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Resumo

  • A extrema-direita europeia tem vindo a disputar, e frequentemente a conquistar, o vocabulário da democracia, redesenhando os contornos do espaço público e confundindo os eleitores sobre o que está verdadeiramente em jogo.
  • “Eles falam em defender o povo, mas querem excluir quem não se encaixa na sua definição estreita de nação”, explica Ana Rita Silva, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-ULisboa).
  • Os direitos das minorias tornam-se “privilégios”, a liberdade de expressão converte-se em escudo para o discurso de ódio, e a soberania nacional serve para justificar o desmantelamento de normas democráticas supranacionais, como as da União Europeia.

Aparência democrática esconde projectos autoritários — especialistas alertam para manipulação da linguagem pelos novos populismos de direita.


Liberdade, povo, soberania. Palavras que durante décadas evocaram lutas democráticas, direitos civis e emancipação colectiva. Hoje, estão cada vez mais ao serviço de agendas autoritárias. A extrema-direita europeia tem vindo a disputar, e frequentemente a conquistar, o vocabulário da democracia, redesenhando os contornos do espaço público e confundindo os eleitores sobre o que está verdadeiramente em jogo.

O fenómeno, descrito por académicos como uma “apropriação simbólica estratégica”, permite a partidos e movimentos radicais legitimarem propostas regressivas com retórica de inclusão. “Eles falam em defender o povo, mas querem excluir quem não se encaixa na sua definição estreita de nação”, explica Ana Rita Silva, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-ULisboa).

A retórica populista de extrema-direita opera por inversões subtis. Os direitos das minorias tornam-se “privilégios”, a liberdade de expressão converte-se em escudo para o discurso de ódio, e a soberania nacional serve para justificar o desmantelamento de normas democráticas supranacionais, como as da União Europeia.


O travestismo da linguagem

O relatório “Humanismo Resiliente na Europa”, publicado em Bruxelas em Maio de 2025, sublinha a gravidade do desvio semântico em curso. “A extrema-direita adoptou os signos da democracia, mas esvaziou-os do seu conteúdo humanista”, lê-se no documento, elaborado por uma coligação de centros de investigação europeus.

Exemplos não faltam. Em França, o Rassemblement National invoca a “liberté” para restringir direitos civis em nome da segurança. Na Hungria, Viktor Orbán autodefine o seu regime como “democracia iliberal” — uma contradição em termos que, ainda assim, tem conquistado imitadores.

No discurso político da AfD (Alternativa para a Alemanha), “defender os alemães” significa negar cidadania a filhos de imigrantes nascidos no país. Na Itália de Giorgia Meloni, “proteger a família” traduz-se em ataques legislativos a famílias homoparentais. Em todos os casos, os slogans são familiares — mas os valores por detrás mudaram radicalmente.


O risco da normalização

Para Nuno Rodrigues, professor de comunicação política na Universidade do Minho, a chave do sucesso da extrema-direita reside na sua capacidade de parecer “respeitável”. “Já não falamos de discursos marginais e grosseiros; a nova extrema-direita fala com gravata, sorri para as câmaras e cita os grandes pensadores liberais — ao mesmo tempo que mina as instituições democráticas por dentro”, afirma.

A sedução opera tanto ao nível emocional como racional. Estudos recentes mostram que a repetição de conceitos como “patriotismo”, “protecção das fronteiras” ou “liberdade económica” — emoldurados por medos de perda cultural ou declínio civilizacional — é altamente eficaz. “Não é preciso dizer ‘somos contra a democracia’. Basta apresentar a democracia como algo que já não serve”, nota Rodrigues.


Como resistir?

Face a esta infiltração semântica, o que pode fazer a sociedade democrática? Para a socióloga Marta Tavares, do Fórum Cívico Europeu, é essencial “reconquistar o léxico democrático”. “Temos de voltar a dizer com clareza que liberdade não é liberdade de oprimir, que povo não é código para exclusão étnica, que soberania não é insularidade xenófoba.”

Uma das linhas de defesa é a literacia política: ensinar a ler o discurso para além do seu verniz. Outra, sublinha Tavares, é a firmeza institucional. “As instituições não podem ceder ao medo de parecer ‘parciais’ quando o que está em causa é a sua própria sobrevivência.”

A disputa pela linguagem é, cada vez mais, uma disputa pelo futuro da Europa. E neste novo campo de batalha simbólico, quem cala consente.


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