Resumo
- Afeta o desenvolvimento físico e cognitivo das crianças, a saúde dos adultos, a capacidade de concentração no trabalho e na escola, e fragiliza ainda mais quem já está em situação de vulnerabilidade.
- A criação de cheques-alimentação para famílias em risco, o reforço das cantinas sociais, o apoio à agricultura local e à produção sustentável, e o controlo de preços abusivos são apenas algumas das medidas possíveis.
- E quando uma sociedade começa a normalizar o facto de que há quem não possa comprar carne, o problema deixou de ser só económico — passou a ser ético.
Por Redacção
Num país europeu, em pleno século XXI, dizer que comer carne ou peixe pelo menos de dois em dois dias é um privilégio deveria soar a absurdo. Mas não é. Em Portugal, 6,6% da população não consegue garantir esse consumo mínimo de proteína — um indicador alarmante de privação alimentar revelado no Portugal, Balanço Social 2024. A mesa, que devia ser lugar de partilha e nutrição, tornou-se para muitos um espaço de ausência e restrição.
A privação alimentar é uma das formas mais severas de pobreza, e o seu impacto ultrapassa largamente o estômago vazio. Afeta o desenvolvimento físico e cognitivo das crianças, a saúde dos adultos, a capacidade de concentração no trabalho e na escola, e fragiliza ainda mais quem já está em situação de vulnerabilidade.
A carne na ementa? Só quando dá
Para milhares de famílias, o consumo de carne ou peixe é gerido com calculadora e sacrifício. Troca-se por arroz, massa, ovos ou, nos piores meses, por pão com manteiga. Uma alimentação saudável — variada, equilibrada, rica em nutrientes — está fora do alcance de uma parte significativa da população portuguesa.
O relatório mostra que esta limitação alimentar é transversal, mas atinge sobretudo os agregados com menores rendimentos, famílias numerosas e monoparentais, idosos com pensões reduzidas e desempregados de longa duração. Mais chocante ainda é o impacto sobre as crianças: muitas delas dependem das refeições escolares para garantir o seu único prato completo do dia.
Supermercado ou farmácia? Eis a questão
A inflação nos preços dos alimentos essenciais agravou ainda mais o cenário. Em 2024, os preços da carne, do peixe, da fruta fresca e dos laticínios continuavam em alta. Para quem vive com o salário mínimo ou com apoios sociais, fazer escolhas alimentares saudáveis passou a ser um luxo. Muitas vezes, é preciso optar entre comprar comida ou medicamentos, fraldas ou leite, carne ou eletricidade.
“Compro carne quando está em promoção. Senão, vai-se inventando: sopa, arroz com qualquer coisa. Os miúdos perguntam por bifes, mas já sabem que nem sempre dá.” — conta Rosa, mãe de três, residente em Santo Tirso.
A fome invisível
A fome em Portugal não se vê nas ruas — mas sente-se em muitas casas. Não é a fome extrema que grita, mas uma fome discreta, intermitente, que se esconde nas prateleiras vazias e nos frigoríficos quase silenciosos. E que deixa marcas profundas no corpo e no espírito.
Os bancos alimentares têm sido um dos últimos redutos de apoio para milhares de pessoas. No entanto, a sua ação, por mais louvável que seja, não pode substituir o dever do Estado em garantir o direito básico à alimentação digna.
O que é comer bem, afinal?
Comer bem não é gourmet. É ter acesso diário a proteína, vegetais, hidratos de carbono, fruta fresca e água potável. É não ter de saltar refeições. É saber que o jantar de hoje não depende da caridade nem da sorte. É poder dizer “não” aos ultraprocessados porque se pode dizer “sim” aos alimentos frescos.
E Portugal, embora com uma tradição culinária rica e saudável, está a deixar para trás uma fatia crescente da sua população nesse campo.
O combate à privação alimentar começa no orçamento
É urgente integrar a segurança alimentar nas políticas sociais e económicas. A criação de cheques-alimentação para famílias em risco, o reforço das cantinas sociais, o apoio à agricultura local e à produção sustentável, e o controlo de preços abusivos são apenas algumas das medidas possíveis.
A alimentação é mais do que uma necessidade: é um direito humano. E quando uma sociedade começa a normalizar o facto de que há quem não possa comprar carne, o problema deixou de ser só económico — passou a ser ético.
Porque, num país desenvolvido, ninguém devia ir dormir com fome. E muito menos uma criança.