Resumo
- Em 10 de novembro de 1975, a Assembleia Geral da ONU aprovou a Resolução 3379, que declarava que “o sionismo é uma forma de racismo e discriminação racial”.
- De um lado, o bloco soviético e os países árabes empenhavam-se em equiparar o sionismo ao colonialismo e ao apartheid, num discurso que galvanizava o Terceiro Mundo e o Movimento dos Não-Alinhados.
- O voto não significava hostilidade absoluta a Israel, mas sim a tentativa de equilibrar interesses energéticos e comerciais com uma imagem de liderança no Sul Global.
Em 10 de novembro de 1975, a Assembleia Geral da ONU aprovou a Resolução 3379, que declarava que “o sionismo é uma forma de racismo e discriminação racial”. A decisão, sem força jurídica vinculativa, mas com enorme impacto político, dividiu o mundo em plena Guerra Fria e projetou-se como um marco simbólico na disputa pelas narrativas internacionais. O Brasil, sob a doutrina do “Pragmatismo Responsável” do presidente Ernesto Geisel, votou a favor. Dezasseis anos depois, em 1991, a resolução seria revogada pela 46/86, sob forte pressão diplomática dos Estados Unidos, num momento em que a ordem mundial se reconfigurava com o fim da bipolaridade .
A ONU como palco da Guerra Fria
Nos anos 70, a ONU era um espaço de choque ideológico. De um lado, o bloco soviético e os países árabes empenhavam-se em equiparar o sionismo ao colonialismo e ao apartheid, num discurso que galvanizava o Terceiro Mundo e o Movimento dos Não-Alinhados. Do outro, os Estados Unidos e aliados ocidentais viam a medida como uma tentativa de negar o direito do povo judeu à autodeterminação. Daniel Patrick Moynihan, embaixador norte-americano na ONU, não deixou margem para dúvidas: classificou a resolução de “mentira vergonhosa” e um ataque direto à democracia. Já Chaim Herzog, embaixador de Israel, rasgou o texto em plenário, num gesto que se tornou icónico .
O voto brasileiro e o “Pragmatismo Responsável”
O apoio do Brasil em 1975 surpreendeu muitos observadores. Mas, à luz da política externa de Geisel, tratava-se de coerência. A diplomacia brasileira buscava autonomia estratégica, diversificação de alianças e aproximação ao mundo árabe, reforçada pela crise do petróleo. O voto não significava hostilidade absoluta a Israel, mas sim a tentativa de equilibrar interesses energéticos e comerciais com uma imagem de liderança no Sul Global. Pragmatismo, não alinhamento ideológico: assim se pode resumir a opção brasileira .
Revogação em 1991: realismo e pressões
A revogação da Resolução 3379 ocorreu em 16 de dezembro de 1991, já no rescaldo da queda do Muro de Berlim. O contexto era outro: os EUA consolidavam-se como potência hegemónica, e a Conferência de Madrid sobre paz no Médio Oriente precisava de gestos simbólicos para reunir árabes e israelitas à mesa. Washington pressionou fortemente pela revogação, e a Assembleia Geral cedeu. O Brasil, acompanhando a nova correlação de forças, votou a favor da anulação .
O legado simbólico que não desapareceu
Apesar da revogação, o impacto da Resolução 3379 ecoa até hoje. Para Israel e seus aliados, foi um exemplo claro da instrumentalização da ONU contra o Estado judeu, uma ferida que alimenta desconfiança em relação à organização. Para setores do movimento palestiniano e para países árabes, simbolizou um reconhecimento histórico da luta contra o que interpretam como colonialismo. O termo “sionismo é racismo”, embora juridicamente vazio, continua a ser mobilizado em protestos, campanhas e discursos políticos. Pergunta-se: não é este o exemplo mais claro de como as palavras podem ser mais duradouras que decretos?
A disputa pela narrativa internacional
O episódio de 1975 mostra como resoluções simbólicas moldam perceções globais por décadas. A associação entre sionismo e racismo, mesmo revogada, permanece no imaginário coletivo como uma narrativa alternativa à visão dominante no Ocidente. Ao mesmo tempo, abriu caminho a debates sobre a manipulação do discurso dos direitos humanos em arenas multilaterais, questionando até que ponto a ONU é palco neutro ou reflexo de correlações de poder. Que lições ficam para o presente? Talvez a mais importante seja esta: na diplomacia, o simbólico pode ser tão influente quanto o jurídico.
Entre ontem e hoje
Meio século depois, as tensões em torno de Israel e Palestina continuam a ocupar o centro das atenções internacionais. As acusações de apartheid, os debates sobre autodeterminação e a luta pela legitimidade discursiva remontam, em parte, àquele novembro de 1975. A Resolução 3379 foi revogada, mas o fantasma do “sionismo como racismo” ainda assombra as disputas políticas e académicas. A história prova que palavras escritas num documento da ONU podem ultrapassar em muito a sua validade formal e perpetuar-se como armas simbólicas em conflitos que parecem não ter fim.
👉 O caso da Resolução 3379 revela como a diplomacia internacional é feita tanto de votos e vetos quanto de narrativas que sobrevivem às maiorias ocasionais. Talvez a ONU não seja apenas árbitro, mas também campo de batalha simbólico. Afinal, quem controla a linguagem, não controla também parte da história?