Chega e 1143: o que está provado, o que é alegação e o que falta apurar sobre a permeabilidade entre partido e milícia - Sociedade Civil
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Resumo

  • A operação da Unidade Nacional de Contraterrorismo, comandada por Patrícia Silveira e supervisionada pelo director nacional Luís Neves, mobilizou cerca de trezentos elementos da Judiciária e cumpriu sessenta e cinco buscas de norte a sul do país.
  • Um sargento da Força Aérea Portuguesa e um agente da PSP em serviço numa esquadra de Setúbal — pessoas com porte de arma autorizado e formação militar — integravam, segundo a investigação, uma associação criminosa de propaganda nazi com agressões documentadas a imigrantes no 25 de Abril de 2025 e na estação de serviço de Aveiras, a 5 de Outubro do mesmo ano.
  • Rui Afonso, no direito de resposta publicado a 28 de Fevereiro, sustenta que o grupo 1143 não tinha existência orgânica no Porto à data das eleições internas distritais de 10 de Setembro de 2023, invocando uma notícia do Expresso sobre um almoço aniversário do grupo.

A Operação Irmandade desmantelou o grupo neonazi 1143 a 20 de Janeiro. Um mês depois, reportagens do PÚBLICO atingiram a estrutura do Chega no Porto. Entre o que a Polícia Judiciária já tem nas mãos e o que continua a ser alegação, importa separar planos antes de qualquer juízo.

A Polícia Judiciária deteve a 20 de Janeiro de 2026 trinta e sete alegados membros do grupo neonazi 1143; um mês depois, três militantes do Chega apareceram entre os arguidos e o deputado Rui Afonso, líder distrital do Porto, foi acusado de comprar votos internos a elementos do grupo.

A acusação saiu da reportagem assinada por Miguel Carvalho no PÚBLICO de 22 de Fevereiro. Apanhou o partido em pleno arranque da campanha presidencial de André Ventura e abriu uma frente nova num ciclo de processos que já o cercavam por outras razões.

A tentação é juntar tudo na mesma frase. É erro.

O que a Operação Irmandade tornou facto

A operação da Unidade Nacional de Contraterrorismo, comandada por Patrícia Silveira e supervisionada pelo director nacional Luís Neves, mobilizou cerca de trezentos elementos da Judiciária e cumpriu sessenta e cinco buscas de norte a sul do país. Resultaram trinta e sete detenções e quinze arguições adicionais.

Dois detidos não eram civis. Um sargento da Força Aérea Portuguesa e um agente da PSP em serviço numa esquadra de Setúbal — pessoas com porte de arma autorizado e formação militar — integravam, segundo a investigação, uma associação criminosa de propaganda nazi com agressões documentadas a imigrantes no 25 de Abril de 2025 e na estação de serviço de Aveiras, a 5 de Outubro do mesmo ano.

A cela onde Mário Machado cumpre pena em Alcoentre foi alvo de buscas. A própria PJ confirmou ter recolhido elementos que indiciariam intenção de organizar um acto criminoso a partir do interior da prisão.

Três militantes do Chega constam da lista de detidos. Esse facto está confirmado por várias redacções — Notícias ao Minuto, RTP, Diário de Notícias — e não é disputado.

O que a reportagem do PÚBLICO trouxe — e os limites

A peça de Miguel Carvalho avançou três planos: a acusação directa de compra de votos a Rui Afonso, feita pelo arguido Tirso Faria, coordenador do núcleo do 1143 em Santo Tirso e simultaneamente militante do Chega; o testemunho convergente de Artur Carvalho, ex-adjunto de Rui Afonso na distrital, e de Israel Pontes, seu adversário interno em 2023; e a documentação fotográfica de um autocarro alugado pela distrital do Porto onde elementos do 1143 viajaram para uma manifestação em Lisboa em Setembro de 2024.

As três fontes humanas têm em comum uma posição adversarial relativamente a Rui Afonso. A regra das três fontes está formalmente cumprida. O viés convergente, não.

A pergunta óbvia é por que razão o partido seria capturado por uma estrutura externa em vez de assimilar quadros à sua maneira. A resposta encontra-se no próprio Mário Machado: já em 2019, conforme documentado por Miguel Carvalho no livro Por Dentro do Chega, o líder neonazi descrevia o partido de Ventura como "cavalo de Troia" para a extrema-direita no Parlamento. A formulação é dele, não de quem o acusa.

O que ainda falta apurar

Há um ponto factual decisivo que continua suspenso. Rui Afonso, no direito de resposta publicado a 28 de Fevereiro, sustenta que o grupo 1143 não tinha existência orgânica no Porto à data das eleições internas distritais de 10 de Setembro de 2023, invocando uma notícia do Expresso sobre um almoço aniversário do grupo. O PÚBLICO contrapõe que o 1143 é uma reactivação de uma facção da claque sportinguista Juventude Leonina com mais de vinte anos, e que a fundação posterior à data das eleições internas é informação fragmentária, não desmentido.

Falta saber, em concreto: as actas da reunião eleitoral distrital; a lista de novos inscritos no partido entre Julho e Setembro de 2023; o destino do material informático apreendido pela Judiciária; se a Procuradoria-Geral da República abriu inquérito autónomo por compra de votos ou financiamento ilegal; e o que diz, dito por ele próprio, André Ventura.

Daquela contenção, restou apenas o eco. O líder do Chega reagiu rapidamente nos casos Miguel Arruda e Nuno Pardal Ribeiro. Aqui, esperou-se sem que viesse a esperar-se em vão.

Entre o partido e a milícia há ponte documentada. Há também distância que a investigação ainda não percorreu inteiramente. Tratar as duas como a mesma coisa é abdicar do trabalho que ainda há para fazer.

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