Resumo
- Lisboa, 19 de Julho de 2025 – A religião tem sido, desde os primórdios da civilização, um espaço de encontro com o mistério, com o outro e consigo mesmo.
- A história mostra que quando a fé se curva ao trono, o incenso do altar começa a cheirar a repressão.
- Mas este Deus feito à imagem do partido nada tem a ver com o Deus da misericórdia, da justiça e da paz.
Religião e extrema-direita: o confronto inevitável entre o acolhimento e a exclusão.
Lisboa, 19 de Julho de 2025 – A religião tem sido, desde os primórdios da civilização, um espaço de encontro com o mistério, com o outro e consigo mesmo. Nas suas expressões mais profundas, convida ao cuidado, à escuta, à hospitalidade. Mas nos últimos anos, algo mudou. A fé entrou na arena política não como consciência crítica, mas como arma simbólica. Cruzou-se com o nacionalismo, foi instrumentalizada pelo populismo e, em alguns casos, distorcida até se tornar irreconhecível.
O fenómeno não é novo, mas ganha novo fôlego em Portugal, à boleia da ascensão do partido Chega. Esta força política, que se afirma herdeira da “tradição cristã” e defensora da “ordem moral”, usa com frequência símbolos religiosos como marca de identidade. Mas a sua proposta ideológica — baseada na exclusão, na xenofobia e no autoritarismo — colide frontalmente com os valores fundamentais das grandes religiões monoteístas.
Este dossiê — Fé em Rutura — reuniu cinco artigos que mergulham nesta tensão.
Deus, Pátria e Exclusão?
Começámos pela raiz: são compatíveis os valores do Cristianismo, do Judaísmo e do Islão com o programa da extrema-direita? A resposta é clara, segundo líderes religiosos e teólogos: não. As doutrinas espirituais centram-se na dignidade universal da pessoa humana. O acolhimento do estrangeiro, o cuidado com os pobres, a justiça social — tudo isto é parte essencial da fé. A política que promove o medo e a exclusão viola este núcleo ético.
A tentação do altar
Depois, analisámos a sedução simbólica que a extrema-direita exerce sobre alguns sectores religiosos. O Chega, à semelhança do que se passa com Trump nos EUA ou Bolsonaro no Brasil, fala de “valores cristãos” para ganhar votos — mesmo quando ignora ou contradiz a prática evangélica. Muitos crentes, desiludidos com os partidos tradicionais ou atraídos pela promessa de ordem, caem nessa armadilha.
É a tentação do altar: aceitar que Deus seja usado como ferramenta política, em troca de visibilidade e influência. Mas a fé, reduzida a retórica, perde a sua força profética.
As lições da História
Nenhuma análise estaria completa sem um olhar para trás. No artigo Sermões Nacionalistas, recuperámos exemplos de colaborações perigosas entre religião e regimes autoritários: do Salazarismo à Alemanha nazi, passando pelo franquismo e o fascismo italiano. A história mostra que quando a fé se curva ao trono, o incenso do altar começa a cheirar a repressão.
As igrejas, mesquitas e sinagogas têm de escolher: resistir ou alinhar-se. Quando se calam, tornam-se cúmplices.
A domesticação de Deus
No quarto artigo, analisámos o fenómeno da “domesticação de Deus”: transformar o sagrado em produto político. Deus é apresentado como guardião da identidade nacional, como juiz severo da diferença, como escudo contra o progresso social. Mas este Deus feito à imagem do partido nada tem a ver com o Deus da misericórdia, da justiça e da paz.
O Papa Francisco tem sido a voz mais firme contra esta perversão. Ao dizer que “não se pode ser cristão e xenófobo”, expõe o absurdo moral da aliança entre fé e exclusão.
Diversidade sob ataque
Por fim, olhámos para a vida concreta dos crentes das comunidades imigrantes e minoritárias em Portugal. No artigo Multiculturalismo em Xeque, ouvimos imãs, pastoras, rabinos e fiéis que vivem entre a fé e o medo. Para eles, a religião não é bandeira política. É abrigo, pertença, resiliência. E a retórica anti-multiculturalista não é abstracção: é o rosto do preconceito nas escolas, nos serviços públicos, nas esquadras e no mercado de trabalho.
A escolha ética
O confronto é inevitável: entre uma fé viva, aberta, comprometida com o bem comum — e um populismo identitário que instrumentaliza Deus para dividir, excluir e dominar. A religião não pode ser neutra perante a injustiça. Nem cúmplice de projectos que negam o essencial da sua mensagem.
As comunidades religiosas têm hoje uma missão urgente: resistir à tentação do poder, recuperar a linguagem do acolhimento e recusar a manipulação. Os fiéis — sejam eles católicos, muçulmanos, evangélicos ou judeus — precisam de discernimento. De coragem. De memória histórica. E sobretudo de coerência.
Deus não é português. Nem propriedade de nenhum partido. A fé, se for autêntica, será sempre maior do que qualquer fronteira. E incompatível com qualquer forma de opressão.