Resumo
- a eficácia do ataque foi “limitada”, porque a base de Ventura leu o gesto como prova de que o líder “incomoda o sistema”, reforçando a coesão interna – um efeito backfire em versão portuguesa.
- Revisões mais recentes, como o trabalho de Wood e Porter, sugerem que o verdadeiro backfire é raro e que, na maioria dos contextos, o fact-checking corrige pelo menos parcialmente as perceções factuais.
- Quando a identidade de grupo está em jogo, corrigir um boato pode soar menos a “esclarecimento” e mais a “tentativa de controlo”, disparando a tal reação de liberdade ferida descrita pela psicologia da reactance.
Nas presidenciais de 2026, a máquina de desinformação não se limitou a espalhar vídeos falsos. Fez outra coisa mais sofisticada: preparou o terreno para que os desmentidos falhassem. O dossiê ODEPOL/LabCom mostra que 42,9% dos 14 casos principais de desinformação tiveram como alvo direto jornalistas e fact-checkers – uma estratégia para vacinar a base contra qualquer correção futura.
Entre 17 de novembro de 2025 e 18 de janeiro de 2026, estes 14 casos somaram 7,7 milhões de visualizações nas redes sociais. Do outro lado, o arsenal democrático foi outro: fact-checks do Polígrafo e da Lusa Verifica, comunicados da ERC, o “dossiê das 100 mentiras” enviado pelo PS a André Ventura. Resultado? Assimetria total: a investigação conclui que a resposta factual opera “numa escala de velocidade e alcance muito inferior” à desinformação viral.
Quando o fact-checking não chega à bolha
Um episódio ilustra o problema. Numa mesa de jantar no Seixal, alguém pousa o tal “dossiê das 100 mentiras” em cima da toalha. Um eleitor do Chega folheia-o, ri, e dispara: “Se andam a gastar papel com isto é porque ele lhes está a fazer mossa.” O documento foi pensado como arma de escrutínio; dentro daquela bolha, funciona como medalha de perseguição.
O dossiê de investigação chega à mesma conclusão, em linguagem mais seca: a eficácia do ataque foi “limitada”, porque a base de Ventura leu o gesto como prova de que o líder “incomoda o sistema”, reforçando a coesão interna – um efeito backfire em versão portuguesa.
Isto não acontece por acaso. A categoria mais frequente de desinformação mapeada pelo LabCom é precisamente a descredibilização dos media e dos fact-checkers, usada como “ataque preventivo” para que qualquer correção pareça enviesada. Se o mensageiro é “vendido”, a mensagem chega morta.
Backfire: quando a verdade entra e sai mais fraca
A ciência política baptizou esta dinâmica de efeito boomerang ou backfire: há casos em que um desmentido reforça a crença inicial em vez de a atenuar. Estudos clássicos de Brendan Nyhan e Jason Reifler mostraram que, em temas ideológicos quentes, certas correções podem levar grupos altamente motivados a acreditar ainda mais na mentira original. (Calgara)
Mas não exageremos o mito. Revisões mais recentes, como o trabalho de Wood e Porter, sugerem que o verdadeiro backfire é raro e que, na maioria dos contextos, o fact-checking corrige pelo menos parcialmente as perceções factuais. (Springer Nature) Um grande estudo internacional coordenado por Ethan Porter encontrou efeitos consistentes de fact-checking a reduzir crenças falsas em quatro países, mesmo quando o impacto na avaliação dos políticos era pequeno. (pnas.org)
Ou seja: não é o fact-checking que “não funciona”, é o contexto que, por vezes, o transforma em munição do adversário. Quando a identidade de grupo está em jogo, corrigir um boato pode soar menos a “esclarecimento” e mais a “tentativa de controlo”, disparando a tal reação de liberdade ferida descrita pela psicologia da reactance. (Wikipedia)
“Mas eu já vi fact-checks a resultar”
A objeção é importante: se o fact-checking não chega, porque vejo pessoas a partilhar correções e a mudar de ideias?
A resposta honesta tem duas partes:
- Sim, fact-checking resulta muitas vezes. Para grande parte do eleitorado, sobretudo o menos radicalizado, as correções ajudam a distinguir o que é verdade do que é falsidade. Meta-análises recentes mostram efeitos claros na redução de crenças erradas, pelo menos a curto prazo. (PMC)
- Mas há nichos em que quase não entra. Nas presidenciais de 2026, o LabCom fala de uma estratégia de “firehosing”: tal é a mangueira de falsidades que, quando um caso é desmentido, “já a narrativa mudou para o próximo tópico”. Somemos a isto o ataque sistemático aos “media do sistema” e temos o cocktail perfeito para o efeito boomerang: o desmentido chega tarde, devagar e de uma fonte que a audiência já decidiu rejeitar.
Portanto, não é por falta de dados, é por falta de confiança.
O que fazer quando o fact-checking não chega
Se o fact-checking não chega às bases radicalizadas, desistimos? Não. Mas também não podemos fingir que basta publicar mais verificações. O próprio dossiê ODEPOL insiste em respostas complementares: literacia mediática, transparência das plataformas e regulação que desincentive a amplificação algorítmica da mentira.
Do lado de cada um de nós, a coisa é menos teórica. À mesa, no grupo de WhatsApp, no café, talvez funcione melhor fazer perguntas do que atirar links: “Onde viste isso?”, “Sabes quem ganha se acreditarmos nesta história?”, “Aceitavas mudar de ideias se te mostrasse outra fonte?” Não convertemos fanatismos com PDFs, mas às vezes rachamos certezas com dúvidas bem colocadas.
Concessão necessária: haverá sempre quem recuse qualquer facto que contrarie a narrativa do seu líder. Há bolhas tão densas que nem a luz entra. Mas a democracia não se joga só aí – joga-se também naquele eleitor cansado, ainda permeável, que tanto vê um vídeo manipulador no X como lê um desmentido duas horas depois.
No fim, a frase dói, mas é justa: quando a verdade precisa de justificar a sua presença e a mentira entra de porta aberta, o risco já não é só informativo – é democrático.