Resumo
- Entre os bancos das igrejas, nos corredores das paróquias e até no seio da hierarquia episcopal, desenha-se uma guerra não declarada — entre a fidelidade ao Evangelho e a tentação do populismo.
- como pode um partido que defende deportações em massa, criminalização de minorias e discursos de exclusão conquistar apoio entre os fiéis de uma religião cujo mandamento maior é o amor ao próximo.
- Outros, sobretudo ligados a sectores mais conservadores, alinham discretamente com a narrativa do Chega — partilhando conteúdos nas redes sociais, minimizando os seus desvios éticos, ou justificando posições xenófobas com argumentos de “defesa da civilização”.
Padres divididos, fiéis confusos e o incómodo que o Chega semeia nos altares
Sob a superfície serena da Igreja Católica em Portugal, cresce uma tensão cada vez mais difícil de disfarçar: o crescimento político do Chega tem gerado divisões internas, inquietações doutrinais e um incómodo moral profundo. Entre os bancos das igrejas, nos corredores das paróquias e até no seio da hierarquia episcopal, desenha-se uma guerra não declarada — entre a fidelidade ao Evangelho e a tentação do populismo.
Um silêncio cada vez mais ensurdecedor
Nas últimas legislativas, o Chega consolidou-se como terceira força política no Parlamento. Não faltaram eleitores católicos entre os que lhe deram o voto. E, nas semanas seguintes, a perplexidade espalhou-se entre comunidades religiosas: como pode um partido que defende deportações em massa, criminalização de minorias e discursos de exclusão conquistar apoio entre os fiéis de uma religião cujo mandamento maior é o amor ao próximo?
A Conferência Episcopal Portuguesa manteve-se, uma vez mais, cautelosa. Algumas declarações vagas sobre “discursos incompatíveis com a dignidade humana” foram feitas, mas sem nunca referir o Chega. O resultado? Um vácuo moral que tem permitido interpretações contraditórias e o reforço de uma polarização interna.
“Há padres que falam contra o populismo nas homilias, mas também há quem peça aplausos para o Ventura”, denuncia um leigo activo na pastoral juvenil de Braga. “E os jovens ficam perdidos.”
A fé transformada em identidade política
O fenómeno não é exclusivamente português. Mas ganha contornos específicos num país de tradição católica, onde o recuo da prática religiosa formal contrasta com uma persistente identificação cultural com o cristianismo. O Chega soube capitalizar esse espaço: apresenta-se como defensor dos “valores cristãos”, ao mesmo tempo que defende políticas de exclusão e repressão — numa contradição que, surpreendentemente, muitos fiéis parecem não reconhecer.
“É o perigo de uma fé sem formação”, alerta um sacerdote de Lisboa. “Se os católicos não conhecem a Doutrina Social da Igreja, acabam por confundir slogans políticos com princípios cristãos.”
Vozes do púlpito: entre o incómodo e a denúncia
Em várias dioceses, começam a surgir vozes mais claras. O bispo de Setúbal, D. José Ornelas, já afirmou publicamente que “não há lugar para o cristianismo onde se promove o ódio ao outro”. E, numa homilia recente, o padre Anselmo Borges criticou o “nacionalismo desumano que se veste de fé para esconder a intolerância”.
Mas estas intervenções ainda são minoritárias. Muitos sacerdotes optam pelo silêncio ou pela neutralidade prudente. Outros, sobretudo ligados a sectores mais conservadores, alinham discretamente com a narrativa do Chega — partilhando conteúdos nas redes sociais, minimizando os seus desvios éticos, ou justificando posições xenófobas com argumentos de “defesa da civilização”.
É uma guerra subtil, mas profunda. Porque não se trata apenas de uma divergência política: trata-se de interpretar o que significa ser cristão no espaço público.
Fiéis divididos e comunidades em risco
Nas comunidades paroquiais, esta divisão é palpável. “Já deixei de ir à missa na minha paróquia. O padre elogia o Chega e ridiculariza os imigrantes”, conta Maria, reformada de Viseu. Do outro lado, há quem se sinta incomodado com padres que “trazem política para o altar”, mesmo quando o fazem para denunciar a injustiça.
O problema agrava-se porque, em nome da unidade, muitas lideranças evitam o confronto. Mas a omissão, neste caso, também é uma escolha. E quando a doutrina é posta em causa por um discurso político contrário ao Evangelho, o silêncio pode ser interpretado como aceitação.
Doutrina contra o populismo
A Doutrina Social da Igreja é clara nos seus fundamentos: primado da dignidade humana, acolhimento ao migrante, justiça social, rejeição do ódio e da violência. Em Fratelli Tutti, Francisco escreve: “O nacionalismo fechado, exasperado e agressivo não tem futuro. Não é cristão amar apenas os da sua terra.”
É impossível conciliar esta visão com a retórica do Chega, que propõe um país murado, uniforme e punitivo. O contraste deveria ser evidente. Mas quando a catequese se limita à devoção, e a liturgia ignora o contexto social, torna-se mais fácil instrumentalizar a fé.
E agora, Igreja?
A Igreja portuguesa encontra-se perante uma escolha decisiva: continuar a evitar o confronto, em nome de uma neutralidade pastoral que se torna cada vez mais insustentável — ou assumir, com coragem, que o Evangelho tem implicações políticas, mesmo que isso gere desconforto.
Porque se a fé não for capaz de resistir ao populismo — e se os púlpitos não forem espaços de verdade —, então a comunidade eclesial corre o risco de se tornar irrelevante ou cúmplice.
Talvez seja tempo de os pastores recordarem que o rebanho não precisa apenas de consolo, mas também de orientação. E que, num mundo ferido pelo ódio, a fidelidade a Cristo exige mais do que silêncio cúmplice: exige coragem profética.