Manifesto da Palantir traz tecnofascismo para o debate público - Sociedade Civil
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Resumo

  • Em abril de 2026, a empresa que cofundou com Peter Thiel publicou na rede X um resumo em 22 pontos do livro de Karp, The Technological Republic.
  • Karp escreveu a tese em Frankfurt, casa da Escola que dedicou décadas a denunciar a razão instrumental, a indústria cultural e a personalidade autoritária.
  • O Reino Unido, com a Palantir já instalada no NHS e em contratos públicos sensíveis, é o caso-piloto.

A empresa publicou em abril o resumo do livro do seu presidente executivo. O texto apela a rearmamento, conscrição obrigatória e supremacia ocidental por via tecnológica. Filósofos chamaram-lhe tecnofascismo. A palavra deixou a academia.

Alex Karp, presidente executivo da Palantir, doutorou-se em Teoria Social pela Universidade Goethe de Frankfurt. Em abril de 2026, a empresa que cofundou com Peter Thiel publicou na rede X um resumo em 22 pontos do livro de Karp, The Technological Republic. O texto circulou amplamente em poucos dias.

Foi nesse momento que a palavra tecnofascismo deixou de circular apenas em revistas académicas.

O que diz o texto

Os 22 pontos defendem que Silicon Valley deve uma dívida moral ao país que a tornou possível. Apelam ao regresso da conscrição militar, à participação das tecnológicas no esforço de defesa e ao rearmamento tecnológico do Ocidente. Defendem que o hard power — o poder militar — será no século XXI construído sobre software.

Outro ponto ataca a resistência ocidental a definir culturas nacionais em nome da inclusividade. Critica a exposição da vida privada das figuras públicas. Apela ao regresso da religião ao espaço público. Termina com um chamado à coragem civilizacional.

A palavra que regressou

O conceito de tecnofascismo não é novo. Lewis Mumford e Ivan Illich denunciaram, nos anos sessenta, a centralização tecnocrática. Sheldon Wolin descreveu o totalitarismo invertido. A novidade é a base material — redes sociais, modelos generativos, plataformas de fusão de dados como as da Palantir.

Na leitura crítica, o tecnofascismo não precisa de reproduzir a estética do fascismo histórico. Pode operar por dependência, sedução, risco, eficiência e integração de dados. A obediência produz-se por conveniência, não apenas por medo.

A ironia de Frankfurt

O detalhe biográfico é difícil de ignorar. Karp escreveu a tese em Frankfurt, casa da Escola que dedicou décadas a denunciar a razão instrumental, a indústria cultural e a personalidade autoritária. Adorno, Horkheimer e Habermas avisaram contra a fusão entre racionalidade técnica e poder político concentrado. O ex-doutorando assina hoje um manifesto que, lido por adversários e por aliados, defende essa fusão.

A interpretação benigna é que Karp se vê como reformador realista — defensor de uma democracia liberal que precisa de músculo tecnológico para sobreviver à concorrência chinesa. A interpretação dura vê no texto um plano de captura tecnológica do Estado.

O ângulo europeu

A Europa não é objeto passivo do texto. É audiência-alvo. Alemanha e Japão são nomeados. O Reino Unido, com a Palantir já instalada no NHS e em contratos públicos sensíveis, é o caso-piloto. O programa de trabalho da Comissão Europeia para 2026 coloca defesa, segurança e simplificação regulamentar no centro. Vocabulário que se cruza com o do manifesto.

Em 2024, Yanis Varoufakis popularizou “tecnofeudalismo” para descrever a captura económica pelas plataformas. A distância entre tecnofeudalismo e tecnofascismo é estreita. Um descreve extração de renda. O outro descreve captura de Estado.

Daquela tese em Frankfurt, restou apenas o eco invertido.

Fontes

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