Quando o exemplo vem de cima: o contágio político do preconceito nas escolas - Sociedade Civil
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Resumo

  • ” A frase foi dita por um menino de seis anos no recreio de uma escola de Almada.
  • o que veem e ouvem nas redes sociais e na televisão tem mais peso do que as aulas de cidadania.
  • O Ministério da Educação não divulgou qualquer plano para abordar o discurso de ódio nas escolas, nem reforçou a formação de professores.

Lisboa, 1 de Agosto de 2025 — “Tu és daqueles que roubam o lugar aos outros.” A frase foi dita por um menino de seis anos no recreio de uma escola de Almada. O alvo: um colega com nome de origem africana. A fonte da frase: um video partilhado em casa, discursos de deputados, a conversa dos adultos. A cena resume um fenómeno alarmante: a normalização do discurso de exclusão entre as crianças, alimentada pelo exemplo político.

Quando deputados expõem nomes de menores para incendiar debates, estão a ensinar algo às crianças: que há nomes que não pertencem, que há pessoas que valem menos. A imunidade parlamentar cobre a legalidade do acto, mas não apaga o seu efeito pedagógico perverso. O exemplo vindo de cima legitima o “se eles podem, eu também posso”.

Professores relatam que, desde o caso Chega, aumentaram os insultos racistas e as exclusões nas turmas. Crianças repetem expressões como “vai para o teu país” ou “não és dos nossos”. Para muitos alunos, a autoridade moral da escola está em queda: o que veem e ouvem nas redes sociais e na televisão tem mais peso do que as aulas de cidadania.

A ausência de resposta institucional agrava o problema. O Ministério da Educação não divulgou qualquer plano para abordar o discurso de ódio nas escolas, nem reforçou a formação de professores. A Comissão de Transparência da Assembleia, que poderia censurar a conduta dos deputados, ficou em silêncio.

Sem orientação, alguns professores estão a improvisar actividades de literacia emocional e diálogos sobre diversidade. Em Setúbal, uma docente leu em voz alta um livro sobre nomes diferentes e perguntou aos alunos o que sentiam ao ouvir palavras ofensivas. Uma menina respondeu: “Acho que as pessoas importantes podem dizer o que quiserem.”

O contágio do preconceito não é inevitável. Mas exige que as figuras públicas assumam responsabilidade pelo impacto da sua retórica. E que as escolas recebam apoio para reafirmar o respeito como valor inegociável. Caso contrário, a próxima geração crescerá acreditando que discriminar é um direito conquistado pelos seus representantes.

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