Resumo
- Estes elementos combinaram-se com fatores internos, como alterações legislativas no mercado de arrendamento e regimes especiais de reabilitação urbana que incentivaram o investimento imobiliário.
- O mesmo acontece na Área Metropolitana do Porto, com a procura a crescer em cidades como Maia, Valongo ou Vila Nova de Gaia.
- A pandemia de COVID-19, a guerra na Ucrânia e a subida da inflação criaram instabilidade económica.
Entre 2015 e 2023, comprar casa em Portugal tornou-se drasticamente mais caro. Os preços das habitações aumentaram mais de 100%, um crescimento que duplica a média da União Europeia no mesmo período. O dado surge no relatório “Acesso à Habitação em Portugal: evolução recente e retrato atual”, publicado em dezembro de 2024 por investigadores da Universidade Nova de Lisboa.
O número impressiona porque revela uma divergência clara: enquanto no conjunto da União Europeia os preços subiram cerca de 50%, Portugal registou um dos aumentos mais acentuados do continente.
A pergunta impõe-se: o que aconteceu no mercado imobiliário português para justificar uma subida tão abrupta?
Uma década de valorização acelerada
Desde meados da década de 2010, o mercado imobiliário português entrou num ciclo de valorização contínua. Lisboa e Porto foram os primeiros motores desta escalada, impulsionadas por investimento internacional, turismo urbano e reabilitação dos centros históricos.
A dinâmica espalhou-se rapidamente para outras cidades e zonas suburbanas.
Em bairros como Marvila, em Lisboa, antigos armazéns industriais transformaram-se em condomínios de luxo. No Porto, ruas outrora marcadas por prédios degradados começaram a receber investidores estrangeiros e promotores imobiliários. O resultado foi um aumento acelerado dos valores de venda.
O relatório sublinha que este fenómeno não ocorreu apenas em Portugal. Países europeus, os Estados Unidos ou o Canadá viveram igualmente um ciclo de valorização imobiliária. Ainda assim, o caso português destaca-se pela intensidade do crescimento.
Entre as economias da OCDE, Portugal surge mesmo entre os países com aumentos mais expressivos no preço da habitação.
Procura global, oferta limitada
Os investigadores identificam vários fatores que explicam o aumento dos preços.
Entre os principais estão:
a crescente atratividade do turismo urbano;
o interesse internacional no imobiliário português;
a transformação da habitação num ativo financeiro;
a subida dos custos de construção e dos materiais;
a evolução das taxas de juro no crédito à habitação.
Estes elementos combinaram-se com fatores internos, como alterações legislativas no mercado de arrendamento e regimes especiais de reabilitação urbana que incentivaram o investimento imobiliário.
Daquela combinação nasceu um mercado particularmente pressionado.
O papel do investimento estrangeiro
Durante a última década, Portugal tornou-se um destino apetecível para capital internacional. Programas como os vistos gold, regimes fiscais favoráveis e a estabilidade política atraíram compradores estrangeiros, sobretudo para zonas urbanas e regiões turísticas.
Lisboa, Porto e Algarve tornaram-se polos privilegiados.
O efeito foi imediato: maior procura por imóveis, aumento da competição entre compradores e consequente subida dos preços.
Mas reduzir o fenómeno apenas ao investimento estrangeiro seria simplista.
Poder-se-ia argumentar que a presença de capital internacional é apenas uma parte da equação. Os investigadores lembram que as transformações do mercado resultam de múltiplos fatores que se cruzam e reforçam mutuamente, desde mudanças económicas globais até decisões políticas nacionais.
O efeito dominó nas cidades
Quando os preços sobem nos centros urbanos, o impacto espalha-se pelo território.
Famílias que não conseguem comprar casa em Lisboa deslocam-se para municípios periféricos como Loures, Odivelas ou Almada. O mesmo acontece na Área Metropolitana do Porto, com a procura a crescer em cidades como Maia, Valongo ou Vila Nova de Gaia.
Esse movimento gera um efeito dominó: novas zonas tornam-se mais caras e o problema da acessibilidade habitacional expande-se.
Um mercado resiliente — até nos momentos de crise
Mesmo acontecimentos globais que normalmente travariam o mercado imobiliário tiveram impacto limitado.
A pandemia de COVID-19, a guerra na Ucrânia e a subida da inflação criaram instabilidade económica. Ainda assim, o mercado imobiliário português manteve a tendência de crescimento dos preços, demonstrando uma notável capacidade de resistência.
Esta resiliência tem duas leituras possíveis.
Por um lado, mostra a confiança dos investidores no mercado português. Por outro, revela um problema estrutural: quando os preços continuam a subir independentemente das crises económicas, o acesso à habitação torna-se cada vez mais difícil.
Um problema que vai além do mercado
O aumento de mais de 100% nos preços das casas não é apenas um fenómeno imobiliário. É também um indicador social.
Com salários médios relativamente baixos, muitos portugueses ficaram progressivamente afastados do mercado de compra de habitação. O resultado é uma geração que adia decisões de vida fundamentais — sair da casa dos pais, formar família ou mudar de cidade para trabalhar.
No centro do debate permanece uma questão simples.
Se os preços das casas crescem ao dobro do ritmo da Europa, quem consegue realmente viver nas cidades portuguesas?