Resumo
- Em várias ocasiões, as autoridades israelitas rejeitaram a existência de fome em Gaza, apesar dos sucessivos bloqueios à entrada de ajuda humanitária e dos alertas de instituições como a ONU, a Amnistia Internacional, os Médicos Sem Fronteiras e a Human Rights Watch.
- O Tribunal Internacional de Justiça alertou, em parecer recente, para o risco de crimes contra a humanidade e de práticas com contornos genocidas na ofensiva militar israelita em Gaza, que já causou mais de 59 mil mortos e forçou o deslocamento de 1,9 milhões de pessoas.
- “Negar a existência de fome num território sitiado, onde a entrada de água, alimentos e medicamentos é sistematicamente bloqueada, é um acto de violência política disfarçado de retórica diplomática”, afirma uma fonte do Conselho Português para a Paz e Cooperação, que prefere manter o anonimato.
Lisboa, 30 jul 2025 – As declarações do embaixador de Israel em Portugal, Oren Rozenblat, proferidas numa entrevista televisiva no início de junho, continuam a provocar forte indignação. “Não há fome em Gaza. As pessoas até são gordas”, afirmou, com tom leve e sorriso protocolar. A frase, amplamente difundida nas redes sociais e noticiários, tem sido descrita por analistas e organizações de direitos humanos como um exemplo flagrante de desinformação institucional.
Num momento em que múltiplos relatórios das Nações Unidas e de organizações não-governamentais apontam para uma situação de emergência alimentar sem precedentes no território palestiniano, a negação da realidade por parte de representantes diplomáticos israelitas é vista como uma tentativa deliberada de reescrever os factos.
Negação reiterada perante dados alarmantes
A afirmação de Rozenblat não é um caso isolado. Declarações semelhantes têm sido repetidas por membros do governo israelita, incluindo o próprio primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Em várias ocasiões, as autoridades israelitas rejeitaram a existência de fome em Gaza, apesar dos sucessivos bloqueios à entrada de ajuda humanitária e dos alertas de instituições como a ONU, a Amnistia Internacional, os Médicos Sem Fronteiras e a Human Rights Watch.
O último relatório do Integrated Food Security Phase Classification (IPC), ferramenta independente usada por agências internacionais, classifica a situação em Gaza como “catástrofe alimentar iminente”, com sinais claros de colapso nutricional. Segundo a ONU, mais de 100 pessoas — sobretudo crianças — morreram nas últimas semanas devido a subnutrição ou ao serem alvejadas enquanto tentavam aceder a bens essenciais.
Diplomacia ao serviço da negação
Jurista de formação e ex-militar, Oren Rozenblat está longe de ser um porta-voz ingénuo. Conhece as implicações políticas e legais das palavras que profere. Como representante oficial do Estado de Israel, as suas declarações são interpretadas como expressão da política externa de um governo acusado de utilizar a fome como arma de guerra.
Vários juristas e especialistas em direito internacional consideram que a obstrução deliberada da ajuda humanitária pode configurar um crime de guerra. O Tribunal Internacional de Justiça alertou, em parecer recente, para o risco de crimes contra a humanidade e de práticas com contornos genocidas na ofensiva militar israelita em Gaza, que já causou mais de 59 mil mortos e forçou o deslocamento de 1,9 milhões de pessoas.
A desinformação como estratégia política
A estratégia de comunicação israelita tem procurado, segundo diversos observadores, desacreditar as organizações humanitárias no terreno, associando-as ao Hamas e deslegitimando os seus alertas. Este tipo de narrativa, sustentam vários académicos, é usado para manipular a opinião pública internacional, distorcer a perceção dos factos e evitar a responsabilização diplomática e criminal.
“Negar a existência de fome num território sitiado, onde a entrada de água, alimentos e medicamentos é sistematicamente bloqueada, é um acto de violência política disfarçado de retórica diplomática”, afirma uma fonte do Conselho Português para a Paz e Cooperação, que prefere manter o anonimato.
Reações políticas e exigência de explicações
O silêncio do Governo português perante estas declarações tem sido alvo de críticas. Vários deputados da Assembleia da República já exigiram explicações formais ao Ministério dos Negócios Estrangeiros. “Portugal tem a obrigação de defender os princípios do direito internacional e dos direitos humanos. Não pode normalizar este tipo de linguagem”, afirmou a deputada Mariana Tavares, do Bloco de Esquerda.
Em comunicado, a secção portuguesa da Amnistia Internacional instou as autoridades portuguesas a “condenarem publicamente qualquer forma de desinformação diplomática que contribua para encobrir violações graves do direito humanitário”.
O papel do jornalismo na reposição da verdade
Especialistas em comunicação alertam para o impacto corrosivo da desinformação diplomática num ecossistema mediático já fragilizado. “Quando a mentira se veste de fato e gravata, torna-se mais difícil de desmontar. Cabe ao jornalismo exercer o seu papel crítico, confrontar o poder com os factos e proteger a integridade da informação pública”, defende o jornalista e investigador em ética mediática, Luís Moura.
Entretanto, em Gaza, a realidade continua a desmentir as palavras do embaixador. Os relatos que chegam do terreno falam de crianças que desmaiam nas escolas por falta de comida, de famílias que sobrevivem com farinha e água, de hospitais a operar sem anestesia, e de uma população exausta, cercada e esquecida.