbólica do espaço mediático.
Nos bastidores do jornalismo, o desconforto cresce. Muitos profissionais denunciam, em privado, que a presença repetida de Gouveia em painéis de análise internacional, sem contraponto real, compromete a credibilidade das redacções e limita a complexidade do debate.
Mais do que uma comentadora?
O impacto de Helena Ferro Gouveia não se esgota nas palavras que profere. É também símbolo de uma tendência global: o uso da opinião mediática como extensão das estratégias de diplomacia pública de Estados em conflito. Um soft power disfarçado, onde a convicção pessoal coincide — demasiado — com os objectivos geopolíticos de um Estado.
A questão central permanece: pode um meio de comunicação que se quer rigoroso e plural continuar a acolher sistematicamente um discurso monocórdico, que ignora vítimas civis e silencia narrativas alternativas? Ou estaremos perante uma falência ética do jornalismo de comentário?