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Resumo

  • A geração entre os 25 e os 35 anos — que devia estar a construir autonomia, carreira e família — encontra-se bloqueada pelo preço das casas, pelos critérios dos bancos e pela falta de alternativas habitacionais públicas.
  • Para quem trabalha a recibos verdes, em regime de estágio ou com contratos precários — como acontece com milhares de jovens nas áreas da saúde, ensino ou comunicação — o crédito à habitação está fora de alcance.
  • A fuga dos jovens para a periferia e, em muitos casos, para o estrangeiro, é sintoma da falência de um modelo centrado na propriedade como via única para estabilidade.

A escalada dos preços da habitação e os salários estagnados empurram os jovens para a dependência familiar ou para soluções públicas. Comprar casa sozinho tornou-se quase impossível.

Há uma década, a ideia de um jovem adulto comprar casa antes dos 35 parecia desafiante, mas realista. Hoje, parece quase uma fantasia reservada aos filhos da classe alta. Com salários médios pouco acima dos 1.200 euros e preços de imóveis a disparar, entrar no mercado imobiliário passou a exigir uma combinação de sorte, herança ou ajuda directa dos pais.

A geração entre os 25 e os 35 anos — que devia estar a construir autonomia, carreira e família — encontra-se bloqueada pelo preço das casas, pelos critérios dos bancos e pela falta de alternativas habitacionais públicas. A “porta de entrada” para a vida adulta está emperrada.


Números que dizem tudo

Segundo dados do Banco de Portugal, em 2024:

  • Apenas 12% dos compradores de primeira habitação tinham menos de 35 anos;
  • Mais de 60% recorreram a apoio familiar — seja como co-fiadores, seja com entrada directa (média de 30 mil euros);
  • 1 em cada 5 jovens adultos ainda vive com os pais após os 30 anos.

Estes números não são uma anomalia. São o retrato de um país onde a propriedade foi financeirizada, mas os rendimentos ficaram estagnados.

“Para comprar uma casa de 200 mil euros, um jovem precisa de pelo menos 30 a 40 mil euros de entrada e rendimentos mensais que suportem uma prestação acima dos 800 euros”, explica Sofia Lobo, analista financeira. “Sem ajuda externa, isso é inalcançável para a maioria.”


Os bancos não ajudam

Com a subida da Euribor em 2022–2023 e a instabilidade macroeconómica, as instituições bancárias tornaram-se mais exigentes. Pedem entradas mínimas de 10% a 20%, comprovativos de estabilidade profissional e, muitas vezes, co-fiadores.

Para quem trabalha a recibos verdes, em regime de estágio ou com contratos precários — como acontece com milhares de jovens nas áreas da saúde, ensino ou comunicação — o crédito à habitação está fora de alcance.

“Trabalhamos os dois, temos cursos superiores, mas somos vistos como ‘riscos’”, conta Marta e Tiago, casal de 29 e 31 anos, residentes em Coimbra. “Só conseguimos o crédito porque os pais do Tiago deram o valor da entrada e ficaram como fiadores.”


A ajuda do Estado: suficiente?

Em 2024, o Governo lançou o programa “Porta 65+”, que permite apoiar jovens até aos 35 anos na compra da primeira habitação, com garantias públicas parciais e redução de impostos de transmissão. Mas os critérios continuam apertados, e a dotação orçamental cobre apenas cerca de 2.500 agregados por ano.

Além disso, muitos jovens desconhecem as medidas ou desistem face à burocracia exigida. Os programas de renda acessível também não respondem à procura: em Lisboa, por exemplo, havia em 2024 apenas 750 fogos com renda condicionada disponíveis para jovens.

“A política habitacional tem estado centrada no investimento e na reabilitação urbana, mas esquece quem começa do zero”, critica Eduardo Pires, presidente da Associação Portuguesa de Jovens pelo Direito à Habitação.


E quem não tem ajuda?

Para os que não têm pais com património, heranças ou rendimentos confortáveis, a realidade é dura: ou se arrenda (pagando valores muitas vezes superiores à prestação de um crédito), ou se aceita viver fora das grandes cidades, longe do trabalho e da rede social de apoio.

A fuga dos jovens para a periferia e, em muitos casos, para o estrangeiro, é sintoma da falência de um modelo centrado na propriedade como via única para estabilidade.

“Sou enfermeira e ganho 1.450 euros líquidos. Em Lisboa não me deixam alugar sem fiador, comprar está fora de questão. Vou para a Bélgica no próximo mês”, conta Rita, 27 anos, num tom que mistura frustração com alívio.


A grande desigualdade: património herdado vs. mérito pessoal

A crescente dependência dos pais para aceder à habitação reverte o avanço geracional da mobilidade social. Em vez de se progredir com base em esforço e qualificações, volta a importar o património da família de origem.

Esta realidade gera frustração e desmotivação. “Trabalhamos tanto ou mais que os nossos pais, temos mais estudos — e mesmo assim, não conseguimos o que eles conseguiram aos 30 anos com muito menos”, desabafa João, engenheiro civil de 32 anos.


O que poderia mudar o jogo?

Especialistas apontam várias medidas com impacto directo:

  • Garantias públicas automáticas para primeiros compradores até aos 35 anos;
  • Subvenção parcial da entrada inicial com base em rendimentos;
  • Construção pública de habitação jovem com venda a custos controlados;
  • Limitação da compra especulativa em zonas de pressão urbana;
  • Benefícios fiscais para pais que apoiem legalmente a aquisição de habitação por filhos.

“O futuro de uma geração não pode depender da sorte dos pais”, alerta Clara Alves, investigadora do Instituto de Políticas Públicas. “Ou investimos na autonomia residencial dos jovens, ou condenamos o país ao envelhecimento e à fuga de talento.”


A geração da sala emprestada

Em 2025, ter casa própria antes dos 35 não é sinal de maturidade ou esforço. É, cada vez mais, sinal de apoio familiar — ou de ter sido dos poucos a vencer uma lotaria financeira e emocional.Para todos os outros, resta a sala emprestada, a renda sufocante ou a esperança de uma mudança estrutural que tarda em chegar. Porque, neste país, crescer custa — mas habitar custa ainda mais.

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