“Política de proxy”: o que é e porque pode bloquear sites de partidos - Sociedade Civil
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Resumo

  • A própria Marinha indicou que o site do PCP estava bloqueado mas o da CDU não, e que o PCTP-MRPP estava acessível mas o PPM e o ADN não.
  • O problema é que o universo de sites é gigantesco, os administradores são poucos, e a maioria dos bloqueios injustos só vem ao de cima quando alguém se queixa.
  • O mais relevante a médio prazo é se este caso desencadeia algum tipo de regulamentação geral para filtragem em redes do Estado — que hoje, em Portugal, simplesmente não existe.

A mensagem de bloqueio que apareceu nos computadores da Marinha é incompreensível para quem não trabalha em redes. Sete perguntas e respostas para perceber o caso sem jargão.

1. O que é um proxy?

Um proxy é um intermediário. Imagine-se um porteiro de prédio. Cada vez que um morador quer sair, o porteiro vê para onde vai, abre ou não a porta, regista a saída. Numa rede de empresa, hospital ou quartel, o proxy faz o mesmo: cada pedido para abrir um site passa primeiro por ele.

2. E o que é uma “política de proxy”?

São as regras que o porteiro segue. Em vez de decidir caso a caso, o proxy consulta uma lista de regras: bloqueia sites de jogo, bloqueia redes sociais em horário de serviço, deixa passar tudo o resto. A mensagem “bloqueado por políticas de proxy” significa, em português comum, “uma das regras decidiu não te deixar passar”.

3. Quem escreve essas regras?

Quase nunca o utilizador do sistema. Os grandes fornecedores de cibersegurança — Fortinet, Cisco, Palo Alto Networks, Zscaler — mantêm bases de dados gigantescas onde classificam sites por categoria. “Notícias”, “advocacy política”, “violência”, “armas”, “pornografia”, “redes sociais”. Quem compra o produto activa ou desactiva categorias. Não vê site a site.

4. Então porque ficou só a esquerda bloqueada na Marinha?

A explicação mais provável não é uma decisão humana, é uma classificação cruzada. Sites com determinados padrões — domínios pequenos, alojamento partilhado, certificados específicos, links para conteúdos categorizados como “advocacy” — podem cair numa categoria genérica que está activa por defeito. O resultado é desigual, com erros em todas as direções. A própria Marinha indicou que o site do PCP estava bloqueado mas o da CDU não, e que o PCTP-MRPP estava acessível mas o PPM e o ADN não.

5. Isso não devia ser controlado?

Devia. E em parte é — pelo administrador de rede da instituição, que pode adicionar excepções (whitelists) ou pedir reclassificação ao fornecedor. O problema é que o universo de sites é gigantesco, os administradores são poucos, e a maioria dos bloqueios injustos só vem ao de cima quando alguém se queixa. Não há mecanismo automático de auditoria pública das listas.

6. Posso descobrir se um site qualquer está bloqueado em redes do Estado?

Indirectamente. Os principais fornecedores mantêm páginas públicas onde se pode introduzir um endereço e ver a categoria atribuída. A FortiGuard, por exemplo, tem uma página de “Web Filter Lookup”. A Cisco Talos tem a “Talos Intelligence”. O site do PCP, do BE, do PSD ou do Chega podem ter categorias diferentes nessas bases — e isso já dá pistas sobre o porquê dos bloqueios.

7. O que pode mudar a seguir?

A Marinha disse que vai “parametrizar manualmente” os critérios para corrigir os bloqueios identificados. Por outras palavras, vai adicionar excepções para os sites dos partidos parlamentares. O Bloco pediu investigação autónoma ao Governo. O mais relevante a médio prazo é se este caso desencadeia algum tipo de regulamentação geral para filtragem em redes do Estado — que hoje, em Portugal, simplesmente não existe.

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