Resumo
- O Corão exorta os crentes a protegerem os migrantes, e o Profeta Maomé é descrito como alguém que acolheu sem distinção.
- O Chega, partido nacionalista e populista, tem criticado abertamente o multiculturalismo, associando-o a insegurança, “inversão de valores” e perda de identidade nacional.
- “Se for o amor ao próximo, a solidariedade, a justiça, então há uma contradição evidente entre o discurso do Chega e a mensagem cristã”, observa a teóloga Laurinda Cabral.
Religiões que pregam o acolhimento confrontam-se com políticas de exclusão.
No centro da tradição religiosa, há um princípio que atravessa culturas e séculos: o acolhimento do outro. Do Antigo Testamento ao Corão, dos Evangelhos às encíclicas modernas, a hospitalidade não é uma opção moral — é um mandamento.
Mas esse mandamento está sob ataque. O avanço da extrema-direita em Portugal, com o partido Chega na linha da frente, tem feito do combate ao multiculturalismo uma das suas bandeiras. A religião, paradoxalmente, é frequentemente invocada para justificar esse fechamento.
Como se a fé exigisse fronteiras mais do que pontes. Como se Deus tivesse passaporte e nacionalidade.
Uma fé que acolhe
“Fui estrangeiro e acolhestes-me.” A frase, retirada do Evangelho de Mateus, é uma das mais conhecidas do Novo Testamento. Não se trata de retórica poética. É critério de salvação na parábola do Juízo Final. A tradição cristã é clara: o acolhimento do estrangeiro, do diferente, do vulnerável é expressão concreta do amor a Deus.
Também o Islão valoriza profundamente o cuidado com o forasteiro. A hospitalidade é uma virtude sagrada. O Corão exorta os crentes a protegerem os migrantes, e o Profeta Maomé é descrito como alguém que acolheu sem distinção.
No Judaísmo, as passagens sobre a obrigação de tratar bem o estrangeiro são recorrentes: “Não oprimirás o estrangeiro, pois foste estrangeiro na terra do Egipto” (Êxodo 22:21).
E no entanto, num país onde estas três religiões estão presentes — ainda que em proporções diferentes —, vemos crescer um discurso político que faz da diferença uma ameaça, e da exclusão uma proposta eleitoral.
A recusa do multiculturalismo
O Chega, partido nacionalista e populista, tem criticado abertamente o multiculturalismo, associando-o a insegurança, “inversão de valores” e perda de identidade nacional. Em comícios e programas, a imigração é apresentada como problema; o Islão, como perigo; e as culturas “alógenas”, como corpos estranhos ao tecido português.
“Portugal é um país cristão e deve defender os seus valores”, afirmou André Ventura em várias ocasiões. Mas que valores são esses?
“Se for o amor ao próximo, a solidariedade, a justiça, então há uma contradição evidente entre o discurso do Chega e a mensagem cristã”, observa a teóloga Laurinda Cabral. “Se for apenas a cruz como símbolo identitário e arma de retórica, então é uma perversão.”
As comunidades que resistem
Em bairros de Lisboa, Porto e Faro, onde vivem muçulmanos, hindus, ciganos e africanos cristãos, ouve-se um misto de desconfiança e fé. Para muitos, a religião é também escudo contra o ódio.
Numa pequena mesquita na Amadora, o imã Bashir A., natural de Marrocos, responde com serenidade: “Estamos aqui em paz. Trabalhamos, rezamos, ensinamos os nossos filhos a respeitar. O Islão não é inimigo de ninguém. Somos portugueses também.”
No bairro lisboeta do Intendente, a sinagoga liberal Beit Israel acolhe judeus progressistas — alguns portugueses, outros vindos de França ou do Brasil — e tem promovido encontros inter-religiosos com cristãos e muçulmanos.
“O problema não está nas religiões”, afirma o rabino Dan Goldstein. “Está na manipulação da identidade religiosa para justificar medo e intolerância. A fé autêntica não teme a diversidade. Reconhece nela o rosto de Deus.”
Imigrantes com fé e direitos
Nas comunidades imigrantes, a religião é muitas vezes o principal espaço de pertença, apoio e dignidade. Igrejas evangélicas africanas, mesquitas de bairro, templos hindus e sinagogas informais funcionam como âncoras sociais, onde se trocam palavras, alimentos, cuidados.
“É na fé que encontramos consolo, quando o Estado nos ignora”, diz Samira, técnica de saúde guineense e mãe solteira. “Mas também é a nossa força para continuar a lutar por respeito.”
Estas comunidades são frequentemente alvo de suspeita, estigmatização e racismo estrutural. O discurso político da nova direita apenas agrava esse isolamento. Pior: faz dos alvos da discriminação os culpados de não se integrarem.
A resposta das confissões religiosas
Frente à retórica anti-multiculturalista, as instituições religiosas em Portugal têm tido respostas desiguais. A Conferência Episcopal Portuguesa emitiu algumas notas genéricas sobre acolhimento, mas evita confrontos políticos directos.
Já algumas paróquias urbanas e movimentos católicos têm sido activos no apoio a migrantes. O Serviço Jesuíta aos Refugiados é um exemplo. Também a Aliança Evangélica e algumas comunidades islâmicas têm promovido acções interconfessionais.
“Temos de dizer claramente: o pluralismo não é uma ameaça à fé — é uma oportunidade para a viver com mais profundidade e autenticidade”, defende o padre Jorge Cordeiro, envolvido em iniciativas de diálogo inter-religioso.
Um país plural ou fechado?
Portugal é hoje um país plural. Tem muçulmanos e católicos, hindus e evangélicos, ateus e budistas. Esta diversidade não é um acidente — é resultado de séculos de história, diásporas, acolhimentos e encontros. Negá-la é negar Portugal.
“A verdadeira questão”, conclui a investigadora em estudos culturais Filipa Nunes, “não é se o multiculturalismo funciona ou não. É se estamos dispostos a viver com complexidade e empatia. Ou se preferimos uma fantasia de pureza que nunca existiu.”
Num tempo em que o discurso político se estreita, talvez sejam as religiões — quando fiéis à sua vocação mais profunda — a lembrar-nos que a humanidade se reconhece precisamente no outro.