Resumo
- A extrema-direita em Portugal está a mudar — e o país está atrasado na resposta.
- “Estamos perante um fenómeno híbrido, que cruza o radicalismo político com o crime organizado e o ciberterrorismo”, alerta uma fonte da Unidade Nacional de Contraterrorismo.
- Aplicações como Telegram, Element ou plataformas de chan culture servem de abrigo a comunidades onde se glorifica o Holocausto, se partilham manifestos como o de Anders Breivik e se fazem listas de jornalistas, ativistas e figuras públicas a abater.
Extrema-direita em Portugal renova métodos e alvos — sob o radar das autoridades
De fora, parecem adolescentes comuns. De dentro, partilham manuais de combate urbano, memes racistas e vídeos de treino com armas de fogo. São jovens, muitos com formação digital, que orbitam entre canais encriptados, fóruns conspiracionistas e comunidades onde Hitler é herói e a violência é desejada. A extrema-direita em Portugal está a mudar — e o país está atrasado na resposta.
A recente operação da Polícia Judiciária, batizada Ordo Nova, deteve cinco suspeitos de integrarem uma célula neonazi com ligações internacionais. A investigação revelou armas automáticas, literatura supremacista, listas de alvos e contactos com grupos na Alemanha e no Brasil. Entre os detidos, um programador de 21 anos de Braga, um ex-militar e dois estudantes universitários.
“Estamos perante um fenómeno híbrido, que cruza o radicalismo político com o crime organizado e o ciberterrorismo”, alerta uma fonte da Unidade Nacional de Contraterrorismo. “Não são apenas ideólogos — estão a preparar-se para agir.”
O laboratório digital do ódio
A internet é hoje o campo de recrutamento central da nova extrema-direita. Aplicações como Telegram, Element ou plataformas de chan culture servem de abrigo a comunidades onde se glorifica o Holocausto, se partilham manifestos como o de Anders Breivik e se fazem listas de jornalistas, ativistas e figuras públicas a abater.
Num canal português com mais de 3.000 membros, observámos conteúdos que incitam ao assassinato de ciganos, negros e muçulmanos. A maioria dos perfis utiliza pseudónimos. Mas, através de investigação cruzada com fontes abertas (OSINT), identificámos pelo menos 12 utilizadores ativos com residência em território nacional — três deles já investigados por crimes de ódio.
“Estas comunidades funcionam como incubadoras ideológicas e operacionais”, afirma Joana Diniz, especialista em cibercrime e professora no ISCTE. “Promovem a radicalização acelerada e criam uma cultura de martírio político que prepara os jovens para ações violentas.”
Armas e treino paramilitar
O caso de Vila Nova de Gaia, em 2023, foi um ponto de viragem. Um grupo neonazi planeava atacar uma manifestação antirracista e possuía armamento militar — espingardas automáticas, coletes balísticos e munições de guerra. A PJ impediu o ataque a horas de acontecer. Os acusados alegaram “defesa da civilização europeia”.
O problema, segundo fontes judiciais, é que muitos destes grupos operam com grande autonomia, sem hierarquia formal, o que dificulta a acusação por associação criminosa. “São células dormidas que se ativam online, através de códigos, memes e símbolos — não há atas, não há chefes, só ação descentralizada”, explica o procurador Carlos Serpa.
Vários destes indivíduos passam por campos de treino informais. Um deles, perto de Elvas, foi desmantelado em 2024. Usava uma quinta abandonada para treinos de sobrevivência e tiro ao alvo com silhuetas humanas de cor escura. Os vídeos, partilhados em fóruns privados, serviam como propaganda para recrutar novos membros.
Uma estética de guerra cultural
A nova extrema-direita portuguesa abandonou o saudosismo salazarista. Inspira-se na alt-right norte-americana, nos discursos de Viktor Orbán e nas estéticas do accelerationism — corrente que defende o colapso da democracia liberal como motor de regeneração nacionalista.
Os seus alvos não são apenas migrantes. São também feministas, ambientalistas, jornalistas, professores e qualquer voz crítica do nacionalismo branco. Nas suas palavras, a guerra é “racial, civilizacional e total”.
“O fascismo contemporâneo é jovem, irónico, digital e altamente violento”, resume Pedro Moura, investigador do Observatório Europeu da Radicalização. “Eles não querem ganhar eleições. Querem semear o caos e criar mártires.”
A resposta falha — ou chega tarde
Apesar dos alertas internacionais, Portugal continua sem um plano nacional de combate à radicalização de extrema-direita. Não há uma tipificação autónoma do terrorismo ideológico, nem uma estratégia de desradicalização com meios digitais. A maioria dos processos acaba arquivada ou convertida em crimes menores.
A Procuradoria-Geral da República reconhece, em nota enviada à nossa redação, “preocupação crescente” com fenómenos de violência ideológica online, e garante estar “a reforçar a cooperação internacional”. No entanto, ativistas antirracistas acusam as autoridades de seletividade.
“Se fossem jovens muçulmanos a treinar com armas e a partilhar manifestos, estavam na prisão. Mas como são brancos, portugueses e falam em ‘tradição’, são tratados como excêntricos”, critica José Falcão, da Frente Antifascista.
Urgência democrática
Os grupos neonazis em Portugal já não são apenas nostálgicos do Estado Novo. São redes de recrutamento, propaganda e ação. Usam memes como armas, algoritmos como trincheiras, e o silêncio da justiça como escudo.
O que está em causa não é apenas a ordem pública. É a integridade da democracia. E o tempo para agir está a esgotar-se.