Resumo
- O fundo de solidariedade da IFJ já angariou mais de 90 mil euros, canalizados para alimentos, equipamento básico, apoio psicológico e centros de imprensa improvisados com geradores e internet.
- ” O apelo é para que a UE suspenda o Acordo de Associação com Israel e sancione os responsáveis por ataques deliberados contra jornalistas.
- O que está em causa não é apenas o futuro de jornalistas palestinianos, mas o direito de todos nós a sabermos o que se passa.
Desde o início da ofensiva israelita sobre Gaza em outubro de 2023, a região mergulhou numa catástrofe humanitária sem precedentes. O número de mortos ultrapassa os 59 mil. Mais de 436 mil habitações foram destruídas. A fome alastra-se como uma praga silenciosa, atingindo mais de 470 mil pessoas. Mas entre os que resistem, silenciosos e exaustos, há um grupo particularmente visado: os jornalistas.
Sem acesso a Gaza para repórteres estrangeiros, os jornalistas locais são os únicos olhos do mundo dentro do enclave. E estão a ser sistematicamente empurrados para a invisibilidade – não apenas com mísseis e detenções, mas com fome.
A Fome Como Arma de Silenciamento
A Federação Europeia de Jornalistas (EFJ) e o Sindicato Palestiniano de Jornalistas (PJS) lançaram um apelo extraordinário: “Os jornalistas de Gaza estão a colapsar de fome.” Esta frase, que poderia soar hiperbólica, é confirmada por testemunhos e dados. “Já não tenho forças para trabalhar”, confessou um repórter da AFP. “O meu corpo está demasiado fraco.”
Trata-se de mais do que uma crise humanitária: é uma estratégia deliberada de apagamento da verdade. Ao impedir a entrada de repórteres internacionais e simultaneamente forçar os locais à exaustão física, o efeito é um vazio informativo absoluto.
“Estamos perante um duplo cerco: físico e narrativo”, denuncia a EFJ. “Sem jornalistas, não há testemunho. E sem testemunho, não há crime.”
Uma Taxa de Mortalidade Impossível de Ignorar
Desde o início da guerra, mais de 180 jornalistas foram mortos em Gaza – cerca de 10% de toda a classe profissional na região. Muitos perderam a vida enquanto tentavam simplesmente encontrar comida ou água para as suas famílias.
Além dos mortos, há pelo menos 49 jornalistas detidos arbitrariamente, sobretudo na Cisjordânia e Jerusalém. A repressão é política, mas também física. O acesso a alimentos, medicamentos, eletricidade ou internet é quase nulo. Sem energia, não há edições. Sem internet, não há uploads. Sem comida, não há resistência.
“Estamos a assistir à destruição planeada da última linha de defesa da verdade”, resume um dirigente da IFJ. “É a fome como arma de censura.”
O Apoio Que Teima em Não Chegar
O fundo de solidariedade da IFJ já angariou mais de 90 mil euros, canalizados para alimentos, equipamento básico, apoio psicológico e centros de imprensa improvisados com geradores e internet. Mas fazer chegar ajuda continua a ser um pesadelo logístico. E, pior ainda, político.
Vários países europeus, incluindo a Comissão Europeia, suspenderam o apoio a organizações civis palestinianas e israelitas, bloqueando, na prática, vias de ajuda que poderiam salvar vidas. “A retórica da solidariedade não chega quando os fluxos de ajuda são cortados por decisão política”, acusa a EFJ numa carta aberta.
Centros de Resistência: As Últimas Redacções
Uma das iniciativas mais notáveis foi a criação dos Media Solidarity Centers – espaços seguros, com energia solar e ligação à internet, onde jornalistas podem continuar a trabalhar. O primeiro abriu em Khan Yunis; outro está planeado para a Cidade de Gaza. São mais do que redacções: são trincheiras de resistência contra o apagamento.
A Europa em Silêncio
A EFJ foi clara: “A neutralidade da União Europeia face ao genocídio em Gaza é moralmente inaceitável.” O apelo é para que a UE suspenda o Acordo de Associação com Israel e sancione os responsáveis por ataques deliberados contra jornalistas. Até agora, o silêncio é ensurdecedor.
Um Apelo à Memória
A jornalista Shireen Abu Akleh, assassinada em 2022, tornou-se símbolo de uma longa cadeia de impunidade. Nenhum responsável foi julgado. A mesma história repete-se em Gaza — só que agora, a escala é de uma brutalidade inédita.
O que está em causa não é apenas o futuro de jornalistas palestinianos, mas o direito de todos nós a sabermos o que se passa. Quando se silencia a imprensa, instala-se a escuridão.