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Resumo

  • A fome, impiedosa e silenciosa, é hoje a maior assassina de menores no território palestiniano.
  • Segundo a Organização Mundial de Saúde, uma em cada três crianças internadas em clínicas de emergência está em risco de falência orgânica causada por inanição.
  • A ONU, a FAO, a UNICEF e dezenas de ONGs têm reiterado que a crise de fome em Gaza é fabricada – não resulta de desastres naturais, mas de uma política de cerco.

A guerra na Faixa de Gaza transformou a infância num campo de batalha invisível. A fome, impiedosa e silenciosa, é hoje a maior assassina de menores no território palestiniano.


Os olhos de Nour, com apenas três anos, já perderam o brilho da infância. O seu corpo frágil pesa menos de sete quilos. O que seria um diagnóstico de subnutrição moderada em qualquer outra parte do mundo, em Gaza representa uma sentença de morte. Nour não come há dois dias. A mãe mistura água suja com bolacha esmigalhada, na esperança de acalmar a filha por mais algumas horas. Mas o olhar da criança diz tudo: já não há mais energia para chorar.

Nour é uma entre milhares. De acordo com os últimos dados do Integrated Food Security Phase Classification (IPC), mais de 135 mil crianças com menos de cinco anos enfrentam subnutrição aguda grave na Faixa de Gaza. A maioria vive em zonas sem acesso regular a alimentos, água potável ou assistência médica. A ONU declarou que “mortes por fome entre crianças tornaram-se recorrentes e previsíveis”. Mas, apesar dos alertas, a ajuda continua bloqueada ou a entrar a conta-gotas.

A infância como alvo silencioso

A guerra tem sempre vítimas inocentes, mas em Gaza, as crianças parecem ser as primeiras a cair. Segundo a Organização Mundial de Saúde, uma em cada três crianças internadas em clínicas de emergência está em risco de falência orgânica causada por inanição. Os efeitos são devastadores: atrofia muscular, atraso cognitivo, défice imunológico e, em muitos casos, morte. A fome, aqui, não é um episódio. É uma condição crónica, perpetuada por meses de cerco e destruição sistemática das infraestruturas civis.

“É a maior emergência nutricional infantil do século XXI”, afirma Maria Borges, pediatra da missão da OMS em Rafah. “Vemos bebés que já não choram, que não reagem ao toque, com a pele colada aos ossos. E a maioria morre em casa, sem sequer chegar a um hospital.” Segundo Borges, muitas mães recorrem a remédios vencidos ou restos de papas infantis partilhados por várias famílias. “É um cenário de desespero absoluto.”

Os rostos da catástrofe

Amina, de seis meses, morreu numa tenda improvisada em Deir al-Balah. Pesava 4,2 quilos. A equipa dos Médicos Sem Fronteiras chegou tarde demais. “A mãe não conseguia amamentar. Estava ela própria em estado de subnutrição”, relata um dos médicos. “Tentámos soro, mas o corpo já não respondia.” O caso foi reportado à UNICEF como morte por causas evitáveis, mas a lista cresce todos os dias.

Numa escola da UNRWA transformada em abrigo, os voluntários distribuem papas feitas com farinha de arroz e água fervida. Não há leite, nem proteínas, nem frutas. Apenas o mínimo para adiar o inevitável. “Os meninos perderam o interesse por brincar. Dormem o dia todo. Quando acordam, perguntam pelo pão”, diz Layla, professora voluntária. “E nós mentimos. Dizemos que amanhã haverá pão. Mas nunca há.”

Impacto invisível, danos irreparáveis

O sofrimento infantil em Gaza não se mede apenas em corpos magros ou olhos apagados. Médicos e psicólogos alertam para os efeitos neurológicos e emocionais de longo prazo. “A fome afecta o desenvolvimento do cérebro. Estas crianças vão crescer com défices irreversíveis”, explica o neuropediatra Fadi Mahdi, da Universidade de Birzeit. “Mesmo as que sobreviverem estarão marcadas por uma infância de terror, carência e abandono.”

Estudos recentes mostram que a privação alimentar prolongada em crianças com menos de cinco anos reduz o volume cerebral em até 15%. Isso traduz-se em dificuldades de aprendizagem, comportamento apático e maior propensão a doenças mentais na idade adulta. O trauma é colectivo, mas o dano é íntimo, silencioso, e durará gerações.

Responsabilidade internacional ou negligência cúmplice?

A ONU, a FAO, a UNICEF e dezenas de ONGs têm reiterado que a crise de fome em Gaza é fabricada – não resulta de desastres naturais, mas de uma política de cerco. A distribuição de ajuda é sistematicamente bloqueada por Israel, que mantém o controlo dos pontos de entrada. “Estamos a assistir à morte de crianças em direto e em massa. E o mundo permanece paralisado”, denuncia o relatório da Amnistia Internacional.

Israel nega estar a usar a fome como arma de guerra, argumentando que os ataques visam o Hamas e que a ajuda é bloqueada apenas por motivos de segurança. Mas os números contradizem a narrativa: mais de 300 crianças terão morrido de causas relacionadas com fome ou desidratação desde março de 2024. A maioria nunca foi tratada num centro de saúde.

E agora?

Enquanto decorrem debates diplomáticos, resoluções travadas por vetos e cimeiras com promessas vazias, Nour continua a definhar. A mãe, que prefere não ser identificada, já não acredita em milagres. “Só quero que ela adormeça sem dor.” À porta da tenda, o céu escurece. Mais uma noite sem luz, sem pão, sem futuro.


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