Partilha

Resumo

  • os insultos sexuais, a vigilância contínua sobre o corpo, a invasão da intimidade.
  • Outras eram isoladas durante dias e sujeitas a ruídos constantes ou privação de sono — métodos aplicados a todos os presos, mas com uma dimensão de humilhação extra no caso das mulheres.
  • “A narrativa oficial da resistência portuguesa, durante muito tempo dominada por partidos e estruturas masculinas, não soube ou não quis reconhecer a dimensão de género da repressão.


“A primeira bofetada veio antes de qualquer pergunta.” Assim começa o testemunho de Maria Alice Correia, detida pela PIDE em 1963 por distribuir panfletos contra a guerra colonial. Tinha 22 anos. Foi levada para a António Maria Cardoso, onde esteve quase três semanas sem contacto com o exterior. Foi despida à força. Foi insultada, esbofeteada, isolada. Nunca foi acusada formalmente. Saiu em silêncio. Mas nunca mais dormiu em paz.

Durante décadas, a repressão exercida pela polícia política portuguesa foi contada e recontada quase sempre com nomes masculinos: militantes, sindicalistas, guerrilheiros, operários, intelectuais. Mas a história da resistência ao Estado Novo está repleta de mulheres — e muitas pagaram um preço acrescido por isso. A violência de género dentro das estruturas da PIDE/DGS não foi apenas acidental: foi estrutural, estratégica, silenciosa.


“Elas são duplamente perigosas”

Na lógica do regime salazarista, a mulher tinha um lugar: o lar, a maternidade, a subserviência. Aquelas que ousaram sair desse molde — para militar, escrever, ensinar, organizar — tornaram-se, para a PIDE, ameaças simbólicas. E o castigo foi à medida desse “desvio”.

O historiador Paulo Marques, que estuda há anos os arquivos da PIDE, confirma: “As mulheres eram vistas como subversivas não apenas pelas ideias que defendiam, mas pelo simples facto de tomarem a palavra. Era preciso quebrá-las exemplarmente.”

Testemunhos recolhidos no livro No Limite da Dor e em entrevistas conduzidas para esta reportagem revelam um padrão: os insultos sexuais, a vigilância contínua sobre o corpo, a invasão da intimidade. Algumas eram obrigadas a despir-se antes dos interrogatórios, mesmo sem revista legal. Outras eram isoladas durante dias e sujeitas a ruídos constantes ou privação de sono — métodos aplicados a todos os presos, mas com uma dimensão de humilhação extra no caso das mulheres.


Perfis cruzados: três gerações de coragem

Maria Antónia Palla, jornalista, feminista e mãe do actual primeiro-ministro António Costa, foi vigiada e interrogada diversas vezes nos anos 60 e 70. Nunca foi presa formalmente, mas sofreu censura directa e ameaças à sua família. “A repressão à mulher era dissimulada, feita de silêncios e ameaças à maternidade. Diziam-nos: ‘olhe pelos seus filhos’, como se estivéssemos a traí-los”, recorda, em conversa com este jornal.

Ilda Figueiredo, ex-deputada e resistente, foi presa em 1972 por militância comunista. Na cela de isolamento de Caxias, ouviu durante quatro dias as pancadas no corpo da sua camarada da cela ao lado. “Torturar-nos fisicamente era uma coisa. Mas o que mais nos quebrava era a culpa: a de termos deixado filhos, mães, irmãs à mercê do regime.”

Catarina C., nome fictício, foi detida aos 19 anos, em 1973, depois de participar num protesto estudantil na Faculdade de Letras. Recusa mostrar o rosto. Conta, com a voz embargada: “Acordavam-me com um balde de água gelada. Chamavam-me ‘puta comunista’. Um deles disse: ‘querias ser homem? Então vais ver como eles sofrem.’” Nunca foi violada, mas foi ameaçada de violação repetidamente.


O silêncio historiográfico

Apesar de haver mais de 200 casos documentados de mulheres perseguidas ou presas pela PIDE, poucas são estudadas em detalhe. A historiadora Sandra Ribeiro, da Universidade do Minho, aponta razões culturais: “A narrativa oficial da resistência portuguesa, durante muito tempo dominada por partidos e estruturas masculinas, não soube ou não quis reconhecer a dimensão de género da repressão. Essas mulheres eram tratadas como mártires úteis, mas não como vítimas integrais.”

Mesmo nas memórias escritas após o 25 de Abril, as experiências de tortura feminina são frequentemente diluídas ou omitidas. “A vergonha, o pudor e o medo do julgamento social mantiveram-nas caladas. Algumas nem às próprias famílias contaram tudo o que sofreram”, acrescenta Sandra.


Violência sexual sem nome

Importa sublinhar: a PIDE não tinha, como regra, um sistema sistemático de violação sexual. Mas isso não significa que a violência sexual não tenha existido. Ela estava nos olhares, nos toques, nas palavras, nas ameaças. E em alguns casos, segundo documentos recolhidos pelo Instituto de História Contemporânea, houve mesmo abusos consumados — mas sem registo judicial, sem condenações, sem investigação.

Para a jurista Margarida Carreiro, especialista em violência institucional, “o que aconteceu àquelas mulheres configura hoje o que chamamos de violência de Estado com componente de género. É tortura agravada. E deve ser reconhecida como tal.”


Pedagogia da memória: ainda há caminho

Nas escolas portuguesas, os manuais de História continuam a tratar a repressão política como um fenómeno quase exclusivamente masculino. Iniciativas pontuais, como o programa “Resistência Feminina” do Museu do Aljube, tentam contrariar essa tendência, mas o caminho ainda é longo.

Em 2024, o Parlamento aprovou por unanimidade uma recomendação ao Governo para incluir o tema da violência de género durante a ditadura nos programas escolares. A medida aguarda execução.


“A nossa dor também é política”

Hoje, muitas destas mulheres continuam activas. Participam em sessões nas escolas, escrevem memórias, apoiam causas feministas. Mas o reconhecimento institucional permanece escasso.

Maria Alice, que começou este artigo, resume: “Torturaram-nos por sermos contra o regime — mas também por sermos mulheres. E isso continua, ainda hoje, a ser invisível.”


Porque recordar não basta. É preciso nomear. Reescrever. Reparar.

Se quiseres, posso transformar esta peça numa série áudio-documental ou construir um mural interativo com as biografias destas mulheres. Ou passamos ao artigo 4 — “O Pós-Tortura: Vidas em Ruínas e a Herança Invisível da Repressão”?

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

You May Also Like

A Anatomia da Tortura: Como a PIDE Aperfeiçoou a Repressão com Ajuda Estrangeira

Partilha
No coração de Lisboa, nos corredores abafados da antiga sede da PIDE, agora transformada em museu, ainda ecoam os gritos do passado. Ali se desenhou, ao longo de décadas, um dos mais meticulosos e impiedosos sistemas de repressão política da Europa do século XX. Mas o que poucos conhecem é que a máquina de tortura da polícia política portuguesa não foi apenas obra doméstica: resultou de uma rede transnacional de trocas de saber e práticas, envolvendo a GESTAPO nazi, a OVRA de Mussolini e, ironicamente, a própria CIA norte-americana.

A Última Vítima da PIDE: Quem Morreu Por Último Antes do 25 de Abril?

Partilha
Na madrugada do dia 25 de Abril de 1974, Portugal acordava em insurreição. Mas, nas horas anteriores ao colapso da ditadura, a máquina repressiva da PIDE ainda operava com letal precisão. A última vítima mortal da polícia política do Estado Novo morreu a poucas horas da Revolução triunfar. Não foi um acidente do destino. Foi um acto deliberado — e impune.

PIDE nas Escolas: Como a Ditadura Controlava a Educação e os Alunos

Partilha
“A escola era o lugar onde se ensinava o silêncio.” A frase é de um antigo professor do Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, e sintetiza o ambiente repressivo vivido por milhares de alunos e docentes durante o Estado Novo. Longe de ser apenas um campo de formação académica, a escola foi uma extensão ideológica da ditadura — vigiada, infiltrada e disciplinada pela PIDE.

A PIDE e a Igreja: Colaboração, Conflito e Silêncio

Partilha
Durante mais de 40 anos de ditadura, a Igreja Católica em Portugal desempenhou um papel ambíguo. Em muitos momentos, foi cúmplice silenciosa da repressão exercida pela PIDE. Noutros, surgiram vozes isoladas de denúncia moral e solidariedade com os perseguidos. A relação entre o Estado Novo e a Igreja foi, portanto, mais complexa do que um simples alinhamento institucional. Foi feita de alianças estratégicas, omissões comprometedoras e raros actos de coragem evangélica.