A ONU e a Nakba: 75 Anos de Promessas Não Cumpridas - Sociedade Civil
Partilha

Resumo

  • A Resolução 194, aprovada em Dezembro desse ano, afirmava que aqueles “desejosos de regressar e viver em paz com os seus vizinhos” deveriam ser autorizados a fazê‑lo o mais rapidamente possível.
  • Enquanto a comunidade internacional não exigir a aplicação do direito de retorno e o fim da ocupação, a Nakba continuará presente.
  • A ONU desempenhou um papel crucial na criação do problema e tem a responsabilidade de contribuir para a sua solução.

Desde 1948, a Organização das Nações Unidas tem reconhecido o direito dos refugiados palestinianos a regressarem às suas casas. A Resolução 194, aprovada em Dezembro desse ano, afirmava que aqueles “desejosos de regressar e viver em paz com os seus vizinhos” deveriam ser autorizados a fazê‑lo o mais rapidamente possível. Setenta e cinco anos passaram e esse direito nunca foi implementado.

A ONU criou a UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina) para fornecer apoio humanitário. Milhões de palestinianos dependem dela para educação, saúde e ajuda alimentar. Contudo, a UNRWA não tem mandato político: serve de paliativo, não de solução. O seu financiamento é ciclicamente ameaçado por decisões unilaterais, como o corte de fundos por parte dos EUA em 2018.

Ao longo das décadas, a Assembleia Geral e o Conselho de Segurança adoptaram dezenas de resoluções sobre a Palestina. A Resolução 242 pediu a retirada de Israel dos territórios ocupados em 1967; a Resolução 446 declarou ilegais os colonatos; outras reafirmaram o direito à autodeterminação. Todavia, quase todas foram bloqueadas ou ignoradas por vetos repetidos dos Estados Unidos e de aliados europeus. A ONU ficou refém da geopolítica.

Em 2023, pela primeira vez, a ONU comemorou oficialmente o Dia da Nakba. O gesto simbólico provocou protestos de Israel e dos EUA, mas trouxe algum reconhecimento institucional às vítimas da catástrofe. Ainda assim, as palavras não se traduzem em acção: não existe um mecanismo para implementar o direito de retorno, nem para garantir compensações pelos bens perdidos.

O direito internacional é claro: refugiados têm direito a regressar a casa. A Declaração Universal dos Direitos Humanos e as Convenções de Genebra confirmam‑no. Mas a Palestina permanece uma excepção dolorosa. Enquanto a comunidade internacional não exigir a aplicação do direito de retorno e o fim da ocupação, a Nakba continuará presente.

A ONU desempenhou um papel crucial na criação do problema e tem a responsabilidade de contribuir para a sua solução. Falar da Nakba não basta. É urgente transformar resoluções em realidade e promessas em justiça.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

You May Also Like

Os Sobreviventes Esquecidos: Quem São as Vítimas da PIDE em Moçambique?

Partilha
O corpo tremia, mesmo meio século depois. À porta da sua casa nos arredores de Maputo, Adelino Tivane, hoje com 84 anos, segura uma fotografia amarrotada de juventude. “Foi antes de me levarem. Só porque me viram numa reunião da cooperativa”, murmura. Durante três meses em 1973, esteve preso sem julgamento numa cela da PIDE em Nampula. Saiu com ossos partidos, dois dentes a menos e o silêncio como única herança. Nunca teve indemnização, pedido de desculpa ou reconhecimento.

Perfil de Coragem: A Vida e Morte de Anas al-Sharif, Jornalista da Al Jazeera

Partilha
Partilha Resumo A sua morte, confirmada em Maio de 2024, não foi…

“Direitos Humanos vs. Soberania: Quem Ganha Esta Guerra Jurídica?”

Partilha
Durante décadas, o direito internacional foi apresentado como a grande conquista moral do pós-guerra. A criação da ONU, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, os tribunais de Nuremberga, o Estatuto de Roma: tudo parecia apontar para um mundo onde a justiça não se curvava à força. Mas os últimos meses — e o caso de Francesca Albanese — lançam uma sombra inquietante sobre esse ideal.

Justiça lenta Portugal: quando o atraso é, por si só, um risco democrático

Partilha
Partilha Resumo As estatísticas mais recentes do Ministério da Justiça confirmam que,…