Mais de 1.172 civis mortos no Irão: o custo humano - Sociedade Civil
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Resumo

  • É o número confirmado de menores mortos no Irão desde os ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel a 28 de fevereiro de 2026, segundo a HRANA — a Agência de Notícias de Activistas de Direitos Humanos do Irão.
  • A Organização Mundial de Saúde confirmou 13 ataques a instalações de saúde no Irão e um adicional no Líbano desde o início das hostilidades.
  • As sanções internacionais impostas ao longo de décadas empobreceram o sistema público de saúde, limitaram o acesso a fármacos e equipamentos de diagnóstico, e criaram uma crise de recursos humanos de saúde — médicos e enfermeiros emigraram em número significativo para países do Golfo Pérsico.

Mais de 1.172 civis mortos no Irão: o custo humano

Para além do petróleo: os mortos, os deslocados e o silêncio que cobre o Irão

Enquanto os mercados monitorizam o barril, o Irão conta mortos: 1.172 civis confirmados, 194 crianças, 275 mil deslocados. A OMS registou 13 ataques a infraestruturas de saúde. O custo humano de uma guerra que Portugal ainda vê de longe.

Cento e noventa e quatro crianças. É o número confirmado de menores mortos no Irão desde os ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel a 28 de fevereiro de 2026, segundo a HRANA — a Agência de Notícias de Activistas de Direitos Humanos do Irão. Ao total de civis mortos — 1.172, à data desta publicação — somam-se 176 militares e um número indeterminado de feridos graves.

Não é um número fácil de visualizar. 1.172 civis. Equivale, em termos de escala, a esvaziar uma escola secundária portuguesa de tamanho médio. Duas vezes.

E não é o único país a contar baixas. No Líbano, onde as operações militares israelenses se intensificaram em paralelo, os bombardeamentos causaram 394 mortos numa semana, 83 dos quais crianças e 42 mulheres.

275 mil pessoas sem casa

A destruição física tem uma consequência imediata que os números de baixas não captam: o deslocamento. Mais de 275 mil pessoas foram forçadas a abandonar as suas casas na região desde o início do conflito, de acordo com as Nações Unidas. Cerca de 100 mil deixaram o Irão. Mais de 60 mil foram deslocadas no Líbano.

A dimensão pode parecer manejável — em comparação, a guerra na Ucrânia deslocou mais de seis milhões de pessoas. Mas há uma diferença crucial: o Irão tem 90 milhões de habitantes. Uma desestabilização progressiva poderia gerar fluxos de refugiados de uma magnitude que a Europa não viu desde 2015.

A ONU foi directa no aviso: “A deslocação de apenas dez por cento da população iraniana seria suficiente para rivalizar com os maiores fluxos de refugiados das últimas décadas.” Dez por cento do Irão são nove milhões de pessoas. A população de Portugal.

Os hospitais que foram alvo

A Organização Mundial de Saúde confirmou 13 ataques a instalações de saúde no Irão e um adicional no Líbano desde o início das hostilidades. Hospitais. Clínicas. Postos de saúde em zonas já fragilizadas por anos de sanções económicas que tornaram a importação de medicamentos e equipamentos médicos extremamente difícil.

O Irão não era um Estado com sistema de saúde robusto antes da guerra. As sanções internacionais impostas ao longo de décadas empobreceram o sistema público de saúde, limitaram o acesso a fármacos e equipamentos de diagnóstico, e criaram uma crise de recursos humanos de saúde — médicos e enfermeiros emigraram em número significativo para países do Golfo Pérsico. O conflito chegou a um sistema já em stress.

Shirin, de Teerão, e o sobrinho que não sabe onde está

Shirin Moradi tem 38 anos e vive em Dusseldorf há seis anos. Trabalha numa empresa de logística alemã. A 1 de março, perdeu contacto com o sobrinho de 14 anos, que vivia com os pais em Karaj, a oeste de Teerão.

“Os telemóveis ficaram sem rede durante dois dias. Depois a internet cortou. Quando voltei a falar com a minha irmã, ela disse que tinham saído de casa porque havia bombas perto. Não sei onde estão agora.” A voz quebra. Retoma. “Ele faz anos no dia 15.”

Há dezenas de milhares de iranianos na diáspora europeia — estimativas apontam para 200 mil só na Alemanha, com uma comunidade mais pequena mas activa em Portugal, centrada em Lisboa e no Porto — que vivem, neste momento, exactamente o que Shirin descreve. A distância geográfica não neutraliza o terror.

O que a Europa ainda não percebeu

A narrativa dominante sobre este conflito, tanto nos media europeus como nas conversas políticas, é económica: petróleo, Ormuz, inflação, juros. É compreensível. É o impacto que se sente aqui, agora, de forma tangível.

Mas há uma outra dimensão, que os fluxos de refugiados de 2015 tornaram brutalmente claros: as guerras nos países vizinhos não ficam lá. Chegam às fronteiras. Chegam às cidades europeias. Chegam aos centros de acolhimento, às escolas, aos serviços de saúde. O custo humanitário de hoje é o desafio político de amanhã.

Portugal acolheu, em 2022 e 2023, um número significativo de refugiados ucranianos — com sucesso relativo, segundo os dados de integração do SEF. Uma crise iraniana de grande escala seria de uma magnitude diferente, com perfis linguísticos e culturais distintos, e numa altura em que a capacidade europeia de resposta está já tensionada.

O que diz o ICRC

O Comité Internacional da Cruz Vermelha (ICRC) publicou, em fevereiro de 2026 — semanas antes do início do conflito —, o seu relatório de perspectivas humanitárias para o ano. A frase de abertura era um aviso: 2026 seria o ano em que o mundo correria o risco de sucumbir ao peso acumulado de múltiplas guerras simultâneas.

Não era uma previsão sobre o Irão — o conflito ainda não tinha começado. Era uma análise sobre a fadiga sistémica das organizações humanitárias, o subfinanciamento crónico das operações de socorro e a saturação da opinião pública perante crises que se sucedem demasiado depressa para serem processadas.

O conflito do Médio Oriente de 2026 chegou, portanto, a um sistema já no limite. E chegou com uma velocidade que não deixou tempo para preparação.

A questão que não desaparece

Há uma pergunta que os analistas evitam formular directamente porque não tem resposta limpa: quando termina? Os ataques alcançaram os objectivos declarados? O Irão tem capacidade de escalada? Há condições para negociação?

Ninguém sabe. O que se sabe é que cada dia adicional de conflito acrescenta mortos, deslocados e destruição de infraestruturas que levam anos — às vezes décadas — a reconstruir. O Iraque, bombardeado em 2003, ainda não recuperou plenamente a capacidade hospitalar que tinha antes da guerra.

1.172 mortos confirmados. 194 crianças. Não são estatísticas abstractas. São pessoas que tinham nomes, endereços, rotinas, planos para a semana seguinte. A guerra apagou-os. O mundo fixou o preço do barril.

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