Resumo
- Igrejas como a Universal do Reino de Deus e a Maná detêm património imobiliário relevante e redes mediáticas próprias.
- Em Portugal, o fenómeno é ainda incipiente, mas a proximidade entre líderes religiosos e o Chega levanta receios de que o mesmo modelo possa emergir.
- Críticos alertam que a simbiose entre economia religiosa e partido político ameaça não só a laicidade do Estado, mas também a transparência democrática.
No silêncio dos cultos, entre cânticos e orações, circula também dinheiro. Chamado de dízimo, o contributo mensal dos fiéis é peça central da vida financeira das igrejas evangélicas. Em Portugal, onde as comunidades crescem sobretudo em torno de imigrantes brasileiros, esse fluxo económico tem-se tornado expressivo. E, segundo o relatório Chega e Evangélicos em Portugal, há indícios de que parte desta rede económica esteja a ser instrumentalizada no jogo político.
O tema é delicado: o Estado garante liberdade religiosa e autonomia financeira às igrejas. Mas até que ponto essa autonomia pode ser usada para financiar causas partidárias ou campanhas eleitorais?
O poder económico das igrejas independentes
Estudos académicos estimam que, em algumas denominações, o dízimo represente mais de 20% do rendimento líquido dos fiéis. Multiplicado por milhares de membros, resulta numa base de receitas capaz de sustentar templos, rádios locais, canais digitais e até projetos sociais.
Igrejas como a Universal do Reino de Deus e a Maná detêm património imobiliário relevante e redes mediáticas próprias. Essa infraestrutura, mesmo quando não transfere fundos diretamente, funciona como suporte logístico para campanhas políticas: disponibilização de espaços, difusão de mensagens em cultos, mobilização de voluntários.
A fronteira tênue entre fé e campanha
O financiamento partidário em Portugal está sujeito a regras rigorosas e escrutínio da Entidade das Contas e Financiamentos Políticos. No entanto, quando a mobilização decorre dentro de templos, o controlo torna-se quase impossível. Sermões que recomendam líderes, vídeos partilhados em redes digitais das igrejas ou autocarros organizados para comícios raramente são registados como despesa partidária.
“Estamos perante uma zona cinzenta”, explica a jurista Helena Pires, especialista em direito eleitoral. “O uso de recursos religiosos para fins políticos não é transparente, mas também não é facilmente sancionável, porque a lei privilegia a liberdade de culto.”
Risco de captura económica e política
O paralelismo com o Brasil é inevitável. Lá, várias igrejas transformaram-se em máquinas eleitorais com orçamento próprio, canalizando dízimos para campanhas. Em Portugal, o fenómeno é ainda incipiente, mas a proximidade entre líderes religiosos e o Chega levanta receios de que o mesmo modelo possa emergir.
Críticos alertam que a simbiose entre economia religiosa e partido político ameaça não só a laicidade do Estado, mas também a transparência democrática. Para os fiéis, o risco é duplo: ver a sua fé usada como capital eleitoral e o seu dinheiro convertido em arma política.
Dinheiro sagrado, voto profano?
O futuro deste dilema dependerá da capacidade das autoridades em fiscalizar práticas e da coragem das próprias igrejas em preservar a sua independência. Enquanto isso, fiéis como Cláudia, brasileira em Almada, continuam a entregar o dízimo “de coração aberto”. Quando questionada sobre o destino do dinheiro, responde: “É para Deus. Mas se ajudar o pastor a apoiar Ventura, talvez seja vontade d’Ele.”
E a pergunta que fica é inevitável: até que ponto a fé pode ser financiadora oculta da política?
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