Resumo
- Milei define-se como “anarcocapitalista” e construiu a sua marca política sobre a redução radical do Estado, a desregulação agressiva, a privatização extensa e a hostilidade frontal à ideia de “justiça social”, que classifica como roubo ou aberração.
- No manifesto e na prática discursiva, o partido português conserva um impulso estatista robusto em áreas como segurança, justiça, controlo penal e proteção de pensões para os “portugueses de bem”.
- a base eleitoral portuguesa — sobretudo a classe média urbana e setores envelhecidos — depende muito mais da escola pública, do SNS, das pensões e da proteção estatal do que a retórica da rutura gosta de admitir.
André Ventura encontrou em Javier Milei um aliado vistoso: feroz, ruidoso, vendável. Partilham palcos, códigos e uma gramática de guerra contra o “sistema”. Mas, quando se sai da fotografia e se entra no programa, a afinidade começa a ranger. O vínculo entre Milei e Ventura é menos uma fusão ideológica do que uma aliança de utilidade: o argentino oferece ao Chega um símbolo global de rutura; o Chega devolve-lhe eco europeu.
A pergunta central, em Portugal, não é se Ventura admira Milei. Admira. A pergunta séria é outra: pode o Chega copiar o mileísmo sem se desmentir a si próprio? A resposta, olhando para as propostas de um e de outro, é desconfortável para quem prefere slogans simples: não por inteiro.
O Estado: inimigo para um, instrumento para o outro
Milei define-se como “anarcocapitalista” e construiu a sua marca política sobre a redução radical do Estado, a desregulação agressiva, a privatização extensa e a hostilidade frontal à ideia de “justiça social”, que classifica como roubo ou aberração. No seu desenho do mundo, o Estado é sobretudo um intruso.
O Chega, apesar da retórica incendiária contra o aparelho público, não cabe nessa moldura. No manifesto e na prática discursiva, o partido português conserva um impulso estatista robusto em áreas como segurança, justiça, controlo penal e proteção de pensões para os “portugueses de bem”. Em certos contextos, chega até a admitir a nacionalização de sectores estratégicos. É uma direita de autoridade, não uma seita anti-Estado levada até ao fim.
Da motosserra, o Chega quer o barulho. Não quer necessariamente o corte até ao osso.
Economia: liberalismo seletivo contra choque total
Aqui a distância aumenta. Milei propõe uma terapia de choque: menos regulações, menos proteção laboral, menos travões. A recente reforma laboral argentina, promulgada a 6 de março de 2026, vai nessa linha: mais flexibilidade contratual, banco de horas, alterações em indemnizações e compressão do poder negocial sindical【327274031924649†L200-L204】. É um laboratório duro, pensado para baixar custos e reconfigurar a relação entre patrão e trabalhador.
O Chega, pelo contrário, pratica um liberalismo de conveniência. Ataca a carga fiscal sobre a classe média, sim. Mas evita assumir, com a nitidez de Milei, uma ofensiva total sobre o Estado social europeu. E percebe-se porquê: a base eleitoral portuguesa — sobretudo a classe média urbana e setores envelhecidos — depende muito mais da escola pública, do SNS, das pensões e da proteção estatal do que a retórica da rutura gosta de admitir.
Numa pastelaria da Avenida de Roma, o discurso soa de outra forma. Uma reformada conta os cêntimos antes de pedir meia torrada, suspira com a conta da farmácia e diz que “ito assim não dá”. Está irritada com o regime, sem dúvida. Mas quer menos impostos e mais segurança — não necessariamente um Estado desmantelado. É nessa contradição miúda que o Chega vive. E é por isso que não pode ser Milei por completo.
O que os une, então?
Une-os a técnica. O bypass aos media. A vitimização como prova de autenticidade. A construção de um inimigo difuso — “casta”, “bloco central”, “sistema instalado” — e a promessa de purga moral da vida pública. O ponto de contacto mais sólido não está nas tabelas macroeconómicas; está na encenação da coragem.
Poderiam argumentar que estas diferenças programáticas são secundárias e que a política, hoje, se faz sobretudo de símbolos. Há verdade nisso. Mas só até certo ponto. Governar não é erguer uma motosserra num comício em Buenos Aires; é decidir, em Lisboa, quem perde rendimento, quem espera mais no hospital, quem suporta o risco no trabalho. Quando chega essa hora, o teatro já não basta.
O totem argentino e o limite português
Há aqui uma concessão honesta a fazer: o Chega não usa Milei por acaso. Usa-o porque Milei oferece uma imagem de vitória contra elites desacreditadas, e essa imagem tem valor eleitoral. Serve de prova de que um outsider agressivo pode vencer. Serve de vacina contra a moderação. Serve, sobretudo, de legitimação.
Mas Portugal não é a Argentina. Nem socialmente, nem institucionalmente, nem monetariamente. E o Chega sabe-o. Sabe que importar o pacote completo de Milei o colocaria em choque com partes do eleitorado que quer castigar o regime sem incendiar a rede de proteção em que vive.
É por isso que Ventura posa ao lado de Milei, mas não o copia linha por linha. Quer o fulgor, quer a violência cénica, quer a bênção internacional. Quer o leão. Mas, no programa, guarda sempre uma trela curta.
No palco, são aliados. No papel, já não.