Como a Palantir construiu o sistema operativo da deportação americana — e por que o caso interessa a quem vive em Portugal - Sociedade Civil
Partilha

Resumo

  • A polícia de imigração dos Estados Unidos passou a operar com uma camada de software desenhada para identificar, localizar e processar candidatos a deportação em tempo quase real, fornecida pela empresa Palantir Technologies, com base em contratos atribuídos ao longo de 2025 e 2026.
  • A 16 de abril de 2026, os deputados Dan Goldman e Nydia Velázquez e o senador Ron Wyden lideraram 30 congressistas numa carta a exigir ao Department of Homeland Security e à ICE a identificação de todas as bases de dados, programas analíticos e aplicações usados em operações de imigração.
  • Argumenta que o contrato com a ICE foi negociado já na administração Biden, e que o uso do seu software pretende garantir maior qualidade de dados e acesso a informação sobre não-cidadãos, "ajudando a minimizar riscos de acções de aplicação errónea".

Em quinze meses, a empresa norte-americana assinou mais de 81 milhões de dólares em contratos com a ICE. Construiu um protótipo chamado ImmigrationOS e uma ferramenta que cruza dados de saúde para identificar alvos. Trinta congressistas exigiram explicações em abril.

A polícia de imigração dos Estados Unidos passou a operar com uma camada de software desenhada para identificar, localizar e processar candidatos a deportação em tempo quase real, fornecida pela empresa Palantir Technologies, com base em contratos atribuídos ao longo de 2025 e 2026.

A relação Palantir-ICE existe desde, pelo menos, 2008. Entre 2008 e 2021, a empresa recebeu 186,6 milhões de dólares em contratos da agência, segundo investigação de dois anos do Centro de Privacidade e Tecnologia da Georgetown Law, publicada em 2022. O que mudou foi a velocidade.

Um nome de produto

Desde janeiro de 2025, a Palantir assinou mais de 81 milhões de dólares em novos contratos com a ICE. Em agosto desse ano, foi conhecido um contrato de 30 milhões para um protótipo chamado ImmigrationOS, com prazo de execução até setembro de 2027.

O documento de justificação do contrato indica três funções principais: simplificar a identificação e detenção de prioridades para remoção — descritas como "criminosos violentos", membros de gangues e pessoas com vistos vencidos; rastrear e reportar auto-deportações com visibilidade em tempo quase real; e tornar mais eficiente a logística da remoção do território. O contrato é justificado por duas ordens executivas do Presidente Donald Trump.

A linguagem é asséptica. A função, não.

A ferramenta com nome de animal

A peça menos visível do sistema, mas a mais reveladora, chama-se ELITE — Enhanced Leads Identification and Targeting for Enforcement. Segundo material interno da ICE obtido pela publicação 404 Media, a ferramenta cruza dados do Department of Health and Human Services e produz mapas com potenciais alvos de deportação, acompanhados de dossiers individualizados sobre cada pessoa.

A revelação foi explosiva. Dados clínicos de pessoas que recorreram aos serviços federais de saúde — programas para crianças, para vítimas de violência doméstica, para refugiados — passaram a alimentar, sem o seu conhecimento, decisões sobre quem detém um agente de imigração ao bater à porta.

A reacção do Congresso

A 16 de abril de 2026, os deputados Dan Goldman e Nydia Velázquez e o senador Ron Wyden lideraram 30 congressistas numa carta a exigir ao Department of Homeland Security e à ICE a identificação de todas as bases de dados, programas analíticos e aplicações usados em operações de imigração. O prazo de resposta era 24 de abril. A pergunta central: existem salvaguardas que impeçam o uso indevido e a recolha de informação sensível?

A Electronic Frontier Foundation foi mais longe. Em carta à empresa em abril, a EFF questionou como é que as promessas inscritas no quadro de direitos humanos da Palantir se aplicavam ao trabalho com a ICE. Considerou que, perante um registo que inclui rusgas violentas, detenções em massa, uso de dados médicos sensíveis e mortes ligadas a operações de imigração, apontar para uma página de valores não chega.

A resposta da empresa

A Palantir tem posição registada. Argumenta que o contrato com a ICE foi negociado já na administração Biden, e que o uso do seu software pretende garantir maior qualidade de dados e acesso a informação sobre não-cidadãos, "ajudando a minimizar riscos de acções de aplicação errónea". Numa nota mais recente, sublinha que não recolhe dados para vigiar ilegalmente cidadãos americanos e que opera como fornecedor seguro de análise.

A distinção formal — entre construir a infra-estrutura e operar a infra-estrutura — é juridicamente relevante, mas politicamente frágil. Quem desenha o software desenha também as escolhas que ele permite.

Onde Portugal entra na história

A pergunta do leitor português é legítima: que tem isto a ver com Lisboa? Tem. Em 2025, a Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) acumulou centenas de milhares de processos pendentes de cidadãos estrangeiros. A modernização do sistema é necessidade pública declarada. A modernização é também a porta por onde entram, em todo o lado, plataformas de cruzamento de dados.

Não há, até hoje, qualquer evidência pública de que a Palantir esteja contratada para a AIMA, o SEF dissolvido em 2023, ou outro serviço de imigração português. Há, isso sim, integradores europeus — Accenture, Capgemini, NTT Data, Deloitte — que trabalham com plataformas Palantir noutros países e operam em concursos do Estado português.

A senhora Helena, funcionária administrativa numa secção da segurança social no Porto, processa diariamente requerimentos de cidadãos vindos do Brasil, da Índia, do Nepal. Não conhece o nome Palantir. Mas se um sistema integrado lhe sugerir, no ecrã, que o requerimento X "apresenta risco" — quem decidiu o que é risco? Quem auditou o algoritmo? Quem é responsável quando ele erra?

O passo seguinte

A história americana não diz que vai acontecer em Portugal. Diz o que acontece quando um Estado decide que a eficiência da deportação vale mais do que o escrutínio público sobre a infra-estrutura que a torna possível.

ImmigrationOS é o nome do produto. A pergunta política é o que ele representa.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

You May Also Like

Patologia da Verdade: A Desinformação como Determinante Politico de Saúde Mental e Erosão da Coesão Social — Revisão Narrativa (2010–2026)

Partilha
Partilha Resumo Revisão narrativa interdisciplinar baseada em síntese de literatura em psicologia…

Ciganos e imigrantes como bodes expiatórios: o padrão

Partilha
Ao longo dos últimos anos, o discurso político do Chega recorre sistematicamente a referências à comunidade cigana e a imigrantes como causas de insegurança e sobrecarga do Estado social. Declarações generalistas e sem suporte estatístico são repetidas em comícios, entrevistas e redes sociais. Mas o escrutínio dos factos e das recomendações internacionais revela um padrão: estas narrativas não resistem à verificação.

No Limite da Dor: Histórias de Resistência nas Prisões da PIDE

Partilha
“Quando já nada restava senão a dor, inventámos formas de sobreviver. De resistir. De continuar humanos.” As palavras de Manuel Alegre, poeta e preso político do Estado Novo, descrevem com precisão o espírito de centenas de homens e mulheres que, entre as paredes frias das prisões da PIDE, transformaram o desespero em resistência e a cela em trincheira.

PIDE/DGS: como funcionava a polícia política da ditadura

Partilha
Partilha Resumo Durante o Estado Novo, a polícia política foi o instrumento…