Quando a Fé É Usada Como Arma Política - Sociedade Civil
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Resumo

  • onde a primeira se exprime como busca de justiça e cuidado pelo outro, a segunda serve para erigir barreiras, legitimar a desigualdade e mascarar o autoritarismo com vestes espirituais.
  • Enquanto a Igreja Católica prega o amor ao próximo, o perdão e a defesa dos marginalizados, o Chega ergue discursos centrados na punição, na intolerância e na exclusão.
  • É uma tendência que ecoa o que se passou no Brasil com o bolsonarismo, onde pastores evangélicos e sectores do catolicismo tradicionalista alinharam com um projecto político que contraria frontalmente a mensagem de Jesus.

Extrema-direita, religião e a manipulação do sagrado


No palco volátil da política contemporânea, a fé tem sido muitas vezes retirada do seu espaço íntimo, espiritual e ético, para ser instrumentalizada como ferramenta de combate ideológico. Em Portugal, tal fenómeno ganha expressão particular com o Chega — partido da extrema-direita que, embora se afirme laico, recorre com frequência à simbologia cristã para consolidar apoio e justificar medidas de exclusão. Mas o que está verdadeiramente em jogo quando a religião é usada como arma política?


Cruz na lapela, Bíblia nas mãos — mas e o Evangelho?

Durante comícios, entrevistas ou nas redes sociais, é comum ver representantes do Chega empunharem cruzes, citarem versículos bíblicos ou proclamarem a defesa da “civilização cristã”. Esta apropriação de símbolos religiosos insere-se numa estratégia comunicacional reconhecida internacionalmente como populismo religioso: a fusão entre nacionalismo e referências cristãs, com o objectivo de reforçar um “nós” cultural contra um “eles” externo — geralmente migrantes, muçulmanos, ciganos ou qualquer outro grupo minoritário.

“Não é novidade. Assistimos ao mesmo padrão na Hungria de Orbán, na Polónia do PiS e nos Estados Unidos sob Trump”, explica a socióloga Marta Ferreira, do ISCTE. “É uma operação política, não uma manifestação de fé.”

A diferença entre o uso legítimo da fé na esfera pública e a sua manipulação reside na intenção: onde a primeira se exprime como busca de justiça e cuidado pelo outro, a segunda serve para erigir barreiras, legitimar a desigualdade e mascarar o autoritarismo com vestes espirituais.


Um Cristo sem misericórdia?

A contradição é gritante. Enquanto a Igreja Católica prega o amor ao próximo, o perdão e a defesa dos marginalizados, o Chega ergue discursos centrados na punição, na intolerância e na exclusão. A ideologia do partido — expressa em propostas como a prisão perpétua, a castração química, ou a deportação de imigrantes indocumentados — contradiz directamente os valores evangélicos.

Ainda assim, o partido encontra apoio entre sectores católicos conservadores, frequentemente movidos pelo receio de perda de influência cultural, insegurança social ou nostalgia por uma “ordem cristã” idealizada.

É precisamente esse o risco: uma fé reduzida a identidade cultural, esvaziada de exigência ética. “Estamos a assistir a uma perversão do cristianismo”, alerta um teólogo da Universidade Católica. “Deixa de ser uma proposta de vida e torna-se um emblema tribal.”


O silêncio cúmplice de algumas cúpulas

A instrumentalização da fé é facilitada pelo silêncio — ou pela tibieza — de certas lideranças religiosas. Em Portugal, a Conferência Episcopal tem-se mantido cautelosa. Embora tenha emitido, em 2022, uma nota onde condenava “discursos de ódio e políticas de exclusão incompatíveis com o Evangelho”, nunca mencionou directamente o Chega.

Esta hesitação tem permitido a proliferação de vozes clericais simpatizantes da extrema-direita, especialmente em plataformas digitais. Padres que partilham propaganda anti-imigração, ou que defendem publicamente Ventura como “o único que diz verdades”, têm ganho protagonismo entre comunidades mais conservadoras.

É uma tendência que ecoa o que se passou no Brasil com o bolsonarismo, onde pastores evangélicos e sectores do catolicismo tradicionalista alinharam com um projecto político que contraria frontalmente a mensagem de Jesus.


A falsa dicotomia entre fé e justiça social

Parte da eficácia da narrativa populista reside na criação de dicotomias simplistas: fé ou progresso, tradição ou caos, cristianismo ou islamização. Esta lógica ignora o testemunho histórico da Igreja como promotora da justiça social, dos direitos humanos e da solidariedade internacional.

A Doutrina Social da Igreja é clara ao condenar qualquer forma de xenofobia, racismo ou exploração dos mais fracos. Documentos como Fratelli Tutti (2020) ou Evangelii Gaudium (2013) apontam para uma fé inseparável da acção em favor dos marginalizados. O Papa Francisco, em particular, tem sido firme ao denunciar o uso da religião para fins políticos, advertindo contra o “fundamentalismo disfarçado de ortodoxia”.


Um alerta para os crentes

A história mostra que a aliança entre religião e autoritarismo raramente termina bem. Desde o apoio das igrejas ao fascismo europeu nos anos 30 até aos regimes teocráticos contemporâneos, a fé cooptada pelo poder transforma-se em ferramenta de opressão.

Hoje, em Portugal, os sinais de alerta estão à vista. A cruz, símbolo de entrega e amor radical, é usada como escudo para o medo e o preconceito. A Bíblia, que narra o cuidado com o estrangeiro e o pobre, é citada em discursos que os demonizam. Cabe aos crentes discernir: estão a seguir o Cristo dos Evangelhos ou uma caricatura ao serviço de interesses políticos?


Conclusão: defender a fé da sua instrumentalização

Num tempo de confusão e manipulação simbólica, torna-se missão urgente separar o trigo do joio. Proteger a fé cristã não significa fechá-la numa bolha cultural, mas impedir que ela seja usada para justificar o injustificável.

Porque, como escreveu Dietrich Bonhoeffer — teólogo assassinado pelo regime nazi —, “a fé que não combate a injustiça não é digna de ser vivida”.


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