Resumo
- A fórmula da instabilidadeEntre 2017 e 2021, Walter integrou a Political Instability Task Force, grupo consultivo da CIA com acesso privilegiado a dados globais sobre violência política.
- “Quando o outro deixa de ser um cidadão e passa a ser um inimigo, todas as regras do jogo se tornam dispensáveis.
- o bloqueio crónico no Congresso, o descrédito nos tribunais e a politização da justiça criam a percepção de um Estado ineficaz.
Os Estados Unidos deixaram de ser uma democracia plena. A afirmação, que há poucos anos soaria alarmista, é hoje sustentada por vários centros de investigação independentes — do V-Dem Institute à Freedom House. No terreno fértil da polarização identitária, emerge uma nova realidade institucional: a anocracia, sistema instável a meio caminho entre a democracia e a autocracia. Segundo a politóloga Barbara F. Walter, este é precisamente o tipo de regime onde nascem as guerras civis. Estará a América a repetir o padrão?
O termo soa técnico, mas as consequências são brutais. Anocracia define regimes híbridos onde as regras do jogo democrático são corroídas por dentro, sem colapsar formalmente. “São sistemas com eleições, mas sem confiança. Com liberdade de expressão, mas sem responsabilização. Com aparência de pluralismo, mas captura institucional”, explicou Walter no podcast Prof G Conversations.
A fórmula da instabilidade
Entre 2017 e 2021, Walter integrou a Political Instability Task Force, grupo consultivo da CIA com acesso privilegiado a dados globais sobre violência política. O objectivo? Criar um modelo preditivo para antecipar cenários de colapso. O resultado surpreendeu até os especialistas: entre as 38 variáveis analisadas, apenas duas se revelaram verdadeiramente preditivas de guerra civil.
A primeira? A tal anocracia — ou seja, a existência de instituições democráticas frágeis ou em rápido declínio. A segunda? Partidarismo identitário: quando os cidadãos deixam de votar com base em ideologia e passam a fazê-lo com base em identidade — seja ela étnica, religiosa ou racial.
Ambas as condições estão hoje presentes nos Estados Unidos. “O sistema eleitoral americano está disfuncional e desacreditado”, afirmou Walter. “E os dois partidos estão cada vez mais definidos por linhas raciais e religiosas: brancos cristãos conservadores de um lado, e uma coligação multiétnica progressista do outro.”
6 de Janeiro foi o prenúncio?
O assalto ao Capitólio em 2021 pode ter parecido uma aberração momentânea, mas os dados sugerem o contrário. Mais de 40% dos eleitores republicanos acreditam que a violência política pode ser justificada, de acordo com estudos recentes da Universidade de Chicago. E 1 em cada 3 estudantes universitários norte-americanos aceita o uso da força para impedir oradores com ideias contrárias — uma tendência alarmante que atinge a base da cultura democrática: o debate livre.
A erosão democrática é, aliás, acompanhada por outra tendência crítica: a normalização da linguagem belicista na esfera pública. Termos como “inimigos do povo”, “traidores” e “limpeza” deixaram de ser exclusivos de margens radicais e passaram a ser usados por líderes nacionais.
Segundo Walter, este é um dos sinais clássicos de escalada: a desumanização do adversário político. “Quando o outro deixa de ser um cidadão e passa a ser um inimigo, todas as regras do jogo se tornam dispensáveis. E a violência torna-se justificável.”
Sinais vermelhos no horizonte
Se a teoria prevê colapso em anocracias com identidade partidária rígida, há outros factores agravantes que reforçam o risco:
Eleições contestadas: são um gatilho frequente de violência política. Nos EUA, as eleições presidenciais de 2020 foram formalmente reconhecidas, mas continuam a ser contestadas por milhões de cidadãos e líderes de topo.
Milícias armadas: os EUA têm mais de 500 grupos paramilitares activos, muitos dos quais com discurso abertamente insurreccional.
Disfunção institucional: o bloqueio crónico no Congresso, o descrédito nos tribunais e a politização da justiça criam a percepção de um Estado ineficaz.
Desinformação digital: alimentada por algoritmos que promovem narrativas polarizadoras e desconfiança generalizada.
Num relatório recente da Freedom House, os EUA caíram para a categoria de “democracia em declínio”, atrás de países como Estónia, Costa Rica e Taiwan. O V-Dem Institute é ainda mais severo: classifica os EUA como “autocracia eleitoral”, categoria intermédia que inclui países como Hungria e Índia.
Guerra civil… à americana?
Mas será legítimo falar em guerra civil num país que continua a ter eleições, liberdade de imprensa e Estado de direito? Walter sublinha que os conflitos armados do século XXI já não seguem o modelo da Guerra de Secessão. “Hoje, a guerra civil pode ser fragmentada, intermitente e assimétrica. Pode manifestar-se em ataques isolados, sabotagens, violência direccionada contra símbolos do Estado ou minorias.”
É precisamente este cenário que os EUA começam a experimentar: uma multiplicidade de actos violentos, dispersos no tempo e no espaço, mas politicamente motivados. Dos tiroteios com motivação racial, aos ataques a sedes partidárias, passando por ameaças a funcionários eleitorais, a violência política tornou-se banal.
Walter evita fatalismos, mas não esconde o pessimismo: “A América ainda tem instituições fortes. Mas está a perder rapidamente os factores que mantêm essas instituições legitimadas e eficazes: confiança, coesão e compromisso com as regras.”
A Europa deve estar atenta?
A questão é inevitável: poderá a escalada americana contaminar outras democracias? Walter não hesita: sim. “A radicalização é contagiosa, sobretudo quando amplificada pelas redes sociais. E a ideia de que ‘se acontece na América, pode acontecer em qualquer lado’ é mais verdadeira do que nunca.”
Portugal, até agora relativamente imune a estes fenómenos, já começa a mostrar sintomas preocupantes: crescimento de movimentos de extrema-direita, desinformação nas redes e erosão da confiança institucional. O alerta não é apenas sobre os EUA. É sobre o futuro da democracia liberal em todo o Ocidente.
Final ou aviso?
A pergunta retórica impõe-se: estamos perante o início de uma nova guerra civil — ou ainda a tempo de recuar? Para Walter, a resposta dependerá de uma variável decisiva: a capacidade dos líderes e cidadãos de protegerem os pilares da democracia antes que as fissuras se tornem rupturas irreversíveis.
Porque, como a história mostra, as democracias não caem de repente — apodrecem por dentro, até ao colapso.
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