Resumo
- Mulher, jovem, licenciada em Ciência Política e com ascendência goesa, Rita Matias é a figura que o Chega escolheu para liderar a sua frente juvenil e dar um rosto moderno à retórica endurecida da extrema-direita em Portugal.
- Se o Chega de André Ventura se afirma contra “os privilégios da esquerda” e “o politicamente correto”, Rita Matias é a encarnação de uma nova fase do projeto – uma em que o extremismo veste roupa de domingo e se lança ao eleitorado jovem nas redes sociais com filtros e slogans fáceis de partilhar.
- o apelo ao medo do “outro”, a hostilidade à diferença, o populismo anti-imigração e a glorificação implícita de ideias próximas do autoritarismo.
Lisboa, 21 jul 2025 – Tem 26 anos, rosto sereno, discurso fluente e um perfil que muitos diriam improvável. Mulher, jovem, licenciada em Ciência Política e com ascendência goesa, Rita Matias é a figura que o Chega escolheu para liderar a sua frente juvenil e dar um rosto moderno à retórica endurecida da extrema-direita em Portugal. A sua ascensão meteórica não é apenas reflexo de ambição pessoal, mas parte de uma estratégia calculada: tornar palatável um discurso ideológico que, a cada passo, ameaça as fundações democráticas do país.
Se o Chega de André Ventura se afirma contra “os privilégios da esquerda” e “o politicamente correto”, Rita Matias é a encarnação de uma nova fase do projeto – uma em que o extremismo veste roupa de domingo e se lança ao eleitorado jovem nas redes sociais com filtros e slogans fáceis de partilhar.
Mas por detrás do verniz moderno, subsiste a mesma substância: o apelo ao medo do “outro”, a hostilidade à diferença, o populismo anti-imigração e a glorificação implícita de ideias próximas do autoritarismo.
Da crítica ao culto
Em 2019, antes da sua filiação no Chega, Matias classificava o partido como “populista” e “um possível fracasso”. O juízo mudou depressa. Em poucos meses tornou-se mandatária da juventude para as legislativas, e rapidamente deputada, vice-presidente do grupo parlamentar, coordenadora da Juventude Chega e figura de destaque nos canais digitais do partido.
A transição foi acompanhada por um alinhamento ideológico intransigente: opõe-se ao aborto até em casos de violação, rejeita a “ideologia woke”, denuncia uma suposta “substituição populacional” por imigrantes, e defende abertamente a chamada “remigração”, eufemismo para deportações em massa.
O seu percurso político espelha uma tendência europeia: a absorção de jovens conservadores descontentes pelas fileiras da nova extrema-direita, agora redesenhada para parecer menos grotesca – mas não menos perigosa.
Uma juventude radicalizada
A Juventude Chega, que Matias lidera, tem sido apontada por organizações internacionais como um espaço de incubação de extremismo. O relatório da Global Project Against Hate and Extremism (GPAHE) classifica o Chega como grupo de ódio, identificando entre os quadros juvenis elementos com simpatias salazaristas, nacionalismo étnico e até supremacia branca.
Enquanto Matias grava vídeos no TikTok, jovens dirigentes locais promovem referências ao fascismo. E embora nada indique que partilhe desses extremos, a deputada nunca os repudia claramente. Pelo contrário: contribui para o processo de normalização que permite ao Chega apresentar-se como “conservador patriótico”, mesmo enquanto acolhe militantes radicais.
Este duplo jogo – de uma imagem fresca e mainstream por fora, e uma base ideológica extremada por dentro – é o mecanismo mais eficaz da extrema-direita contemporânea.
Discurso de ódio com verniz técnico
A análise do discurso de Rita Matias revela um padrão: frases cuidadosamente estudadas para criar impacto, inflamar emoções e manter ambiguidade suficiente para escapar à responsabilidade legal. Em 2022, afirmou que “racismo e xenofobia é não-assunto”, anulando assim a realidade de milhares de cidadãos discriminados em Portugal.
Mais grave foi a partilha, nas redes sociais, de uma suposta lista de nomes de crianças imigrantes numa escola, apresentada como prova da “substituição populacional”. A veracidade da lista nunca foi confirmada – e o próprio partido admitiu a inexistência de verificação. As consequências para a privacidade das crianças e o incitamento ao ódio foram ignoradas.
Em entrevista recente, Matias afirmou não ter dúvidas de que a “remigração” – conceito central da extrema-direita europeia – terá de ser debatida em Portugal. Esta proposta, que implica o regresso forçado de estrangeiros, colide com direitos fundamentais consagrados na Constituição e nas convenções internacionais assinadas pelo país.
Também a islamofobia emerge como tema recorrente nos seus discursos e imagens de campanha, onde opõe simbolicamente o seu rosto a mulheres muçulmanas com burca, insinuando uma ameaça civilizacional.
Alinhamento internacional
Rita Matias não esconde as suas referências políticas. Admira Giorgia Meloni (Itália), Rocío Monasterio (Espanha) e Javier Milei (Argentina). Com todos partilha frases, ideias e – segundo múltiplos fact-checks – partes inteiras de discursos.
As acusações de plágio tornaram-se recorrentes. Em 2024, foi apanhada a replicar frases de Milei como “somos superiores moralmente, politicamente, esteticamente”. A própria expressão “remigração” é importada do vocabulário de partidos como o Rassemblement National de Le Pen ou o AfD alemão.
Este mimetismo revela não só a falta de originalidade ideológica do Chega, mas sobretudo o seu enraizamento numa rede transnacional da nova extrema-direita. Trata-se de uma internacional reaccionária, que partilha estratégias, narrativas e financiamentos.
A falsa diversidade como escudo
A origem étnica de Rita Matias – neta de uma mulher goesa – tem sido usada pelo Chega como álibi contra acusações de racismo. A estratégia é antiga: colocar figuras “não-brancas” em lugares de destaque para negar o conteúdo xenófobo da mensagem. Mas a presença de minorias dentro de partidos racistas não nega o racismo das suas políticas.
A definição de “português” veiculada por Matias e pelo partido baseia-se numa ideia estreita de pertença nacional, onde a cor da pele pode ser ignorada desde que haja adesão total ao nacionalismo excludente, à rejeição da diferença e ao culto da autoridade.
A urgência do contraditório
O crescimento de figuras como Rita Matias num clima de impunidade discursiva exige uma resposta à altura. Não se trata de censurar ideias conservadoras, mas de confrontar, com dados e princípios democráticos, a erosão deliberada dos direitos humanos e das liberdades fundamentais.
Rita Matias é, em muitos aspectos, a ponta visível de um iceberg ideológico que se dissemina pela Europa com rosto jovem e palavras polidas. Mas por trás da pose e da retórica, está a velha intolerância: autoritária, misógina, nacionalista, e profundamente perigosa.
A democracia não morre de um golpe – morre aos poucos, quando deixamos que discursos de ódio se tornem lugares-comuns.