Partilha

Resumo

  • A Ordem dos Psicólogos lembra que enviesamentos como “viés de confirmação” ou “efeito ancoragem” reforçam o apelo de narrativas extremistas e exigem treino específico do pensamento crítico Ordem dos Psicólogos.
  • sete em cada dez portugueses temem as fake news , mas as principais respostas públicas — WhatsApp da CNE, clubes de verificação nas escolas, encontros científicos — avançam em passo de caracol.
  • O canal WhatsApp e o novo Plano Nacional são passos necessários, porém insuficientes se ficarem isolados.

Lisboa, 4 Ago 2025 — Portugal entrou em 2025 com dois diagnósticos opostos: o Chega protagoniza 81,3 % da desinformação eleitoral e, mesmo assim, quase 30 % da população já exibe literacia digital acima do básico, superando a média da União Europeia APDC. A equação parece simples: mais competências, menos boatos. Mas bastará o arsenal pedagógico actual para conter a enxurrada de fake news?


WhatsApp da CNE: primeira linha de defesa ou linha de ilusão?

Há três meses, a Comissão Nacional de Eleições lançou um canal WhatsApp para denunciar conteúdos enganosos. Até hoje recebeu 6 412 mensagens, mas só 22 % resultaram em remoção de posts ECOComissão Nacional de Eleições. A velocidade mata: quando o veredicto chega, muitos vídeos já circulam em grupos privados. Conseguirá um chat público competir com o scroll infinito?


Plano Nacional de Literacia Mediática 2025-2029: ambição escrita, execução incerta

Em Março, o Governo aprovou o Plano Nacional de Literacia Mediática: aulas obrigatórias sobre verificação de fontes, guias para pais e formação de professores Diário da República. A meta é atingir 90 % dos alunos do 3.º ciclo até 2029. Contudo, só 312 escolas (menos de 10 %) inscreveram turmas-piloto. Directores queixam-se de falta de horas lectivas e de “manuais que chegam tarde”. Se o plano arranca devagar, o Chega acelera todos os dias no X. Quem marca o ritmo do futuro próximo?


Salas de aula versus feed algorítmico

No 8.º Encontro Nacional de Educação para os Media, realizado em Maio, professores partilharam boas práticas: exercícios de “headline autópsia”, laboratórios de deepfakes e debates simulados Direção-Geral da Educação. A motivação existe, mas o PISA 2025 vai medir, pela primeira vez, literacia mediática dos alunos portugueses; os resultados só saem em 2026 Tek Notícias. Até lá, avaliamos progresso às cegas. Ensinar a desconfiar sem medir o impacto não será ensinar no escuro?


Psicologia da desinformação: heurísticas ainda por vacinar

A Ordem dos Psicólogos lembra que enviesamentos como “viés de confirmação” ou “efeito ancoragem” reforçam o apelo de narrativas extremistas e exigem treino específico do pensamento crítico Ordem dos Psicólogos. O Plano estatal cita estes riscos, mas não define indicadores para aferir mudança comportamental. Sem métricas, as boas intenções podem virar placebo educativo. Vacina sem ensaio clínico convence alguém?


Maré europeia ajuda ou dispersa?

2025 foi declarado Ano Europeu da Educação para a Cidadania Digital; verbas de 18 M€ financiam hackathons de fact-checking, parcerias com start-ups e bolsas para projectos escolares Serviço de Gestão. Portugal concorre a 3 M€, mas técnicos avisam: fundos fracturados em micro-iniciativas perdem escala. E, sem continuidade após Dezembro, os programas podem morrer na praia. Valerá mais um megaprojecto durável do que dúzias de eventos efémeros?


Balanço provisório: conta-gotas contra mangueira incendiária

Os números não iludem: sete em cada dez portugueses temem as fake news , mas as principais respostas públicas — WhatsApp da CNE, clubes de verificação nas escolas, encontros científicos — avançam em passo de caracol. Enquanto isso, o Chega mantém a engrenagem do “efeito trompete” activa 24/7.

Conclusão — Chega a vacina?
A literacia mediática funciona como imunização: exige doses regulares, tempo para criar anticorpos cognitivos e vigilância de surtos. O canal WhatsApp e o novo Plano Nacional são passos necessários, porém insuficientes se ficarem isolados. Falta ligar salas de aula, plataformas e reguladores numa rede que reaja em minutos — não em dias. Até lá, a mentira continuará a chegar primeiro às urnas.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

You May Also Like

Sondagens divididas: o que portugueses dizem da reforma laboral

Partilha
Pitagórica e Intercampus mediram a opinião sobre o pacote Trabalho XXI em três momentos. Os números não são intermutáveis. Aprender a lê-los é o pré-requisito para qualquer debate honesto.