Igrejas evangélicas brasileiras em Portugal: o mapa de um crescimento que mudou o país religioso em dez anos - Sociedade Civil
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Resumo

  • O estudo da AEP ouviu 509 líderes de igrejas evangélicas em todo o país durante a primeira metade de 2025.
  • E existem centenas de igrejas independentes, surgidas nos últimos anos, frequentemente fundadas por imigrantes que chegam a Portugal e abrem comunidade na sala de casa antes de alugarem espaço maior.
  • Com estas vozes tão diferentes e tão diversas, a Aliança Evangélica tem até uma certa dificuldade em dizer ou não o que é evangélico”, diz à CNN Portugal.

Em 2003, a Aliança Evangélica Portuguesa fez um estudo. Em 2025, repetiu-o — e o retrato de Portugal mudou. Oitenta e oito por cento das igrejas inquiridas cresceram. Sessenta e cinco por cento das igrejas plantadas depois de 2020 são lideradas por missionários brasileiros. A política partidária ofusca o que é, antes de tudo, mutação cultural.

Flávia Pechilga foi baptizada na Igreja Católica. Casou pela Igreja Católica. Os filhos mais velhos foram baptizados na Igreja Católica. Hoje, frequenta uma igreja evangélica em Sintra. “Fez-me sentido a maneira como eles explicam a Bíblia”, diz à CNN Portugal. Tem 37 anos, é educadora de infância, coordena uma instituição particular de solidariedade social ligada a uma paróquia da linha de Sintra. É portuguesa, é mulher, é jovem — e converteu-se. É, ao milímetro, o perfil dos novos convertidos ao protestantismo evangélico em Portugal, segundo o estudo coordenado por Pedro Silva para a Aliança Evangélica Portuguesa.

A leitura mais comum reduz o crescimento evangélico em Portugal à imigração brasileira. Os números desmentem-na em parte: 54% dos novos convertidos nasceram em Portugal. A imigração é factor — não é a história inteira.

Os números que importam

O estudo da AEP ouviu 509 líderes de igrejas evangélicas em todo o país durante a primeira metade de 2025. Foi o primeiro retrato sistemático desde 2003. Dos pastores inquiridos, 88% dizem que as suas igrejas cresceram em relação ao último estudo. Setenta e três por cento afirmam que a assistência aos cultos aumentou. Setenta por cento têm planos definidos — incluindo localização — para plantar novas igrejas até 2030, sobretudo na região da Grande Lisboa, em Aveiro e no Porto.

Sessenta e cinco por cento das igrejas plantadas em Portugal depois de 2020 são pastoreadas por missionários brasileiros.

Os números não são neutros. Em concelhos da margem norte da Área Metropolitana de Lisboa — Loures, Sintra, Amadora, Odivelas — multiplicam-se garagens, lojas e armazéns convertidos em locais de culto. Em Setúbal, há quem conte a passagem de quatro para mais de quarenta igrejas evangélicas em poucos anos, segundo José Brissos Lino, especialista em Ética e Ciência das Religiões. Brissos Lino fala em “crescimento artificial, muito à conta dos brasileiros”, e dá um exemplo: “como a marca Assembleia de Deus é muito forte, eles colocam Assembleia de Deus do Rio Jordão, Assembleia de Deus de troca o passo, alugam uma loja, fazem uns cultos. É o mercado da fé a funcionar.”

Quem é o convertido típico

Setenta e seis por cento dos novos convertidos são mulheres. Oitenta e dois por cento têm menos de 43 anos. Quarenta e oito por cento são católicos não-praticantes. Oito por cento são católicos praticantes. Cinquenta e quatro por cento nasceram em Portugal.

A leitura sociológica é que a evangelização ocorre num espaço deixado vago pela secularização do catolicismo português. Donizete Rodrigues, professor de Sociologia da Religião na Universidade da Beira Interior, sintetiza-o à CNN Portugal: a contagem total dos brasileiros nas igrejas evangélicas exige somar a imigração documentada — mas não chega para explicar o fenómeno por inteiro. A pergunta óbvia é onde estão os portugueses convertidos. A resposta está nos bairros suburbanos onde a imigração brasileira chegou, criou comunidade religiosa, e atraiu vizinhos portugueses que buscavam acolhimento.

“Senti-me muito acolhida. Somos tratados de forma muito fraterna. Não há julgamentos”, explica Flávia. É isto que se troca.

A diversidade que existe

Falar de “evangélicos em Portugal” como se fosse um bloco é erro analítico. Existem denominações históricas — Baptista, Metodista, Presbiteriana — com tradição centenária no país. Existem igrejas pentecostais clássicas, como a Assembleia de Deus, com presença consolidada e estrutura organizada. Existem grupos neopentecostais de origem brasileira — Igreja Universal, Maná, Mundial — com modelos próprios de captação financeira. E existem centenas de igrejas independentes, surgidas nos últimos anos, frequentemente fundadas por imigrantes que chegam a Portugal e abrem comunidade na sala de casa antes de alugarem espaço maior.

Jorge Botelho Moniz, politólogo especializado em religião e política, fala em “plasticidade” e “capacidade de adaptação” deste universo. “Há igrejas para diferentes gostos. Com estas vozes tão diferentes e tão diversas, a Aliança Evangélica tem até uma certa dificuldade em dizer ou não o que é evangélico”, diz à CNN Portugal.

A AEP, presidida por Timóteo Cavaco, congrega cerca de 200 mil a 250 mil residentes em Portugal — protestantes evangélicos identificados, inclusivamente cidadãos não-portugueses, jovens abaixo da idade de voto. É o segundo maior grupo religioso do país depois do catolicismo, mas representa, no melhor dos cenários, 2,5% da população. Cavaco recusa, com este enquadramento, falar de “voto evangélico”: “um voto religioso só terá significado se abranger no mínimo 15 a 20% dos eleitores.”

A ponta mais frágil

O estudo da AEP cobre o universo organizado. Não cobre — porque tecnicamente não pode — as estruturas que se apresentam como igrejas mas não estão filiadas em nenhum organismo representativo, não estão registadas como igreja radicada nos termos da Lei da Liberdade Religiosa, e operam à margem.

A operação policial num armazém de São João da Talha, em Loures, em junho de 2025, expôs uma destas estruturas — a chamada “Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Mangualde” liderada pelo bispo brasileiro Zaqueu Pereira, arguido pelo Ministério Público desde 2021. A AEP demarcou-se publicamente. Não estava filiada. Não era reconhecida. Mas funcionava com cartaz, com cultos e com 45 pessoas a viver no armazém.

Esta ponta marginal merece outra reportagem — sobre o vazio regulatório que a torna possível. A reportagem que aqui se conta é a outra, a mais larga: a do Portugal religioso que mudou, sem ruído nem manchete, ao longo da última década.

Onde vai dar

Pedro Calaim, pastor citado pela AEP, diz que muitas das igrejas que abriam nos anos 2000 fechavam em dois ou três anos, vítimas da emigração dos seus fundadores. O estudo de 2025 mostra inversão. As igrejas que abrem agora têm planos de expansão a cinco anos. Compram espaços. Constroem sedes. Em Monte Abraão, a igreja Videira ocupa três galpões — comprados, não alugados — pagos pelos dízimos de 10% sobre os salários dos integrantes.

Há vinte anos, Portugal era um país com diversidade religiosa residual. Hoje, é um país onde nove em cada dez igrejas que abrem são evangélicas, segundo dados de 2023 do Correio Braziliense citando a AEP. A maioria é comandada por brasileiros. A maioria dos novos convertidos é portuguesa, jovem e mulher.

Aquilo que muda silenciosamente — disse uma vez o sociólogo francês Émile Durkheim — é o que mais importa. Em Portugal, o que está a mudar silenciosamente é a paisagem religiosa de um país que durante 800 anos foi quase exclusivamente católico. A política partidária está a usar este facto. Antes do uso, há o facto.

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