Resumo
- Prédios reabilitados, calçadas imaculadas, tuk-tuks a vibrar nas colinas, cafés “instagramáveis” com brunch a 18 euros e apartamentos decorados a preceito para estadias de dois ou três dias.
- E com cada despejo, cada prédio vendido em bloco, cada senhorio que opta pelo turismo em vez do arrendamento de longa duração, a cidade perde um pouco da sua alma.
- Um estudo da Confederação do Turismo indica que o sector representa mais de 20% do PIB da cidade, com impacto directo em restaurantes, transportes, serviços e cultura.
Lisboa continua bonita. Talvez mais do que nunca. Prédios reabilitados, calçadas imaculadas, tuk-tuks a vibrar nas colinas, cafés “instagramáveis” com brunch a 18 euros e apartamentos decorados a preceito para estadias de dois ou três dias. Mas há um detalhe que salta à vista: onde estão os lisboetas?
A pergunta já não é retórica. De acordo com os dados mais recentes do INE, Lisboa perdeu mais de 60 mil residentes permanentes na última década, concentrando a quebra nas freguesias centrais: Santa Maria Maior, Misericórdia, Estrela e Arroios. Enquanto isso, o número de alojamentos de curta duração cresceu exponencialmente — e os preços das casas ultrapassaram todos os limites da classe média.
O que era uma cidade europeia habitável está a tornar-se, aos poucos, uma cidade-museu: preservada, bonita, mas vazia de vida local. A quem serve este novo modelo urbano?
Turistas dentro, moradores fora
A pressão do turismo e do investimento imobiliário global transformou Lisboa num “produto” de sucesso internacional. Entre 2015 e 2019, a capital foi repetidamente premiada como destino urbano de excelência. Mas essa distinção tem um custo.
\u3010Entre 2011 e 2021:\u3011
- Santa Maria Maior perdeu 26% dos seus residentes;
- Misericórdia perdeu 22%;
- Ao mesmo tempo, o número de alojamentos registados para Alojamento Local triplicou.
Segundo o Registo Nacional do Alojamento Local, Lisboa tem hoje mais de 18 mil registos activos de AL. Muitos deles concentrados em zonas outrora residenciais. E com cada despejo, cada prédio vendido em bloco, cada senhorio que opta pelo turismo em vez do arrendamento de longa duração, a cidade perde um pouco da sua alma. “Fui expulsa da minha casa de infância, na Rua da Bica, quando o prédio foi comprado por um fundo espanhol”, conta Mariana Gomes, 39 anos, professora. “Hoje vivo em Loures e demoro uma hora a chegar à escola onde trabalho, em Santos.”
A nova economia da saudade
Os promotores imobiliários e investidores adoram Lisboa. Clima ameno, segurança, centro histórico compacto, vantagens fiscais para estrangeiros e retorno rápido. A cidade tornou‑se num hub imobiliário e turístico global, onde a “autenticidade” é mercadoria.
Um estudo da Confederação do Turismo indica que o sector representa mais de 20% do PIB da cidade, com impacto directo em restaurantes, transportes, serviços e cultura. Mas esse crescimento não está a ser redistribuído de forma equitativa.
Os trabalhadores da cidade — enfermeiros, professores, técnicos, lojistas, motoristas — estão a ser empurrados para longe. As periferias crescem, mas os transportes não acompanham. A cidade atrai milhões… mas não consegue manter os seus habitantes.
Gentrificação ou exclusão?
A palavra “gentrificação” tornou-se banal. Mas o que está a acontecer em Lisboa ultrapassa a simples substituição de população. É um processo de exclusão económica sistemática, agravado por décadas de ausência de políticas habitacionais e de regulação eficaz.
“Lisboa não está apenas a ficar mais cara — está a ser reconfigurada para servir visitantes e investidores, não residentes”, afirma Inês Magalhães, ex-secretária de Estado da Habitação. “É uma cidade onde viver se tornou excepção, e não regra.”
O fenómeno tem paralelo noutras cidades europeias — Veneza, Barcelona, Amesterdão — mas em Lisboa, onde os rendimentos médios são mais baixos, o impacto é mais destrutivo.
Quem fica?
Ficam os mais ricos, os idosos com casa própria, e uma minoria de resistentes com contratos antigos ou laços inquebráveis. E ficam também os novos moradores temporários: nómadas digitais, turistas prolongados, residentes fiscais por conveniência.
Mas a cidade perde diversidade. Perde crianças, escolas de bairro, lojas tradicionais, relações de vizinhança. O que resta é um palco — limpo, decorado, mas sem bastidores.
“Trabalho em Lisboa há 20 anos e já não reconheço a cidade”, diz Vítor Silva, motorista de autocarros da Carris. “Saio às cinco da manhã de Vialonga para estar a tempo. Mas no bairro onde nasci, em Alcântara, já nem posso sonhar em voltar.”
E o que está a ser feito?
Nos últimos anos, surgiram algumas medidas: zonas de contenção para o AL, programas municipais de renda acessível, tentativa de reconversão de imóveis públicos. Mas os efeitos são ainda residuais.
Lisboa continua com menos de 4 mil casas de arrendamento público — um número insignificante face à procura. E os incentivos ao investimento privado mantêm-se, mesmo após o fim dos vistos gold.
Em vez de limitar o turismo, a estratégia tem sido de convivência. Mas sem equilíbrio, convivência torna-se colonização.
Museu ou metrópole viva?
A pergunta que paira é brutal: vale a pena ser uma cidade premiada se não se pode viver nela? Vale mais uma economia inflacionada pelo turismo ou uma comunidade viva, diversificada, com jovens, crianças, velhos e trabalhadores?
O risco é claro. Uma Lisboa sem lisboetas é como um quadro sem moldura. Impressiona à primeira vista, mas perde profundidade.
O desafio está lançado. Ou a capital reencontra o caminho da habitação acessível, da mistura social, da coesão urbana — ou ficará cada vez mais como uma peça de museu: bonita, fotografável… e vazia.