Resumo
- quem escolhe estes comentadores, o quê revelam (ou não) sobre interesses paralelos, quando entram no alinhamento (quase sempre em “última hora”), onde se sentam (no topo do noticiário), porquê a sua palavra pesa mais do que outras, e como a audiência distingue análise de promoção.
- O problema começa quando a televisão transforma a patente num selo de neutralidade e dispensa as perguntas que faria a qualquer outro comentador.
- O que se pede chama-se transparência básica, do tipo que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) conhece bem e que qualquer redação séria consegue aplicar sem drama.
Em noites de crise internacional, os generais comentadores ocupam o estúdio como se fosse uma extensão do Estado-Maior: analisam mapas, antecipam “cenários”, garantem que “isto é assim”. Quem fala? Em nome de quem? Com que ligações? Em Portugal, como noutros países, a questão deixou de ser apenas editorial e tornou-se de higiene democrática: quando a televisão pede opinião a um ex-comandante, o público tem direito a saber se essa voz traz bagagem — contratos, consultoria, portas giratórias — ou apenas experiência.
Na prática, a pergunta é de seis linhas e vale um telejornal inteiro: quem escolhe estes comentadores, o quê revelam (ou não) sobre interesses paralelos, quando entram no alinhamento (quase sempre em “última hora”), onde se sentam (no topo do noticiário), porquê a sua palavra pesa mais do que outras, e como a audiência distingue análise de promoção.
A credibilidade fardada e a transparência em falta
O problema não é haver militares a comentar. A concessão honesta: há oficiais reformados com lucidez, prudência e memória de terreno; quando explicam diferenças entre artilharia e drones, ajudam o público. O problema começa quando a televisão transforma a patente num selo de neutralidade e dispensa as perguntas que faria a qualquer outro comentador.
Porque a guerra, e sobretudo a “economia” da guerra, tem fornecedores. Tem concursos. Tem consultoras. Tem institutos e think tanks. E tem, com frequência, um mercado de influência que não aparece no rodapé do ecrã.
Num corredor da RTP, ali para os lados da Avenida Marechal Gomes da Costa, um produtor descreveu-me uma lógica comum nas redações: “Precisamos de alguém que passe segurança.” A palavra é essa — segurança. O efeito colateral é outro: a audiência confunde serenidade com isenção.
Daquela autoridade, resta muitas vezes uma sombra: não é ao espectador que se explica; é ao espectador que se conduz.
Micro-história: o rodapé que não chegou a existir
Numa noite chuvosa no Campo Pequeno, num café com televisão ligada e som baixo, um grupo seguia um debate sobre “ameaças” e “capacidade de resposta”. Um homem de meia-idade, copo de bica à frente, apontou para o ecrã: “Este sabe do que fala.” Ao lado, alguém respondeu: “Pois, mas trabalha para quem?” A conversa morreu ali. Não por falta de interesse, mas por falta de informação. Se o canal não diz, o cidadão não adivinha. E sem dados, a desconfiança cresce como humidade nas paredes.
“Estão a insinuar corrupção?” A objeção é legítima
Poderiam argumentar que este tema abre caminho a caça às bruxas: que um general reformado não perde o direito à opinião, que a experiência militar tem valor próprio, que o país precisa de vozes técnicas. Certo. Ninguém pede mordaça, nem puritanismo.
O que se pede chama-se transparência básica, do tipo que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) conhece bem e que qualquer redação séria consegue aplicar sem drama: declaração clara de funções atuais, ligações remuneradas relevantes, participação em empresas do setor, pertença a conselhos consultivos, e presença em entidades que beneficiem de contratos de defesa. Tal como se identifica um comentador partidário, identifica-se um comentador com interesses económicos diretos no tema.
E há um ponto ainda mais sensível: quando a televisão convoca generais comentadores em catadupa e quase nunca chama investigadores independentes, juristas de direito internacional, jornalistas no terreno ou organizações humanitárias, o debate fica coxo. A pluralidade não é “equilíbrio” decorativo; é método.
O que mudar sem partir a redação ao meio
Há soluções simples, sem moralismos:
- Ficha de comentador em rodapé e no site: cargos, consultorias, participação em empresas, vínculos a entidades de defesa.
- Rotação real de vozes: militares, sim; mas também academia, diplomacia, direito, jornalistas locais, verificação de factos.
- Perguntas de escrutínio no ar: “Tem ligações ao setor?”, “Já trabalhou para empresas com contratos públicos nesta área?”, “Quem financia a entidade que representa?”
- Regra de relevância: não interessa a vida inteira do convidado; interessam as ligações que possam enviesar o comentário.
A televisão não cria guerras. Mas pode normalizá-las, torná-las aceitáveis, até elegantes. E quando isso acontece com a ajuda de generais comentadores sem ficha à vista, não falha apenas a ética de estúdio: falha o direito do público a decidir com olhos abertos.
Uma frase final, sem floreados: sem transparência, a opinião vira publicidade.