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Resumo

  • ” Estes conteúdos, muitas vezes com aparência de reportagem ou análise política, são produzidos por criadores ligados à extrema-direita e disseminados em massa no YouTube, onde acumulam milhares — por vezes milhões — de visualizações.
  • A maioria recorre a imagens descontextualizadas — muitas vezes de protestos em França, Bélgica ou Reino Unido — apresentadas como se tivessem sido gravadas em Portugal.
  • Em 2024, uma mesquita em Setúbal foi vandalizada com frases como “Portugal não é Alá” e “Fora islamistas”, dias depois de circular um vídeo no YouTube acusando o local de “doutrinação extremista” — acusação totalmente infundada.

No ecrã, o cenário é simples: um apresentador informal, voz grave, bandeira nacional ao fundo, e um vídeo editado com imagens de orações islâmicas, tumultos em cidades estrangeiras e manchetes fora de contexto. A mensagem? “Portugal está a caminho da islamização.” Estes conteúdos, muitas vezes com aparência de reportagem ou análise política, são produzidos por criadores ligados à extrema-direita e disseminados em massa no YouTube, onde acumulam milhares — por vezes milhões — de visualizações.

Mas por detrás da retórica inflamada e das palavras de ordem como “Portugal aos portugueses” ou “defesa da civilização europeia”, há um processo mais profundo e insidioso: a construção do medo como ferramenta de radicalização digital.


A nova arena política

YouTube, Telegram, TikTok e Rumble tornaram-se os principais palcos de mobilização da extrema-direita em Portugal. Se, nos anos 2000, a batalha ideológica se travava nos jornais e nos plenários parlamentares, hoje joga-se no algoritmo.

Um estudo publicado em Abril de 2025 pelo Observatório de Comunicação e Desinformação (ObCom) identificou mais de 150 canais portugueses no YouTube com conteúdo islamofóbico recorrente. Entre estes, pelo menos 30 têm ligação direta ou indireta a militantes do Chega ou a ex-membros de movimentos neonazis.


O medo como entretenimento

O formato é sedutor: vídeos curtos, música tensa, linguagem agressiva e títulos apelativos como “Eles já controlam Lisboa” ou “Este é o futuro que queres para os teus filhos?”. A maioria recorre a imagens descontextualizadas — muitas vezes de protestos em França, Bélgica ou Reino Unido — apresentadas como se tivessem sido gravadas em Portugal.

“O objectivo não é informar, é provocar emoção — sobretudo medo e raiva”, explica Clara Reis, investigadora em media digitais e radicalização online. “Funciona como entretenimento político de choque.”

Estes conteúdos alimentam-se mutuamente. Um vídeo viral gera comentários indignados, partilhas em grupos de WhatsApp e Telegram, reacts de outros youtubers — e, com isso, sobe nas sugestões do algoritmo.


A lógica do algoritmo

O YouTube, ao sugerir conteúdos com base em visualizações anteriores, cria bolhas de radicalização. Um utilizador que procura vídeos sobre “segurança em Portugal” pode rapidamente ser conduzido para canais que associam criminalidade à imigração ou à religião islâmica.

Segundo o ObCom, 25% dos vídeos com mais visualizações sobre “imigração em Portugal” nos últimos 12 meses contêm desinformação ou discurso de ódio encoberto.

O problema agrava-se com a monetização. Muitos criadores recebem donativos, publicidade e subscrições por parte de audiências fiéis, incentivando uma produção contínua de conteúdos cada vez mais extremos.


Ligações políticas e impunidade

Embora raramente assumam ligações formais, vários criadores mantêm relações próximas com figuras da extrema-direita institucional. Alguns participam em eventos partidários, moderam fóruns simpatizantes do Chega ou são convidados regulares em podcasts de “contra-informação”.

O caso de Carlos F., ex-polícia e youtuber com mais de 120 mil seguidores, é ilustrativo. Num dos seus vídeos mais populares, acusa “a elite globalista” de querer transformar Portugal num “califado progressista”. Noutro, afirma que “as mesquitas são bases de recrutamento terrorista”. Nunca apresentou fontes.

Apesar de múltiplas denúncias, o canal continua ativo. “As plataformas digitais têm sido lentas e pouco eficazes a remover conteúdos de ódio — sobretudo quando mascarados de opinião”, denuncia Ana Silva, da associação Panóptico.


Impacto no mundo real

O discurso digital tem reflexos concretos. Desde 2022, foram registados pelo menos 14 incidentes de intimidação ou violência contra muçulmanos em Portugal, vários deles com origem em vídeos ou mensagens partilhadas online.

Em 2024, uma mesquita em Setúbal foi vandalizada com frases como “Portugal não é Alá” e “Fora islamistas”, dias depois de circular um vídeo no YouTube acusando o local de “doutrinação extremista” — acusação totalmente infundada.

“Estas narrativas constroem uma percepção de invasão e ameaça constante, que legitima a violência em nome da ‘defesa da pátria’”, alerta Omar Khamis, da Plataforma Muçulmana pela Igualdade.


O que pode ser feito?

Especialistas pedem regulação mais rigorosa, responsabilização das plataformas e investimento em literacia digital. A Comissão Nacional de Eleições (CNE) já recomendou, em 2025, o reforço da vigilância sobre desinformação durante campanhas eleitorais — mas as medidas continuam tímidas.

“A liberdade de expressão não pode ser escudo para a propaganda de ódio”, defende Henrique Barros, jurista constitucional. “Estamos perante uma nova geração de discurso tóxico — e o Estado ainda não soube responder.”

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