Resumo
- Esta é a história das estufas agrícolas do sul de Gaza — o projecto milionário que prometia soberania alimentar aos palestinianos e que acabou soterrado por bloqueios, destruição e desconfiança.
- KHAN YOUNIS, Faixa de Gaza — Ao lado de uma estrada bombardeada, entre escombros e oliveiras mutiladas, ainda é possível ver o esqueleto do que foi uma estufa.
- Com a vitória do Hamas nas eleições de 2006 e o subsequente cerco israelita, as estufas tornaram-se alvos fáceis.
Foram apresentadas como símbolo de esperança, progresso e paz. Hoje, são carcaças de plástico rasgado e estruturas metálicas ao abandono, cobertas de poeira e salitre. Esta é a história das estufas agrícolas do sul de Gaza — o projecto milionário que prometia soberania alimentar aos palestinianos e que acabou soterrado por bloqueios, destruição e desconfiança.
KHAN YOUNIS, Faixa de Gaza — Ao lado de uma estrada bombardeada, entre escombros e oliveiras mutiladas, ainda é possível ver o esqueleto do que foi uma estufa. Um arco metálico torto, restos de tubagens, sacos de fertilizante esvaziados pela chuva. Foi aqui, entre 2005 e 2006, que a comunidade internacional investiu milhões numa das apostas mais ambiciosas do pós-Acordo de Oslo: transformar Gaza num celeiro do Médio Oriente.
“Disseram-nos que iríamos alimentar toda a Palestina — talvez até exportar para a Europa. Hoje mal conseguimos plantar salsa”, lamenta Abu Khaled, agricultor de 62 anos que participou no projecto original.
As estufas não ruíram sozinhas. Foram destruídas por um conjunto de forças — militares, políticas, económicas — que tornaram o sonho agrícola numa metáfora cruel: mesmo quando se planta em Gaza, o que nasce raramente é alimento. É frustração.
A promessa do pós-desconexão
Em 2005, com a retirada unilateral israelita da Faixa de Gaza, deixou-se para trás um conjunto de cerca de 3.000 estufas de alta tecnologia, que pertenciam a colonos israelitas e produziam flores e morangos para exportação. Com apoio dos EUA, Banco Mundial, UE e doadores privados, foi criado um fundo de 14 milhões de dólares para transferir essas estufas para agricultores palestinianos.
“Era para ser um símbolo de reconciliação económica. Uma forma de mostrar que a paz podia trazer prosperidade tangível”, explica James Wolfensohn, ex-presidente do Banco Mundial, que coordenou parte da operação na altura.
O plano era formar agricultores locais, criar uma cadeia de distribuição autónoma, gerar emprego e reduzir a dependência alimentar externa. A gestão ficou a cargo da Autoridade Palestiniana, com supervisão internacional.
O que correu mal? Tudo. E mais.
Logo nos primeiros meses, parte das estufas foi vandalizada por saqueadores. Faltavam sistemas de segurança, planos logísticos e compensações sociais. O Hamas criticou o projecto por ser um “presente envenenado”, sem soberania política real. Pouco depois, vieram os bloqueios.
Com a vitória do Hamas nas eleições de 2006 e o subsequente cerco israelita, as estufas tornaram-se alvos fáceis. Sem liberdade de movimento, os produtos não chegavam aos mercados. Os fertilizantes eram barrados na fronteira por “dupla utilização potencial”. A água escasseava. A electricidade falhava.
“Tínhamos tomates a apodrecer dentro da estufa porque não podíamos sair para vendê-los. E nem gasolina para os geradores”, recorda Widad al-Masri, agricultora de Beit Lahiya.
Nos anos seguintes, sucessivas ofensivas militares destruíram grande parte da infraestrutura. Em 2014, durante a Operação Margem Protetora, dezenas de hectares de estufas foram esmagadas por tanques israelitas ou atingidas por mísseis.
Hoje, restam apenas cerca de 10% das estufas originais em funcionamento — e mesmo essas produzem em condições precárias.
Uma lição ignorada
O fracasso das estufas não foi apenas técnico ou logístico. Foi político. Foi o resultado de se tentar importar soluções “pronto-a-vestir” para um território cuja principal fragilidade é a ausência de soberania.
“Não se pode criar segurança alimentar sob ocupação. O tomate pode crescer numa estufa, mas não sobrevive a um drone”, resume Sara Roy, investigadora em Harvard e especialista na economia de Gaza.
Mesmo os poucos agricultores que persistem enfrentam taxas, fiscalização e interdições constantes. Exportar é quase impossível. Importar sementes, uma aventura. Pedir compensações, um exercício inútil.
Quem lucrou? Quem perdeu?
O projecto das estufas movimentou milhões — para consultoras, fornecedores internacionais, ONG ocidentais. Mas para os agricultores, o resultado foi dívida, frustração e desilusão.
Segundo documentos obtidos junto da USAID, mais de 40% do orçamento foi gasto em “capacitação e consultoria técnica”. Apenas uma pequena parte chegou diretamente às mãos dos agricultores.
“Vieram engenheiros de gravata ensinar-nos a plantar. Foram-se embora com powerpoints. Nós ficámos com estufas vazias e fome”, acusa Abu Khaled, apontando para a terra seca.
Recomeçar, mas com memória
Hoje, sob o colapso actual de Gaza, há vozes que pedem um novo investimento agrícola. Mas os erros do passado impõem prudência.
“Qualquer tentativa futura tem de ser feita com base na realidade do bloqueio, com controlo local, e sem ilusões de que basta investir para produzir”, defende Mohammad Abu Jayab, economista palestiniano.
Para muitos, as estufas tornaram-se ruínas simbólicas de uma paz prometida e nunca cumprida. Uma lição enterrada entre o plástico derretido e o silêncio dos campos.