Loures: o armazém, a igreja não-reconhecida e o voto Chega — três fenómenos no mesmo território, sem ligação documentada entre eles - Sociedade Civil
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Resumo

  • A 5 de junho de 2025, a PSP descobriu 45 imigrantes a viver num armazém de São João da Talha que funcionava como igreja evangélica não-reconhecida.
  • Permitem, isso sim, descrever três fenómenos paralelos no mesmo território — e identificar o que neles é matéria política, o que é matéria regulatória, e o que ainda está por apurar.
  • Foi em Loures que André Ventura iniciou carreira política, em 2017, como candidato do PSD à Câmara — a candidatura que estreou o discurso anti-cigano que viria a marcar a sua trajectória.

A 5 de junho de 2025, a PSP descobriu 45 imigrantes a viver num armazém de São João da Talha que funcionava como igreja evangélica não-reconhecida. Quatro meses depois, o Chega mais do que duplicou a sua votação no concelho. Os dois acontecimentos coexistem no território — não há prova pública de que se causem. Esta é a leitura possível, com as fontes que existem.

São sete da manhã. Em São João da Talha, freguesia do concelho de Loures, agentes da PSP fiscalizam um armazém de dois pisos. À porta, um cartaz identifica a estrutura como “Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Mangualde”. O armazém serve de habitação a 45 pessoas. Há duas crianças entre os residentes. Há um português a pagar 220 euros mensais por um quarto sem janela. A operação dura cinco horas. Decorre sem incidentes. Os 45 imigrantes estão, todos, em situação regular em Portugal. Apesar disso, a PSP levanta auto de notícia por crime de auxílio à imigração irregular.

Quatro meses e sete dias mais tarde, nas eleições autárquicas de 12 de outubro, o Chega obtém 20,67% no concelho de Loures. Em 2021, tinha obtido 8,42%. Mais do que duplicou.

A tentação de ligar os dois acontecimentos por uma seta causal é grande. As fontes públicas, ao fim de uma análise, não permitem desenhar a seta. Permitem, isso sim, descrever três fenómenos paralelos no mesmo território — e identificar o que neles é matéria política, o que é matéria regulatória, e o que ainda está por apurar.

O bispo, a igreja, o Ministério Público

O cartaz na porta nomeia o líder: bispo Zaqueu Pereira. Líder religioso brasileiro, está desde 2021 a ser investigado pelo Ministério Público por crimes de auxílio à imigração ilegal. Antes do armazém de Loures, havia outra estrutura sua no Seixal, com 27 quartos para imigrantes. A “Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Mangualde” não consta da lista de igrejas evangélicas reconhecidas pela Aliança Evangélica Portuguesa, organismo representativo do segmento.

O Observador documentou o histórico do bispo. O Público relatou a operação. A CNN Portugal, a RTP, a Lusa, o JN — todos cobriram o caso. A Câmara Municipal de Loures emitiu comunicado a esclarecer que a operação resultou de denúncias do próprio município.

Em junho, em entrevista ao Observador, o presidente da AEP Timóteo Cavaco demarcou-se. “Nem uma nem outra fazia parte” — referindo-se também à creche ilegal de Sintra detectada dias antes em circunstâncias semelhantes. A AEP teve de fazer comunicado público para se demarcar. O facto de ter precisado de o fazer é, em si, indício de que o problema reputacional existe.

Dezanove dias depois da primeira operação, a 24 de junho, a PSP detectou na mesma união de freguesias outro armazém com 24 pessoas. Apenas uma estaria em situação irregular. O caso fora detectado pela colaboração entre Câmara Municipal e PSP. Evidência de padrão local — não de coordenação com qualquer estrutura partidária.

O Chega em Loures

O concelho tem peso simbólico no Chega. Foi em Loures que André Ventura iniciou carreira política, em 2017, como candidato do PSD à Câmara — a candidatura que estreou o discurso anti-cigano que viria a marcar a sua trajectória. Foi o ponto de ruptura com o PSD. Foi a porta de saída para a fundação do Chega, em 2019. Voltar a Loures, em 2025, não é regresso qualquer — é regresso ao terreno fundacional.

O candidato do Chega em 2025 foi Bruno Nunes, deputado na Assembleia da República e vereador sem pelouro no concelho desde 2021. Não é figura externa. Conhece o terreno. Em 2021, com 8,42%, elegeu um vereador. Em 2025, com 20,67%, elegeu dois — e o Chega passou de uma para três bancadas na Assembleia Municipal.

O PS, com Ricardo Leão, foi reeleito com maioria absoluta de 43,83%. A coligação PSD/CDS-PP ficou em terceiro com 14,86%. A CDU, que liderara o concelho até 2021, caiu para 10,97%.

A subida do Chega em Loures — 12 pontos percentuais em quatro anos — encaixa em quadro mais amplo. Em concelhos próximos da Área Metropolitana de Lisboa, o partido também subiu. O caso de São João da Talha aconteceu em junho. A campanha autárquica decorreu nos meses seguintes. O tema da habitação ilegal e da imigração foi central na campanha do Chega no concelho — particularmente após a polémica das demolições no Bairro do Talude Militar, que dominou a actualidade política em Loures durante meses, com Pedro Nuno Santos a confrontar Ricardo Leão e a vereação local a aprovar uma recomendação do Chega para que causadores de distúrbios fossem despejados de habitação municipal.

A ligação entre o caso do armazém e a subida eleitoral do Chega não é, à luz das fontes públicas, ligação directa. É ligação temática. O tema “habitação ilegal de imigrantes” entrou na agenda política do concelho em junho. O Chega, partido com posicionamento securitário, capitalizou um tema que já estava na rua. Não há, nas fontes públicas, declarações de Bruno Nunes ou de Ventura especificamente sobre o caso Zaqueu Pereira.

O que liga, o que não liga

O bispo Zaqueu Pereira não tem, nas fontes públicas consultadas, qualquer ligação documentada ao Chega. A sua igreja não está filiada na AEP. Não foi candidato. Não fez declarações de apoio. Não há registo de presença sua em eventos do partido. Há um arguido por auxílio à imigração ilegal, à frente de uma estrutura que se apresenta como igreja sem o ser nos termos da Lei da Liberdade Religiosa, e há um partido que cresceu eleitoralmente no mesmo concelho. Os dois factos são independentes — pelo que se sabe.

Donizete Rodrigues, sociólogo da religião na Universidade da Beira Interior, tem desenvolvido a tese da “teologia do domínio” — uma estratégia ideológica ultraconservadora que aproxima segmentos evangélicos de partidos de direita radical em vários países. A análise é académica e tem peso. A passagem da análise teórica para a verificação operacional, num caso concreto português, exigiria documentação que ainda não foi tornada pública. A SociedadeCivil.pt, em obrigação de rigor, não pode tratar a hipótese sociológica como prova jornalística.

O que existe, demonstrável, é matéria política suficiente. A imigração foi tema central da campanha do Chega em Loures. O caso Loures, mesmo sem ligação directa ao partido, alimentou o tema. A subida eleitoral foi consequência possível dessa coincidência temática — não de coordenação. As eleições democráticas funcionam, em parte, assim: temas reais, capitalizados por quem tem posicionamento ajustado. Não é conspiração. É política.

O vazio que importa

A pergunta mais útil para o leitor de Loures não é “o Chega beneficiou do caso?” — é “como é que o caso foi possível em primeiro lugar?”. A resposta a essa pergunta — vazio regulatório no reconhecimento de igrejas, ausência de fiscalização sistemática de estruturas auto-declaradas confessionais, fragilidade do sistema de inspecção habitacional — é a que tem soluções concretas. As outras perguntas, sobre voto e mobilização, dependem de inquéritos detalhados que estão ainda por fazer.

Em Loures, em 2026, há três coisas certas. O bispo está sob investigação. O Chega cresceu sem ganhar a câmara. O sistema legal ainda não fiscaliza igrejas auto-declaradas. As três certezas existem. A linha que as ligaria, se existir, ainda não está documentada.

Sem contraditório formal documentado à data de publicação. A SociedadeCivil.pt actualizará esta peça se forem recebidas respostas formais do Chega Loures, da direcção nacional do Chega, da defesa de Zaqueu Pereira ou da Aliança Evangélica Portuguesa.

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