Católicos por Seguro”: quando a fé não cabe no CHEGA - Sociedade Civil
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Resumo

  • Quando alguém larga a frase “ou és cristão católico, ou és do CHEGA” numa mesa de café, numa reunião de grupo de jovens ou à porta da missa, o ar muda.
  • Mas também é factual que, em vários pontos, a linguagem e a estratégia do partido chocam com a lógica evangélica.
  • Igreja e Papa como alvo tático – Declarações agressivas em relação ao Papa Francisco e a responsáveis eclesiais, seguidas de momentos de deferência calculada, soam a muitos fiéis como uso instrumental do sagrado.

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Quando alguém larga a frase “ou és cristão católico, ou és do CHEGA” numa mesa de café, numa reunião de grupo de jovens ou à porta da missa, o ar muda. Uns riem, outros encolhem-se, alguém desvia o tema. A provocação, contudo, instala-se. Porque mexe em duas pertenças fortes: a fé e a política. E sugere, com violência, que podem ser incompatíveis.

Este texto não é um panfleto anti-CHEGA, nem uma homilia encapotada. É um convite a um exame de consciência: o que quer dizer, hoje, ser cristão católico num ambiente em que partidos reivindicam “valores cristãos” e líderes eclesiais, em Portugal, têm criticado publicamente certas linguagens e propostas? A pergunta não se resolve com um “sim” ou “não” instantâneo – exige critério.


1. A bússola cristã vem antes do boletim de voto

Antes de qualquer escolha partidária, está o Batismo. A identidade “cristão católico” nasce do Evangelho, não de um programa eleitoral. E o Evangelho repete, com obstinação: dignidade de cada pessoa, amor concreto ao próximo (pobre, estrangeiro, desprezado), verdade, justiça, misericórdia, recusa do ódio e da violência.

A Doutrina Social da Igreja organiza isto numa bússola: bem comum, solidariedade, subsidiariedade, destino universal dos bens, opção preferencial pelos pobres, acolhimento com prudência, construção da paz. Estes princípios não são apêndice: são o “critério de leitura” da política. Depois, sim, podem caber várias escolhas legítimas. O que não cabe é pedir ao Evangelho que se curve diante de qualquer bandeira.


2. O que a Igreja em Portugal tem vindo a dizer

Nos últimos anos, bispos, organismos eclesiais e o Patriarca de Lisboa falaram repetidamente sobre racismo, discriminação, migrações, linguagem de ódio. Fizeram-no em homilias, entrevistas, notas pastorais. Defenderam o acolhimento de migrantes, denunciaram discursos que tratam comunidades inteiras como ameaça, pediram cuidado com rótulos.

Ao mesmo tempo, a Conferência Episcopal evitou apontar partidos. Fala de princípios, não de siglas; de critérios, não de listas. Não é neutralidade vazia: é a ideia de que a Igreja forma consciências, não dirige máquinas partidárias. Nesse espaço de liberdade responsável é que a frase “cristão católico ou do CHEGA?” entra como tentativa de fechar um dilema que, na verdade, é mais complexo.


3. Onde a tensão com o CHEGA se torna visível

É honesto reconhecer que há católicos que se aproximam do CHEGA por motivos que consideram sérios: cansaço da corrupção, sensação de insegurança, revolta com desigualdades e privilégios. Ignorar isto seria injusto.

Mas também é factual que, em vários pontos, a linguagem e a estratégia do partido chocam com a lógica evangélica:

  • Migrantes e minorias – Cartazes e declarações sobre comunidades ciganas ou pessoas migrantes não são abstratos: batem em pessoas que vivem em bairros onde muitas paróquias trabalham. Quem conhece essas realidades percebe o impacto que campanhas de “problema” têm na vida concreta.
  • Igreja e Papa como alvo tático – Declarações agressivas em relação ao Papa Francisco e a responsáveis eclesiais, seguidas de momentos de deferência calculada, soam a muitos fiéis como uso instrumental do sagrado: a Igreja serve enquanto alavanca identitária, mas é descartada quando incomoda.
  • Limites legais, exigência evangélica – Decisões judiciais que mandam retirar material considerado potencialmente incitador ao ódio mostram que nem tudo é “liberdade de expressão”. Para o cristão, a fasquia é ainda mais alta: não basta não ser crime; é preciso ser caridade.
  • Clima de “nós contra eles” – A construção contínua de um “povo verdadeiro” contra “inimigos” internos ou externos corrói a amizade social. O Papa Francisco insiste na fraternidade; o populismo vive de antagonismo constante. Aqui a tensão não é teórica, é estrutural.

4. Verdade primeiro, conveniência depois

Uma das respostas mais comuns é: “Mas há problemas reais, não podemos ser ingénuos.” É verdade. Há criminalidade, abusos do sistema social, zonas do país esquecidas. A indignação não é pecado.

O problema começa quando, para reforçar essa indignação, se torcem dados, se exageram casos isolados, se alimenta medo. Relatórios oficiais e análises independentes mostram que a relação imigração–crime é bem mais complexa do que muitos discursos sugerem. Houve mesmo momentos em que a qualidade das estatísticas foi posta em causa, precisamente para evitar conclusões politicamente convenientes mas frágeis.

Para quem leva a sério o “não levantar falso testemunho”, isto pesa. O cristão não pode contentar-se com narrativas que “sabem bem” se assentam em meias-verdades. A fidelidade à verdade é, também, uma forma de caridade política.


5. Convergências possíveis, linhas que não se cruzam

Um cristão pode defender maior eficácia na justiça, combate duro à corrupção, rigor na gestão do Estado social, políticas de segurança que protejam vítimas. Tudo isso cabe na Doutrina Social da Igreja. E pode encontrar, em vários partidos, propostas que vão nesse sentido.

Mas a pergunta decisiva é sempre o “como”:
– Como se trata o adversário?
– Que palavras se usam para falar de quem é diferente?
– Quem é sistematicamente escolhido como bode expiatório?

Quando a resposta passa pela humilhação pública, pela estigmatização de minorias, pela produção de medo e ressentimento, uma linha evangélica é ultrapassada. A partir daí, deixamos de falar de divergência política legítima para entrar num terreno que fere a dignidade humana.


6. Três perguntas para a consciência cristã

Em vez de aceitar o ultimato “cristão católico ou do CHEGA?”, pode ser mais fiel ao Evangelho fazer a si próprio três perguntas, diante de qualquer proposta ou discurso:

  1. Dignidade – Isto trata alguém como menos pessoa? Quem é apagado ou ridicularizado por esta narrativa?
  2. Verdade – O que estou a repetir ou aplaudir está apoiado em factos sólidos ou vive de boatos, cortes de vídeos, frases fora de contexto?
  3. Caridade política – O efeito provável destas palavras é pacificar, corrigir com justiça, ou acender ainda mais ressentimento?

O cristão não é chamado a ser neutro; é chamado a ser coerente.


7. Então, como responder à provocação?

Talvez a resposta mais honesta à frase “ou és cristão católico, ou és do CHEGA” seja esta: a fé cristã não se deixa capturar por nenhum partido. Porém, é preciso reconhecer que há tensões sérias e repetidas entre o núcleo do Evangelho – dignidade, acolhimento, fraternidade – e o modo como o CHEGA tem feito política.

Um católico pode continuar a procurar soluções para a corrupção, para a insegurança, para as injustiças gritantes. Pode e deve participar na vida pública. Mas não pode sacrificar o estrangeiro, o pobre, o “diferente” no altar da sua revolta.

Primeiro Cristo, depois a bandeira. Sempre que a bandeira pedir o sacrifício do outro, a consciência cristã – se quer permanecer cristã – tem uma palavra simples e teimosa a dizer: não.

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