Resumo
- E com a crise habitacional e o aumento do custo de vida, até os “remediados” passaram a sentir-se em risco.
- Promover políticas de proximidade, onde o cidadão veja e sinta a presença do Estado — não apenas em crises, mas todos os dias.
- responder com empatia, com acção e com a coragem de voltar a proteger os que hoje se sentem descartados.
O crescimento do Chega em Portugal não é um mistério ideológico nem um acaso estatístico. É uma resposta — distorcida, mas eficaz — ao sentimento de abandono que alastra entre sectores da população. Desemprego, salários baixos, precariedade crónica, dificuldade em aceder à habitação, frustração com os serviços públicos: tudo isto gera um terreno fértil para o ressentimento. E onde o Estado falha na protecção, o autoritarismo oferece culpados.
A falência do contrato democrático
Desde o 25 de Abril, a democracia portuguesa construiu-se sobre uma promessa: a de que todos, independentemente da origem, teriam direito à dignidade, à protecção social e à mobilidade económica. Mas essa promessa, para muitos, ficou pelo caminho.
A crise de 2008, a austeridade que se lhe seguiu e a pandemia escancararam desigualdades. As periferias urbanas e o interior do país viram os serviços desaparecer, as escolas fechar, os jovens partir. E com a crise habitacional e o aumento do custo de vida, até os “remediados” passaram a sentir-se em risco. Neste contexto, a democracia parece impotente — ou surda.
É aqui que entra o Chega, com uma oferta brutal e simples: devolver “ordem”, cortar nos apoios “aos outros”, castigar quem não trabalha “como deve ser”. Promete resgatar a dignidade não com políticas públicas, mas com exclusão dirigida.
Ressentimento como ferramenta — e não causa
O ressentimento não nasce do ódio, mas da dor. E a dor prolongada, quando ignorada, transforma-se em raiva. O Chega lê bem esse mal-estar e canaliza-o com precisão: culpa os ciganos, os imigrantes, os “subsidiodependentes”, as elites. Oferece bodes expiatórios a quem nunca recebeu respostas.
Mas esse ressentimento é o sintoma — não a causa. A causa está na erosão da confiança nas instituições. Quando um cidadão espera anos por uma cirurgia, vê o filho desistir da escola, ou se resigna à vida a recibos verdes, não é difícil fazê-lo acreditar que “a culpa é de quem recebe sem merecer”.
A alternativa não é moralista — é política
Condenar o voto no Chega como “ignorância” ou “radicalismo” é inútil. É preciso oferecer alternativas sólidas, palpáveis, que devolvam às pessoas a sensação de que a democracia também trabalha por elas.
Isso passa por:
- Recuperar o Estado Social com investimento real e equitativo na saúde, educação, habitação e transportes — sobretudo nas zonas negligenciadas.
- Revalorizar o trabalho com contratos dignos, salários que permitam viver e políticas activas de emprego.
- Combater a desigualdade territorial, criando incentivos reais para a coesão entre o litoral e o interior.
- Promover políticas de proximidade, onde o cidadão veja e sinta a presença do Estado — não apenas em crises, mas todos os dias.
Democracia não se defende com slogans — defende-se com justiça
O Chega cresce porque responde a angústias reais com soluções falsas. A democracia pode e deve fazer melhor: responder com empatia, com acção e com a coragem de voltar a proteger os que hoje se sentem descartados.
Porque, no fundo, a questão não é só por que cresce o Chega. A pergunta mais urgente é: por que motivo tantos cidadãos deixaram de acreditar que a democracia também é para eles?
A resposta está nas escolhas políticas — e ainda vamos a tempo de as mudar.